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Domingo, 09 de julho de 2017

Lixo eletrônico

Descarte adequado e reciclagem desse tipo de resíduo eletrônico, que contém diversas substâncias potencialmente tóxicas, ajudam a proteger a natureza e a saúde das pessoas.

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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Reflexão mais ampla sobre a realidade brasileira deve envolver gestores públicos, em conjunto com pesquisadores, fabricantes, distribuidores, recicladores e a sociedade organizada. Implementação efetiva da logística reversa também é essencial.

Reflexão mais ampla sobre a realidade brasileira deve envolver gestores públicos, em conjunto com pesquisadores, fabricantes, distribuidores, recicladores e a sociedade organizada. Implementação efetiva da logística reversa também é essencial.

A indústria eletroeletrônica, uma das que mais crescem em todo o mundo, gera a cada ano aproximadamente 40 milhões de toneladas de resíduos sólidos provenientes, sobretudo, de computadores e smartphones. Esse tipo de resíduo, também conhecido como e-lixo ou lixo eletrônico, caracteriza-se por conter substâncias potencialmente tóxicas, como chumbo, mercúrio, cádmio e retardantes de chama, assim como materiais de valor econômico, entre os quais, cobre, ouro, prata e alumínio.

No entanto, entre 60% e 90% desses resíduos – que contêm vários materiais recicláveis, com valor estimado em US$ 19 bilhões –, são comercializados ilegalmente, descartados junto aos resíduos domésticos e/ou se acumulam em bota-foras, elevando o risco de contaminação ambiental de inúmeras cidades ao redor do mundo.

Na sociedade atual, em que a maioria da população vive conectada, ninguém quer abrir mão da comodidade e da interação proporcionadas por diversos aparelhos presentes em nosso dia a dia. Eles incluem desde celulares, computadores e TVs até câmeras fotográficas, impressoras, eletro-portáteis e eletrodomésticos de grande porte.

Uma alternativa viável, portanto, é assegurar o descarte seguro do e-lixo, e, consequentemente, ajudar a fomentar a cadeia de reciclagem de seus principais componentes. Quando coletado, separado e reciclado adequadamente, o lixo eletrônico poupa a natureza e ainda contribui para melhorar a qualidade de vida e a saúde das pessoas.

Dessa forma, evita a contaminação do solo e das águas, por meio do tratamento adequado dos materiais potencialmente tóxicos, e reduz a quantidade de resíduos sólidos a ser enviada aos aterros sanitários. Além disso, possibilita o uso dos materiais recuperados como matéria-prima para outros segmentos da indústria, tais como o químico e o farmacêutico.

 

Efeito estufa

Conforme especialistas, a reciclagem de uma tonelada de e-lixo evita a emissão média de três toneladas de dióxido de carbono (CO2), um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. Apesar de não haver consenso sobre a quantidade exata de resíduos elétricos e eletrônicos gerada no Brasil e no mundo, algumas estimativas prevalecem.

Entre os chamados países emergentes, tais como China e Índia, o Brasil é líder na geração desse tipo de resíduo por habitante: são aproximadamente 4,8 quilos/ano, conforme aponta relatório produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em 2015.

Considerando apenas telefones celulares, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), há cerca de 243 milhões de linhas ativas no Brasil. Com uma população atual de 207 milhões de pessoas, isso equivale a 1,17 celular por habitante. Já o tempo médio de uso (vida útil) de um celular entre os brasileiros é inferior a dois anos.

Do ponto de vista da legislação brasileira, em 2010, foi aprovada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Ela se destina a disciplinar a gestão adequada dos resíduos sólidos, observando a seguinte ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.

Um dos pontos fundamentais dessa lei é o conceito da logística reversa, ou seja, conjunto de ações que permite o retorno dos resíduos aos fabricantes dos produtos, para que sejam tratados ou reaproveitados, dando origem a novos produtos.

 

Incentivo à coleta

No segmento de telefonia móvel, uma das iniciativas de destaque no país é o programa “Claro Recicla”. Seu objetivo é contribuir para a conscientização da população sobre a importância de reciclar e também dar uma destinação ambientalmente segura aos celulares, baterias recarregáveis, chips e acessórios com vida útil ultrapassada.

Por meio do Claro Recicla, lançado em 2008, a operadora monitora todo o fluxo de reciclagem do lixo eletrônico e mantém urnas em mais de dois mil pontos de coleta. A empresa também publicou uma cartilha com orientações sobre a forma correta de descartar eletrônicos obsoletos ou fora de uso.

Para o consumidor, tudo é feito de forma prática. O cliente – inclusive de outras operadoras – pode depositar o material obsoleto de qualquer fabricante nas urnas coletoras. Não é necessário preencher formulários ou entrar em contato com os funcionários.

Todo o material é coletado pela empresa Essencis, que o separa, classifica e encaminha para a reciclagem. Grande parte do trabalho é feita pela Umicore, uma das principais empresas de reciclagem de baterias recarregáveis e celulares do mundo.

 A Umicore tem um processo exclusivo de reciclagem, denominado VAL’EAS, voltado para a recuperação dos metais desses produtos, que ocorre em suas fábricas na Suécia e na Bélgica. Para consultar a lista dos pontos de coleta da Claro, basta acessar www.claro.com.br/clarorecicla.

 

 

Entenda melhor:

- De acordo com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), os equipamentos eletroeletrônicos compreendem quatro linhas de produtos:

A) Linha branca: refrigeradores, fogões, secadoras e lavadoras.

B) Linha marrom: monitores, TVs, equipamentos de áudio e filmadoras.

C) Linha azul: batedeiras, liquidificadores, furadeiras e cafeteiras.

D) Linha verde: computadores, notebooks, tablets e celulares.

- Ao fim da vida útil desses equipamentos, quando descartados por seus usuários, eles passam a ser denominados resíduos eletroeletrônicos, e-lixo ou, na linguagem popular, lixo eletrônico.

- A partir do descarte há as seguintes possibilidades de valorização desses produtos pós-consumo: reúso por terceiros (mediante sua reparação, caso estejam quebrados) ou a reciclagem.

 

Visitas guiadas

Para encontrar locais seguros de descarte de lixo eletrônico, uma boa dica é ficar atento às orientações dos fabricantes, em especial sobre os cuidados que se deve ter no manuseio de produtos obsoletos e seus componentes.

As cooperativas e empresas de reciclagem também têm ampliado sua atuação em diferentes cidades brasileiras. Em São Paulo, estado que mais gera resíduos eletroeletrônicos no Brasil, boa parte da população ainda desconhece o impacto ambiental que o descarte irregular de equipamentos velhos ou quebrados acarreta.

Para alertar sobre essa realidade, mensalmente, a Coopermiti (www.coopermiti.com.br), cooperativa sediada em Casa Verde, na Zona Norte, promove palestras e recebe a população para visitas guiadas. Durante os eventos, os visitantes podem aproveitar para descartar equipamentos eletroeletrônicos quebrados ou sem uso. A Coopermiti conta, ainda, com um museu tecnológico, acervo que reúne os objetos mais curiosos já entregues no local.

De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), São Paulo lidera a lista dos maiores geradores de e-lixo, com 448 mil toneladas/ano. No entanto, a Coopermiti ainda opera abaixo da sua capacidade mensal por falta desse tipo de resíduo.

Na capital mineira, a empresa BH Recicla (www.bhrecicla.com.br) atua na destinação de sucata metálica, eletrônica, informática, máquinas, equipamentos e estruturas industriais. Grandes e pequenos volumes podem ser descartados mediante agendamento online e também por telefone. É possível ainda solicitar a coleta grátis.

A destinação segue as ações pautadas na PNRS e engloba os seguintes passos: triagem, desmontagem, descaracterização e classificação dos resíduos, sempre com foco na reciclagem dos componentes. A BH Recicla realiza, em média, 700 atendimentos por mês, incluindo empresas e consumidores individuais.

 

 


 

Leia mais:

Quatro perguntas para Angela Cassia Rodrigues, doutora em saúde ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da USP, mestre em Engenharia de Produção (UNIMEP) e especialista em Meio Ambiente (FESPSP)

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