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Domingo, 09 de julho de 2017

Reflexão conjunta

Quatro perguntas para Angela Cassia Rodrigues, doutora em saúde ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da USP, mestre em Engenharia de Produção (UNIMEP) e especialista em Meio Ambiente (FESPSP)

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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Angela Cassia Rodrigues:

Angela Cassia Rodrigues: "Em grande parte dos descartes realizados, a “culpa” não é de quem descarta. Os produtos são projetados para durar pouco e não terem condições de serem reparados". Foto: Divulgação

Em sua pesquisa de doutorado, a senhora investigou o fluxo dos resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos (EEEs) no município de São Paulo. Em que ano a pesquisa foi feita e que universo ela abrangeu?

Em 2010, com amostra estatisticamente representativa dos lares paulistanos, mediante entrevistas em domicílio, com o uso de questionário contendo perguntas sobre: o estoque de equipamentos eletroeletrônicos em uso e fora de uso, por tipo de equipamento (foram considerados 26 tipos), formas de descarte adotadas e as respectivas quantidades descartadas nos cinco anos anteriores à pesquisa (por tipo de equipamento). Além disso, foi feito um estudo exploratório em Portugal para conhecer a experiência bem-sucedida de gestão naquele país.

 

Quais foram os principais resultados obtidos?

No município de São Paulo havia 71,8 milhões de EEEs, com média de 21 EEEs/domicílio. Destes, 8,8 milhões estavam guardados (fora de uso). Embora a maioria dos relatos indicasse tentativa de prolongar o tempo de uso por meio do conserto, havia limitações econômicas e técnicas. Para 65% dos entrevistados, o custo do conserto era o maior fator impeditivo. Nos últimos anos, estimou-se que o descarte no município foi de 20,5 milhões de EEEs fora de uso, envolvendo destinação com intenção de reutilização (59,5%), de reciclagem (20,4%) e descarte no lixo comum (16%).

 

A reciclagem de componentes eletroeletrônicos é complexa. Além de requerer tecnologias avançadas, envolve a manipulação de substâncias potencialmente tóxicas. Considera viável incluir os catadores de materiais recicláveis convencionais nesse processo?

Venho estudando essa questão desde 2003, quando não se cogitavam pesquisas sobre esse tema no Brasil. Muitas cooperativas enfrentam desafios em sua gestão, em especial no que se refere à melhoria das condições de trabalho e à proteção da saúde da mão de obra envolvida. Li inúmeros artigos na literatura internacional sobre questões de saúde do trabalhador no setor de reciclagem e, por isso, não sou a favor de que esse tipo de resíduo seja manipulado em centrais de triagem operadas por organizações de catadores. Essas centrais são concebidas para o manejo de materiais recicláveis, predominantemente de produtos de embalagens, para os quais não há necessidade de cuidados adicionais e treinamento, como para os resíduos eletroeletrônicos. Em que pesem os treinamentos promovidos por ONGs bem intencionadas, a rotatividade desses trabalhadores é muito grande.

 

Como o Brasil pode avançar rumo a uma reflexão mais ampla, que inclua, por exemplo, questionamentos sobre as altas taxas de descarte e hábitos que incentivem melhores decisões de compra? Como engajar a sociedade e os demais atores dessa cadeia?

Uma reflexão mais ampla deve envolver, nesta ordem: gestores públicos, em conjunto com pesquisadores, fabricantes, distribuidores, recicladores e a sociedade organizada. Em grande parte dos descartes realizados, a “culpa” não é de quem descarta. Os produtos são projetados para durar pouco e não terem condições de serem reparados. Os fabricantes não disponibilizam peças de reposição em quantidade e tempo adequados e há um desestímulo aos serviços de assistência técnica. É isso que move a indústria: mais vendas, em curto prazo, maior o lucro. Os prazos de garantia deveriam ser ampliados e, os consumidores, pautarem suas compras pelos fabricantes que oferecessem prazos mais estendidos e garantissem a retirada/coleta gratuita do produto ao fim de sua vida útil. Um caminho importante nesse sentido seria a implementação efetiva da logística reversa, por meio de decreto governamental e não como vem sendo feita, mediante acordos setoriais, sem metas, responsabilidades e prazos claramente definidos. 

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