Quinta, 27 de abril de 2017

O compromisso do Mato Grosso

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Criado em 2016, o Instituto Mato-Grossense da Carne (Imac) é responsável por definir os critérios para atestar a qualidade da proteína produzida no estado, por meio do selo “Carne de Mato Grosso”. Trata-se do primeiro instituto do país nesse segmento e do sexto no mundo. Atualmente, o Mato Grosso detém o maior rebanho bovino do Brasil – totalizando mais de 29 milhões de animais – e mais de 60% de áreas preservadas.

Durante a Conferência do Clima (COP-21) realizada em Paris, em 2015, o governo do Mato Grosso lançou a “Estratégia: Produzir, Conservar e Incluir”, por meio da qual se comprometeu a reduzir o desmatamento ilegal a zero até o ano de 2020, além de promover ações para conter o aquecimento global. Essa estratégia envolve, entre outras ações, a busca da eficiência da produção agropecuária e florestal no estado, aliada à conservação da vegetação nativa e à recomposição de passivos ambientais.

Em 2012, o Instituto Centro Vida (ICV) lançou um projeto-piloto de promoção das boas práticas na pecuária bovina em 14 propriedades da região de Alta Floresta, maior polo de pecuária no norte de Mato Grosso. Nessas fazendas, foi testado um novo modelo produtivo de gestão integrada
da propriedade.

As intervenções foram baseadas na aplicação das Boas Práticas Agropecuárias (BPA) para Gado de Corte, da Embrapa. Os resultados demonstraram a viabilidade desse modelo, com forte melhora na produtividade, lucratividade, qualidade da produção e sustentabilidade ambiental.

 No segundo semestre de 2014, teve início a fase de disseminação dessa proposta, por meio do “Programa Novo Campo – Praticando Pecuária Sustentável na Amazônia”. A adesão é voluntária. Para fazer parte, pecuaristas, frigoríficos, empresas de varejo, instituições financeiras, empresas ou profissionais de assistência técnica precisam atender critérios e compromissos pré-estabelecidos como forma de garantir a sustentabilidade em toda a cadeia de pecuária.


Passado ainda a ser compensado

Mato Grosso possui o maior rebanho bovino do Brasil. Em 2014 eram mais de 5,2 milhões de cabeças, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. De acordo com o PRODES, entre agosto de 2014 e julho de 2015, o estado perdeu 40% mais florestas que no ano anterior - Imagem: Fábio Nascimento/Greenpeace

Segundo o Greenpeace, com apenas dois anos de governo, Blairo Maggi transformou o Mato Grosso em estado campeão nacional de desmatamento. Ou seja, responsável por 18% do total de biodiversidade que tombou junto da Amazônia Legal Brasileira no estado que administrava.

Dos 12,5 mil quilômetros quadrados desmatados ali, 8,4% deles foram feitos de forma ilegal. Uma área total equivalente a 8,6 mil campos de futebol por dia.

Mesmo assim, Blairo não se comoveu. Ao contrário, ele declarou ao “New York Times”, na época, que um aumento de 40% na taxa anual de desmatamento do Mato Grosso não “significava nada”. Ele respondeu: “Não sinto a menor culpa pelo que estamos fazendo aqui. Não há razão para se preocupar. Estamos falando de uma área maior que a Europa toda e que foi muito pouco explorada”.

Polêmico, devido à repercussão negativa causada, ele passou a adotar, gradativamente, uma postura mais sustentável e de diálogo com os ambientalistas. Apontado pela Revista Época, em 2009, como um dos “100 brasileiros mais influentes do país”, quatro anos depois ele assumiu a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, em Brasília, com uma performance mais interessada e progressista.


Abençoado pela natureza e o maior rebanho do país

Pecuária no Pantanal Mato-grossense: natureza e homem em harmonia - Imagem: WWF/Adriano Gambarini

Apesar da devastação causada pela atividade agropastoril insustentável, há mais de uma dezena de anos atrás, quando a Ecológico esteve com o governador Blairo Maggi, o Mato Grosso era um dos estados mais singulares do País, por abrigar três grandes biomas brasileiros: a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado.

Como se não bastasse este privilégio concedido pela natureza, tudo que se planta em suas terras de excepcional qualidade dá, o que faz do estado um autêntico celeiro do país.

Ele era e continua sendo o maior produtor nacional de soja, com 20% para exportação e 80%, interno, para alimentar o gado. Com apenas 8,5% do seu território ocupado pela agricultura, tamanha produtividade aliada à tecnologia, e ao solo fértil, plano e diversificado, Mato Grosso continua tendo tudo para se transformar na maior (e mais sustentável) plataforma de alimentos do mundo. Tinha 50% da sua cobertura vegetal ainda intacta. Um total de 17% da área do estado era ocupado por reservas indígenas, incluindo o Parque Nacional do Xingu, e 24% pela pecuária.

O que poucos sabem é que Mato Grosso, além de grãos, é o maior produtor de pescado de água doce do país, responsável por 20% da produção brasileira, seguido pelos estados do Pará e Tocantins. Seu potencial está na natureza, leia-se na abundância de rios e lagos em seu território.


O exemplo da Amazônia

Promessa acreana:crescer a produção de carne sem desmatamentos - Imagem: Bruno Kelly/Greenpeace

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) lançou, em 2014, um vídeo sobre a pecuária intensiva. De forma didática, ele mostra o funcionamento do sistema de intensificação e traz dois exemplos de produtores que mudaram sua forma de atuar. E, com isso, conseguiram obter melhores resultados, tanto em termos produtivos quanto de conservação ambiental.

Dados do instituto mostram que se apenas metade das propriedade rurais do Acre adotarem práticas mais intensivas, a produção de carne no estado pode crescer a uma taxa de 2,2% sem novos desmatamentos. A intensificação da pecuária é uma prática que ajuda não só o produtor, mas também o meio ambiente. Afinal, se um boi é abatido com dois anos e não com quatro anos e meio, como no sistema convencional, as emissões de gases que contribuem para o aquecimento global, como CO2 e metano, caem pela metade.

Além de usar uma área menor para a produção e evitar desmatamentos, a emissão por quilo de carne no sistema intensificado é cerca de 48% menor do que o tradicional. Enquanto no primeiro são emitidos 39 kg de CO2 por quilo de carne, no segundo esse valor chega a 74 kg.

Segundo o Ipam, diversos estudos científicos comprovam que a área aberta na Amazônia é mais do que suficiente para aumentar várias vezes a produção de proteína animal. O desafio, portanto, é investir em novas tecnologias e na adoção de práticas produtivas mais sustentáveis.


O trabalho do Greenpeace

Há mais de dez anos o Greenpeace Brasil mantém uma campanha que busca alertar a opinião pública sobre a expansão da criação bovina na Amazônia e os impactos dessa produção no meio ambiente. Em 2009, a ONG publicou o relatório “A farra do boi na Amazônia”, que deu origem ao “Compromisso Público da Pecuária”, assinado por alguns dos maiores frigoríficos do país.

Segundo a entidade, tal iniciativa, em conjunto com a “Moratória da Soja”, foi considerada por pesquisas recentes como uma das inciativas mais relevantes para a queda do desmatamento nos últimos anos. Além disso, o Greenpeace monitora incessantemente o avanço do desmatamento na Amazônia, por meio de análises de dados e expedições regulares, com foco na produção de commodities e os danos associados à expansão do agronegócio sobre a floresta.

“O Greenpeace nunca deixou de expor e investigar o problema da pecuária e continuaremos de olho, cobrando e colocando o dedo em todas as feridas abertas da cadeia de produção, até o dia em que árvores não sejam mais tombadas para dar lugar à criação de gado na Amazônia”, pontua a ONG em seu site.

Diante do recente “escândalo da carne”, o Greenpeace suspendeu as negociações com o Grupo JBS. E justificou: “Por considerar extremamente grave as denúncias que pesam contra a JBS, o Greenpeace suspende as negociações com a empresa relacionadas à implementação do ‘Compromisso Público da Pecuária’ até que a JBS possa comprovar, de fato, que a carne vendida é própria para o consumo e livre de desmatamento, trabalho escravo e conflitos com terras indígenas e áreas protegidas.”

Fontes: Embrapa, Greenpeace, governo do Mato Grosso, Ministério do Meio Ambiente e WWF Brasil.


Esperança ou desesperança?

Em novembro de 2016, ao lado de José Sarney Filho, ministro do Meio Ambiente e quem mais representou o Brasil na Conferência Mundial do Clima (COP-22, em Marrocos), a imprensa e a opinião pública internacional se surpreenderam com Blairo Maggi. Além de defender a sustentabilidade dos produtos agrícolas brasileiros no mercado global, em função de cumprirem regras ambientais mais rigorosas que nos outros países, ele afirmou: “Só haverá paz no mundo quando tiver alimento na mesa de todos. O nosso produtor rural precisa ser compensado por isso, pelo serviço e cuidado ambientais que tem com a terra, preservando a natureza”. O ministro reforçou que o Brasil ainda tem “61% de suas matas nativas preservadas, além de ser responsável por 14% da água doce disponível do planeta”.  

Ele defendeu, é claro, a pecuária brasileira, em contraponto a opiniões de que a produção de gado contribui para poluir a atmosfera. Ele lembrou que, a exemplo dos eucaliptais, os plantios de capim em crescimento também sequestram gás carbônico. Blairo, enfim, só não recuperou e aumentou a sua nota perante os ambientalistas porque esqueceu de destacar uma informação relevante: nunca antes, na história deste país, o desmatamento da Amazônia cresceu tanto. E pouco o governo tem interesse, poder e vontade política de enfrentá-lo.

Enquanto Maggi está à frente do agronegócio, o setor mais próspero da economia brasileira, graças à natureza, em plena e mais grave crise econômica do país, Sarney Filho, pela segunda vez no comando do Ministério do Meio Ambiente, tem o mais ínfimo orçamento no organograma oficial do Governo Temer, a exemplo de seus antecessores.

Haja “clima” para enfrentarmos juntos, ambientalistas, produtores e consumidores, as mudanças apolíticas do inferno climático que já começou!


Saiba mais

Para assistir a vídeos e ler um artigo sobre o assunto, acesse:

“Pecuária intensiva: novo paradigma de produção da Amazônia”

goo.gl/A2ShtI

“Programa Novo Campo – Estratégia de pecuária sustentável na Amazônia”

goo.gl/JK3ePa

“Precisamos falar sobre pecuária e conspirações”, Greenpeace

goo.gl/zxzRbe

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