Domingo, 09 de julho de 2017

A pedagogia da atitude

O jornalista André Trigueiro fala sobre seu novo livro “Cidades e Soluções”.

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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André Trigueiro: “Um mundo mais sustentável 
tem de começar dentro de nós”. Foto: Leandro Dittz

André Trigueiro: “Um mundo mais sustentável tem de começar dentro de nós”. Foto: Leandro Dittz

A humanidade vive um período de extrema ignorância ambiental. Do ponto de vista da preservação da vida na Terra, isso é perturbador: a maioria das pessoas vê que a natureza está sendo destruída, mas aprendeu a aceitar a violência contra os nossos recursos naturais com mera desconsideração intencional. No entanto, essa “comodidade” ingrata, principalmente se você vive em uma cidade, precisa sofrer um revés.

Em 2050, segundo estimativas da ONU, 70% da população viverão nas zonas urbanas. No Brasil, a realidade é mais avassaladora: chega a 85%, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Considerando que qualquer solução para a melhoria de vida da população passa pelas cidades, é imperioso que bons exemplos e projetos sejam cada vez mais pensados e replicados mundo afora. O momento de crise implica uma mudança íntima e coletiva de atitude em favor do meio ambiente.

São essas experiências transformadoras que se multiplicam nas páginas do novo livro do jornalista André Trigueiro: “Cidades e Soluções – Como Construir uma Sociedade Sustentável”. Inspirada no programa homônimo apresentado na GloboNews há mais de dez anos, a obra também denuncia os riscos de um colapso ecológico global, mas está sempre alicerçada com esperança no ser humano.

“A utopia de um mundo melhor e mais justo, onde a sustentabilidade seja o norte magnético da bússola, dependerá basicamente de uma nova cultura urbana. São novos hábitos, comportamentos, estilos de vida e padrões de consumo que devem considerar os limites do planeta e a escassez crescente de recursos naturais não renováveis fundamentais à vida. A boa notícia é que isso não é apenas possível, mas já está acontecendo”, afirma Trigueiro no texto introdutório.

Cidades que se transformaram, rios poluídos resgatados, projetos exitosos de eficiência energética, uso sustentável de recursos naturais, modelos de reciclagem de sucesso. Entrevistas com personalidades notáveis na área ambiental, empresarial e científica. Tudo em “Cidades e Soluções” é para inspirar. “O livro traz a pedagogia da atitude”, reforça o jornalista.

Confira a entrevista que ele concedeu à Ecológico na última semana fria de junho:

 

O novo livro é uma vitrine de soluções, rumo e perspectiva para as pessoas. Imagem: Divulgação

 

Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Comentei com minha esposa, Cláudia Guimarães, que o programa “Cidades e Soluções” estava completando dez anos no ar, com mais de 400 edições exibidas, e ela me disse: “Isso tem que virar livro”. Cláudia é jornalista e, então, me senti muito acolhido. Acabou sendo uma relação matrimonial que se confundiu com profissional: ela participou ativamente da confecção da obra, editando e sugerindo novos textos e realizando pesquisas.

 

O livro não é uma reprodução dos roteiros dos programas?

Não. Eles apenas serviram de ponto de partida para alavancar um projeto editorial que surgiu de um projeto jornalístico. Nele, atualizamos dados, incorporamos novos conteúdos, reorganizamos demandas. “Cidades e Soluções” tem o nome do programa, mas ele tem autonomia e traz um pacote de soluções sustentáveis que mudaram para melhor a vida das pessoas. Transformaram o lugar onde elas vivem de uma maneira positiva, reduzindo o desperdício, estabelecendo uma relação inteligente com o meio ambiente em que as comunidades estão inseridas.

 

Que fatores hoje impedem a construção da sociedade sustentável que o livro aponta?

Estamos falando de uma mudança de cultura. E cultura não se muda por decreto. Portanto, em diferentes níveis de organização social há perceptíveis reações pontuais à ideia do novo. Por quê? Primeiro, por falta de informação. Segundo, porque se está contrariando interesses. Vamos pegar o exemplo de Belo Horizonte: ela aparece no livro como a capital brasileira dos coletores solares. O que seria contrariar interesses nesse contexto? Que os coletores vão encarecer a construção. Então, quem só está preocupado com o custo de construir alega que isso deixa a obra mais cara. Mas se incorporá-lo na conta do usuário, seja um edifício comercial ou residencial, o retorno vem em dois ou três anos e você começa a consumir água quente sem gastar como antes. Isso é extremamente vantajoso. Mas não está na contabilidade da empreiteira, da construtora ou da incorporadora.

 

Isso é diferente em BH?

Na capital mineira, já é cultura: está na consciência de quem vai comprar imóvel na planta perguntar se o empreendimento tem coletor solar. Fora de BH, as construtoras sabem que essa solução existe, mas não a aplicam por uma questão de comodidade no curto prazo. Isso é crime de lesa-cidade. É algo que afronta o bom senso.

 

Falando de educação ambiental, o Brasil já encontrou um jeito certo de ensinar sustentabilidade?

Não, embora eu reconheça avanços nas escolas públicas e privadas. A garotada hoje tem muito acesso a informações na área de resíduos sólidos, reciclagem, reaproveitamento de materiais ou sobre a importância de usar com inteligência a água, que é um recurso escasso e precisa ser um bem valorizado. Mas não me parece que as instituições de ensino estejam majoritariamente aplicando tudo aquilo que está inserido nos parâmetros curriculares do Ministério da Educação (MEC), onde a sustentabilidade é entendida como um dos conteúdos transversais.

 

De que forma isso pode ser trabalhado nas escolas?

O que seria a água abordada de forma transversal? O professor de história mostrar lugares no mundo onde a disputa por água justificou conflitos ou guerras diplomáticas. O de geografia, como as características geográficas da água são desiguais no planeta e como certas culturas se estabeleceram geograficamente próximas de mananciais ou nascentes. O de matemática pode ensinar como fazer uma conta em metro cúbico, a medir a força da água a partir de regras e formas de cálculo que vão emprestar sentido, como a eletricidade, a construção de barragens, a maneira como se canaliza leito de rio, se pensa estocagem e uso de água. E por aí vai.

 

Falta então reforçar mais a abordagem e os debates sobre temas ambientais no âmbito escolar?

Sim. Quer um exemplo? Falar muito sobre a reciclagem de lixo em sala de aula não resolve o problema do debate ausente sobre consumismo. Se você educa a pessoa para fazer reciclagem ou reaproveitamento de materiais em uma escola, mas não insere no conteúdo a questão do consumo consciente, que está intrinsecamente ligada à geração de resíduos, não adianta. Como serei zeloso com o que estou descartando se não sou cuidadoso na hora de consumir? Como me posiciono como consumidor em um mundo que vive uma crise ambiental sem precedentes?

 

Que cidade brasileira vem conseguindo encontrar soluções ambientais que efetivamente se traduziram em mais qualidade de vida para a população?

São Paulo. A única megacidade do país, a meu ver, que na gestão municipal passada deu passos importantes e consistentes para estabelecer novas rotinas ou diretrizes na busca de um modelo sustentável de gestão. Isso aconteceu quando a prefeitura abriu caminho para as bicicletas na cidade, que é ostensivamente motorizada. Quando inaugurou duas usinas mecanizadas de reciclagem de resíduos contratando cooperativas de catadores para participar da triagem dos materiais, acelerando um processo sustentável na cidade que mais gera e consome lixo no Brasil. Quando começou a implantar faixas seletivas para ônibus e reduziu a velocidade nas marginais, comprovando o impacto da redução de mortalidade com números. E ainda proibiu sacos plásticos, com políticas públicas para regular a demanda, instituindo a coleta seletiva. São exemplos de como a maior e mais caótica cidade do Brasil, no sentido da conurbação, de verticalização urbana, tudo junto e misturado, teve a iniciativa de usar o poder público como propagador de iniciativas que remetem a uma nova cultura. Há mérito nisso, porque é a nossa maior metrópole e a mais desafiadora do ponto de vista de gestão de qualquer coisa.

 

Fora do Brasil, Freiborg, na Alemanha, é um grande exemplo internacional de cidade sustentável. Berlim está no mesmo caminho?

Berlim foi toda recauchutada depois da guerra. Os alemães conseguiram combinar uma cultura centrada no pragmatismo com a precisão germânica de “missão dada é missão cumprida”. O fato de serem craques nas ciências exatas, principalmente a engenharia, contribuiu para isso. Eles se levantaram por duas vezes, depois de duas guerras que perderam. O contexto brasileiro é completamente diferente, pois ainda se remete àquela questão de “paraíso de recursos abundantes e infinitos na Terra”, como se em seu radar não houvesse a palavra “crise”. Enquanto estou conversando com você, Brasília experimenta o primeiro racionamento de água da sua história. O Nordeste, a pior estiagem em 100 anos - e historiadores já afirmam que é a seca mais severa de todos os tempos. E só fazem apenas três anos que passamos pela falta d’água mais devastadora de São Paulo, que obrigou o paulistano a sentir o gosto do volume morto. Estamos no país mais rico do mundo em recursos naturais, inclusive de água!

 

E que vai sediar o Fórum Mundial das Águas ano que vem!

Exatamente. Não há lugar melhor para isso acontecer. O nosso aprendizado está sendo pela dor. É só pensar, por exemplo, na Bacia do Rio Doce. Ela só tem valor e importância depois que morre. Ela sempre foi o vazadouro de rejeitos de minério, das cidades sem saneamento. Na história do Rio Doce, os movimentos em favor da sua resilência eram pontuais e pouco significativos. Agora, tudo mudou.

 

Então a pedagogia do planeta Terra é mesmo a dor?

É. E o livro traz a pedagogia da atitude. Não estou dizendo que perdemos tempo com os projetos, protótipos e utopias passadas. “Cidades e Soluções” foca naquilo que, de fato, já transformou realidades. Compartilhamos informação relevante, porque ela traz como riqueza o resultado. Voltando no Rio Doce, falamos no livro sobre projetos muito bem resolvidos de fabricação de tijolos a partir de rejeito de minério de ferro desenvolvidos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que foram oferecidos às mineradoras e elas desprezaram. No trecho que abordamos o maior desastre ambiental do Brasil, fizemos questão de afirmar que há utilidade e serventia para o rejeito de minério, que não deveria ser visto como algo que não tem outra destinação a não ser a de ocupar progressivamente um reservatório. Não faz sentido. É bizarro e constrange a inteligência de quem deveria ter a solução como saída. E há solução para o lixo, o esgoto e, principalmente, para os rejeitos de mineração.

 

Chico Xavier dizia que “toda crise é fonte sublime de espírito renovador para os que sabem ter esperança”.

É nos momentos de crise que as soluções se tornam mais urgentes e valiosas. Este é o momento certo para frisarmos isso. Os 10 anos do programa “Cidades e Soluções” foram celebrados em 2016, mas quis o destino que o lançássemos em 05 de junho de 2017, no “Dia Mundial do Meio Ambiente”. E em plena segunda-feira, dia de exibição do programa na GloboNews. No auge de uma crise política horrorosa, um momento econômico devastador para os brasileiros, em que todos estão prostrados, perplexos e irritados. E com razão.

 

Como a espiritualidade influencia no seu trabalho com meio ambiente?

Não é só no trabalho com ecologia. Tanto este novo livro quanto o anterior, “Viver é a Melhor Opção”, têm a ver com vida. Estamos falando de defesa, de proteção, de exaltá-la como patrimônio que merece atenção e reclama atitude. Seja no microcosmo de um indivíduo seja no macrocosmo de uma civilização, prestemos atenção no que estamos fazendo. A espiritualidade para mim é fonte de muita inspiração por conta desse comprometimento na defesa da vida, nas suas diferentes resoluções. Inclusive, este é o quarto livro que lançamos em que os direitos autorais são destinados para o Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade que atua voluntária e gratuitamente no apoio emocional e na prevenção do suicídio.

 

Este novo livro traduz o seu trabalho jornalístico em qual sentimento?

De perceber o mundo como um lugar em que a gente está de passagem, e essa transitoriedade implica uma responsabilidade no uso do tempo. E por isso temos de fazer o que está ao nosso alcance para transformar o mundo em um lugar melhor e mais justo. Isso é muito espiritual e fora do quadrante linear espaço-tempo que vivemos. O norte magnético da minha bússola está apontando nessa direção, sem nenhum conteúdo proselitista. Não estou tentando converter ninguém ou pedindo que pensem como eu. Na minha vida, a espiritualidade é uma oportunidade de realizar um trabalho útil para alguém. E o jornalismo só faz sentido se for assim.

 

O programa na GloboNews completou uma década em 2016. Qual o balanço você faz desse tempo no ar?

“Cidades e Soluções” foi o primeiro programa da televisão brasileira, seja aberta seja por assinatura, a compensar carbono emitido. Construímos uma trajetória bacana sobre como realizar um trabalho jornalístico sem se escorar em notícia ruim, de violência, de guerra... Os 24 prêmios que o programa conquistou sugerem isso: é possível fazer jornalismo ancorado em notícia boa! Naquilo que funciona, resolve, modifica para melhor as coisas e as pessoas. No início do programa, o primeiro prêmio que ganhamos foi de R$ 10 mil. Em uma sugestão que o grupo todo acatou, investimos o dinheiro em uma pós-graduação em Gestão Ambiental, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para uma colega nossa, que foi muito importante na largada do projeto. E ela fez o curso, para assim termos na Redação mais massa crítica, mais gente ajudando a qualificar pauta. Tudo isso é espiritual. Não podemos falar de solução se nós não praticarmos isso da porta para dentro. Se você não está fazendo aquilo que não defende como certo, e ficar nessa hipocrisia do discurso com a prática, em algum momento a máscara cai. Temos de passar a verdade. Estamos falando de um mundo mais sustentável, e isso tem de começar dentro de nós.

 
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