Segunda, 05 de junho de 2017

A serra pede paz

Eleita democraticamente o cartão de visitas natural de BH, a Serra do Curral vive mais um falso dilema ao longo de sua polêmica história de agressão e preservação

Hiram Firmino - redacao@revistaecologico.com.br



font_add font_delete printer
Vista da Serra com o Parque das Mangabeiras a seus pés: vitória da luta ambiental e do amor à natureza. Foto: Rodrigo Queiroga

Vista da Serra com o Parque das Mangabeiras a seus pés: vitória da luta ambiental e do amor à natureza. Foto: Rodrigo Queiroga

Como é triste. E como desconstrói continuar assistindo à radical polêmica envolvendo a construção do novo e sustentável Hospital de Câncer da Oncomed no lugar dos escombros até hoje permitidos do ex-Instituto Hilton Rocha, já passados 14 anos de abandono nas franjas do mais querido monumento natural da capital dos mineiros.

Essa tristeza ecológica me ocorreu novamente. Foi durante a última e tumultuada audiência pública sobre o assunto realizada pela Câmara Municipal de BH.

De um lado, com torcida menor, os consultores e representantes técnicos da Oncomed. E de outro, em número massivamente maior, com cartazes denunciativos e aguerridos, os representantes da Associação dos Moradores do Bairro Mangabeiras e seus parceiros ideológicos, encabeçados pelo Ministério Público.

Tristeza contábil. No final da audiência, nenhum futuro e consensual vencedor. Se conseguir implantar seu projeto, sem ações mitigadoras e, principalmente, bastante compensatórias, para não dizer generosas a favor da natureza da Serra (incluindo uma passagem para a fauna local), a Oncomed terá construído um hospital com a pecha de maldito para sempre na história ambiental da ex-Cidade Jardim do Brasil. 

Já os moradores próximos e o Ministério Público, se vencerem a disputa, também serão lembrados para sempre como aqueles que, olhando para o próprio umbigo, impediram a construção de um avançado e necessário hospital de tratamento de câncer, com capacidade para 220 leitos. Uma nova trincheira de assistência e luta científica também contra a doença que hoje, superando as do coração e muito além das nossas montanhas, mais mata seres humanos no planeta.

O que fazer, então, para que só haja ganhadores?

Enquanto ministra do Meio Ambiente, a senadora e mulher da floresta Marina Silva já apontou o sábio caminho do meio, conforme a Revista Ecológico já mostrou. Segundo ela, eleita pela Revista Time como uma das 50 personalidades mundiais capazes de influenciar e mudar o comportamento ambientalmente suicida dos governos e da humanidade, sob a ótica da sustentabilidade não nos cabe mais nos posicionarmos contra ou a favor de qualquer interferência na natureza. Mas, sim, como fazê-la, de maneira economicamente viável, ambientalmente correta e socialmente mais justa, que é o outro nome da sustentabilidade.

 

Tristeza pontual

Foi o que senti quando, a exemplo dos demais oradores e com o tempo irrisório de apenas três minutos para cada um, o biólogo Célio Valle foi chamado para também dar o seu depoimento. Pouca gente ali, principalmente os mais jovens, sabia quem ele é, já na altura dos seus 84 anos de militância e os cabelos totalmente brancos.

Ao lado de Hugo Werneck, já falecido, e Angelo Machado, 88 anos, Célio e seus olhos da cor do céu integram o triunvirato mais notável até hoje na história preservacionista de Minas e do país.

Em termos nacionais, sem as redes sociais nem celular, foram eles que mais lutaram – via diálogo e amor de verdade à natureza - pela salvação e criação do hoje Parque Nacional da Serra do Cipó. Idem, pelo Parque Estadual do Rio Doce, no Vale do Aço, considerado a “Amazônia Mineira”, a maior área preservada de Mata Atlântica do país, fora da Amazônia Legal. E, em termos locais, pela preservação do que hoje conhecemos como Parque das Mangabeiras, a maior área verde e de lazer da capital mineira.

Em seu curto depoimento longe do microfone, Célio Valle não conseguiu informar a plateia de que, junto de seus dois velhos companheiros e sem a modernidade hoje de vídeos dirigidos ou manipulados na internet, somente na saliva e com o coração verde, ele também conseguiu evitar a implantação de um grande loteamento e construção imobiliária pretendido pela própria Prefeitura de BH em toda a área do Parque das Mangabeiras que conhecemos. E, na época, para conseguir esse êxito ambiental histórico para BH, eles tiveram de negociar à exaustão, inclusive, com o governo. Ganhar aqui, perder ali. E o que perderam, em troca de tudo que conseguiram, foi grande parte da área que é hoje o Bairro das Mangabeiras, das praças da Bandeira e do Papa até o pé da Serra do Curral, justamente onde se trava a atual discussão.

Toda esta área, e não apenas o Instituto Hilton Rocha, foi edificada, portanto, dentro do limite maior do tombamento.

Manifestação pela construção do novo hospital tem mobilizado também a população. Foto: Ecológico

 

Pano caído

Enfim, quando Célio Valle conseguiu ser ouvido pela plateia inflamada, o pano caiu de vez. Para a surpresa geral, ele disse que, como ambientalista, em vez de estar contra a construção do novo hospital, tinha outras duas missões ali.

A primeira, é que ele estava representando, nesse dia, o adoentado professor Angelo Machado, atual presidente da Fundação Biodiversitas. Instituição científica de credibilidade e reconhecimento públicos, a fundação foi consultada pela Oncomed para ajudá-la a conseguir o licenciamento ambiental, via implantação compensatória de um corredor ecológico capaz de ligar as áreas verdes dos parques da Baleia, Mangabeiras e Serra do Curral até os parques do Jambreiro e Rola Moça, na região sul de BH.

O objetivo maior é consolidar um cinturão de vida, fauna e flora também atrás da serra, no município de Nova Lima, incorporando o que restou de natureza ali, igualmente ameaçada pela mineração, invasão de favelas e abandono tanto pelo Estado quanto pela Prefeitura - o que a Revista Ecológico irá mostrar em sua próxima edição.

A segunda missão de Célio foi propor não a vitória sozinha da Oncomed, nem da opinião pública local regida pela Associação dos Moradores e o Ministério Público, ambos contrários ao novo empreendimento hospitalar. Ele só não foi vaiado, suponho, por causa da cor dos seus cabelos e seu jeito “Daniel Boone” de ser.

Nem vencidos, nem vencedores - o ambientalista propôs. Mas, sim, o diálogo entre as partes. E a paz na serra, conforme o depoimento que ele acrescentou à Revista Ecológico, também presente à audiência, que apresentamos a seguir.

Célio Valle: “Não adianta mais ficarmos em guerra”. Foto: Divulgação

 

“Até o João-de-Barro mexe na  natureza. E ambos sobrevivem”

“Hospital é vida. E uma das doenças que mais matam, acometem as pessoas hoje é o câncer. Eu sou, sim, a favor da instalação do hospital e acredito que não irá atrapalhar nada. As pessoas hoje estão perdendo a oportunidade de se juntar, de dialogar e conhecer mais a verdade. É a verdade que liberta. É essa a atitude que os novos ambientalistas devem tomar, assim como no passado, quando nos unimos para criar o Parque das Mangabeiras naquela mesma região tombada. Lembro até que o CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) brigou conosco na época, dizendo que éramos ‘contra o progresso, contra a civilização’, porque eles queriam criar um conjunto imobiliário e habitacional lá. A Serra do Curral precisa de paz.

A Oncomed, inclusive, está mudando a sua forma de diálogo com os ambientalistas. Nós mostramos a ela que não adianta ficar em guerra com ninguém. Ela passou a usar essa expressão de corredor ecológico, que parece ser demagogicamente boba. Mas, em cada lugar é uma coisa diferente. É solução sim, e faz a diferença.

Do outro lado, dizer que a faixa de construção do novo hospital vai atrapalhar a passagem da fauna local é uma besteira, tem tecnicamente como contornar isso e para melhor.

A mesma coisa é o vídeo contra o hospital que anda circulando por aí. Ele é maldoso. Eu fiquei horrorizado, porque não vai à essência das coisas. É como se o hospital fosse a continuação da mineração. Eles colocam uma linha de construção cortando o verde da Serra. Aquilo não é verdade.

Temos de ter a visão de que somos um bicho da natureza. Somos da natureza e temos de mexer nela. Um joão-de-barro tira terra de um lugar, leva pra outro, faz a casinha dele, mora lá. Pois é. Ele mexeu na natureza, continua e sobrevive nela. O porco-do-mato não abre o próprio caminho nas matas ao pisar nas plantas?

A natureza não é um jardim que podemos fazer da forma que queremos, por isso existem as leis para controlar o ser humano. A questão é como fazer. Podemos, sim, conviver de forma harmoniosa com a natureza resiliente da serra. O hospital pode ser instalado, sim, desde que de maneira sustentável”. 

 

Telhado de vidro...

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Secretaria Municipal de Meio Ambiente confirmam a legalidade do empreendimento

Já dizia o sábio e pacifista provérbio português, “quem tem telhado de vidro não atira pedras ao do vizinho”. É o que defende o professor Flávio Carsalade, ex-presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) e do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB).

Segundo o arquiteto, que assina o projeto do Hospital da Oncomed, caso os moradores contrários ao empreendimento queiram ir fundo na questão, eles vão ver que, de uma maneira geral, o hoje edificado bairro Mangabeiras está todo construído em área de preservação ambiental. “Pela lógica, tal como o ex-Instituto Hilton Rocha, quase todas as casas do bairro teriam que ser demolidas”.

Proposta do Hospital da Oncomed: requalificação ambiental com a Serra. Foto: Divulgação

 

Isso faz sentido hoje?

Esta mesma questão é compartilhada pela superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/Regional Minas Gerais), Célia Corsino: “Se formos levar ao pé da letra, o mesmo procedimento deveria acontecer com as edificações do bairro das Mangabeiras hoje existentes na área tombada”.

Para ela, nem prédio poderia ser construído no bairro. “Muito menos casas de até três andares, como se vê atualmente, burlando a concepção permitida pelo poder público. E ninguém fala nada”.

Foi o que aconteceu com o Hilton Rocha, mesmo com a serra já tombada. Ele teve “permissão” da própria prefeitura, na época para ocupar um lote, depois ampliado, e construir o seu hospital no pé da serra, até o abandono atual das edificações após a sua desativação.

 

Rito normal

Sobre o processo de legalização e licenciamento do futuro hospital de câncer, pretendido pela Oncomed, a representante do Iphan foi enfática:

“Não pense a população que é assim imediato, sem estudos e sem rito, obter as devidas licenças nos órgãos oficiais. Somente aqui junto ao Iphan, em resposta às análises, críticas e exigências que fizemos, a Oncomed já foi obrigada a refazer e apresentar cinco novas versões do seu projeto arquitetônico original. Ou seja, até concordarmos com a requalificação ambiental compensatória que o novo empreendimento propõe à região. Isso significa que, quem tem telhado de vidro, por morar igualmente dentro da área original de tombamento e preservação da Serra do Curral, não deve continuar atirando pedras em quem também adquiriu, por direito e tradição, esse mesmo direito, em nome da saúde pública”.

 

Sem precedentes

Para o secretário municipal de Meio Ambiente de BH e também presidente da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Minas Gerais, Mário Werneck, a reforma do ex-hospital Hilton Rocha é legalmente correta e os moradores próximos não devem se preocupar: “Juridicamente, a decisão a favor do novo hospital da Oncomed não cria precedentes para outras liberações de obras na região”.

A estrutura já existe, lembrou ele, e foi permitida à época da sua criação: “A única alteração que a função do antigo edifício sofrerá, em termos de prestação de serviços, será a da ampliação do atendimento. Além de oferecer tratamento de câncer, irá prestar serviços de oncologia e cardiologia, a pedido da própria comunidade do Mangabeiras”. 

Em tempo: não perca, na próxima edição da Revista Ecológico, a reportagem “O perigo mora ao lado”, sobre o verdadeiro crime ambiental atrás da Serra do Curral.

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário
Outras matérias desta edição