Quinta, 27 de abril de 2017

Operação Carne Sustentável

A promessa polêmica e a esperança ainda não concretizadas pelo ex-governador do Estado do Mato Grosso e atual ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Felis Concolor - redacao@revistaecologico.com.br



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Após domada a Operação Carne Fraca, continua nas mãos do ministro Blairo Maggi fazer mais para tornar o agronegócio brasileiro 100% sustentável e salvar a Amazônia da pecuária predatória - Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Após domada a Operação Carne Fraca, continua nas mãos do ministro Blairo Maggi fazer mais para tornar o agronegócio brasileiro 100% sustentável e salvar a Amazônia da pecuária predatória - Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

O mesmo Blairo Maggi, homem forte do Governo Temer que atuou com mãos de ferro em defesa dos frigoríficos atingidos pela Operação Carne Fraca, diante dos olhos compradores do mundo, ainda tem uma dívida enorme diante da natureza e da humanidade.

Espécie de “bombeiro-chave” do país, ele nos deve uma atuação muito mais patriota e planetária ainda, em nome de todos os brasileiros e não brasileiros, que comem ou não comem carne, forte ou fraca.

Que atuação é essa? Fazer o país, maior produtor de gado do mundo, optar, com a mesma garra, pelo boi “verde”, através da pecuária intensiva e com responsabilidade socioambiental. E assim, sem ser mais extensivo e predatório, o setor não desmatar mais a Amazônia, responsável que ele ainda é, em 65% dos casos, conforme já apontou a ONG Greenpeace. E em até 80%, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa).

Não destruir nem ocupar mais, de maneira insustentável, a última grande floresta tropical do planeta, também apontada pelos cientistas não mais como “pulmão” do mundo, mas como o seu maior e natural “refrigerador” climático.

Foi o que o próprio Blairo, 11 anos atrás, enquanto governador de Mato Grosso, chamado de “Rei da Soja” e de “Estuprador da Amazônia”, prometeu aos ambientalistas. Vide a entrevista exclusiva que ele concedeu à repórter Maya Santana, da então JB Ecológico, antecessora da Revista Ecológico atual: “Deram-me zero na área ambiental. Vou mostrar que sou capaz de tirar um dez!”

Foi o que ele declarou a plenos pulmões, na época, referindo-se às duras críticas não apenas dos ambientalistas, mas de toda a imprensa nacional e internacional. Isso se deu logo após o Ministério do Meio Ambiente ter divulgado números estarrecedores, mostrando que a taxa de desmatamento da Amazônia, em 2003/2004, havia sido a segunda maior de todos os tempos. E Mato Grosso, sob seu governo, era o campeão da derrubada e queima de árvores nativas para, depois do fato consumado, poder plantar soja e criar pasto para o gado. Se não bastasse, segundo o grito permanente dos ambientalistas, a quantidade de terras já devastadas, degradadas, ociosas e abandonadas pelo país afora.

Pouco tempo depois, o Governo Blairo Maggi também se viu atingido pela Operação Curupira, que prendeu dezenas de pessoas envolvidas em falcatruas na concessão de licenças pelo Ibama para desmatamento no Estado. Embora a grande maioria dos detidos fosse formada por funcionários federais, o seu governo foi quem levou chumbo grosso:

Roberto Carlos, na edição 68 da Ecológico, de abril de 2014: ele perdeu a oportunidade de encabeçar  a luta pela preservação da Amazônia e pelo consumo sustentável e saudável de carne  

“Aceito as críticas” - respondeu Blairo. “Acho que tínhamos problemas, sim. Mas não do tamanho que venderam para a opinião pública internacional. A verdade é que, no meio do caminho, viram que a tempestade era grande demais para o governo federal. E botaram o nosso go verno junto”, garantiu.

Mais. Dizendo-se profundamente atingido pelos dois episódios, o atual ministro contra-atacou. Disse que iria trabalhar incessantemente para tornar seu estado, não apenas o mais agrícola do Brasil, maior produtor de soja e algodão,  mas também uma referência na questão ambiental.

Nessa época, sua administração havia assumido a gestão florestal do estado, antes atribuição do Ibama, aparando as arestas com o Ministério do Meio Ambiente, então dirigido pela senadora Marina Silva: “Nosso relacionamento com ela é dez! É a ministra com quem mais converso e me dá mais atenção” – enfatizou o ministro, que é engenheiro agronômo e natural de Torres (RS) e chegou ao Mato Grosso em 1979. Então com 49 anos, e confessando nada gostar de ser chamado de “Rei da Soja”, o  maior empresário do agronegócio brasileiro respondeu assim às perguntas que reproduzimos aqui, com o seu estilo franco e sem papas na língua:

Ecológico: A que atribuir, então, a má vontade que toda a imprensa nacional e internacional e têm com o senhor, no quesito  meio ambiente?

Blairo Maggi – Acho que é a mim mesmo. A minha empresa é uma das maiores plantadoras de grãos do Brasil. E virei governador. Quer alvo melhor para atingir? Eles atribuem o desmatamento a mim, pessoalmente, quando, há mais de 20 anos, minhas empresas não abrem um só hectare de terra. E tudo o que é meu foi adquirido dentro do que a legislação permitia e permite. Quem desmata são os outros. Eu cumpro a lei.

 

Ecológico: Os jornalistas deturpam suas declarações?

Uma das maiores críticas que recebi foi por causa de um contexto. A primeira, foi que achamos que podemos explorar 40% do território mato-grossense com agricultura e pecuária. Até agora, temos 30-32% do território natural alterado, vamos chamar assim, com as atividades econômicas. Eu achava que podia ser 40%. Aí o repórter, em vez de escrever 40% do Estado do Mato Grosso, escreveu 40% da Amazônia. A segunda foi de que não sou de abraçar árvore. O que se conclui é que eles já vêm pautados e detonam a gente.

 

Ecológico: Esta é a sua defesa?

Minha defesa é achar que contra trabalho não há argumento. O que temos que fazer é trabalhar. Deram-me zero na área ambiental. Eu não aceito. Vou mostrar que somos capazes de tirar dez. Imprensa alguma vem aqui para entender o que estamos fazendo para diminuir o desmatamento, como estamos organizando os setores produtivos para aderirem aos projetos de licenciamento ambiental. Quer apenas o sensacionalismo.

 

ECOLÓGICO – O que efetivamente o seu governo tem feito para combater o desmatamento?

Adotamos inúmeras medidas. Além do “Olho Ecológico”, um sistema de monitoramento via satélite, que vai nos mostrar em tempo real o que está acontecendo para agirmos mais prontamente, nós criamos uma Secretaria de Meio Ambiente, cujo secretário, Marcos Machado, tem plenos poderes, um orçamento maior e melhor estrutura para trabalhar. Criamos um novo Código Ambiental do estado, discutido democraticamente com toda a sociedade organizada. Os próprios produtores passaram a ter um entendimento muito maior do assunto.

 

ECOLÓGICO – Em que aspecto, por exemplo?

Hoje, o produtor mato-grossense comunga do mesmo pensamento da ministra do Meio Ambiente e do ministro do Trabalho. E é o meu pensamento também. Não podemos estar fora mais do que a legislação permite, nem na questão trabalhista nem na sob pena de, no futuro, e esse futuro é amanhã, caírem as barreiras comerciais e diminuírem os impostos que precisamos recolher. Esses benefícios tarifários vão exigir de nós, como contrapartida, a obediência às legislações ambiental e trabalhista. Isso é uma realidade moderna. Se não estiver com suas obrigações ambientais, sociais e trabalhistas em dia, o Brasil poderá ser impedido de fazer mercado internacional.

ECOLÓGICO: Seu colega Zeca Dirceu, governador do Mato Grosso do Sul, foi muito criticado porque queria instalar usinas de álcool no Pantanal. O senhor também é um crítico dessa ideia?

Nós não permitimos isto aqui, mas tão somente o turismo ecológico e a pecuária extensiva, que existe já há 300 anos, em perfeita harmonia com o ecossistema pantaneiro. As pessoas que vivem longe daqui não têm conhecimento disso.

 

ECOLÓGICO - O senhor é ligado à natureza?

Nasci no meio do mato, do ladinho de Foz do Iguaçu. Lá era floresta pura, só tinha madeireira. Eu já vim formado de lá, em 1979. E continuo do interior, moro no interior e minha atividade é junto da natureza. Sou agricultor. Se tem alguém que precisa do meio ambiente para sobreviver é o agricultor. Ele precisa estar em harmonia; do contrário, não consegue ver chuva, nem perceber a temperatura ideal para fazer as coisas. Minha atividade tem uma ligação direta com o meio ambiente. Temos consciência de que, se tem alguém que pode prejudicar ou preservar a natureza, é o agricultor. Como pessoa física, tenho esse entendimento. Como governador, mais ainda, tanto que, desde o ano passado, a questão ambiental tornou-se a nossa prioridade número um.

 

ECOLÓGICO - Como é seu relacionamento com o Ministério do Meio Ambiente?

Antes era mais difícil, principalmente por causa da ambiguidade das leis. Houve um determinado momento em que a lei federal era mais liberal do que a nossa. Podia-se desmatar 8o% das áreas de Cerrado, Cerradão, etc. Mesmo as matas, podia-se substituí-las em 50%. E a área de transição, entre o que era Floresta Amazônica e Cerrado, entrava dentro da classificação como Cerradão. O governo do estado, não nesta gestão, mas na outra, criou uma lei mais restritiva: nas áreas de transição, pode-se desmatar 50% e não 80%, como permitia a lei nacional. Esses conflitos legais não existem mais.

 

ECOLÓGICO - Os países mais ricos deveriam dar mais recursos para que o Brasil possa cuidar da Amazônia?

Não só dar dinheiro. Eu vi na imprensa, outro dia, países que pagam para não desmatar ou até para reflorestar em outros lugares. Acho que é na França. Ali eles pagam 24 euros por hectare para você não ocupar a terra e deixar a vegetação se recuperar. Aqui, se exige que as pessoas não façam nada com o meio ambiente, mas não oferecem qualquer compensação ou incentivo financeiro. A preservação aqui é feita pelo particular, pela iniciativa privada. O governo federal também tem um ônus para cuidar e não consegue fazer rentabilidade de nada. Se o mundo inteiro quer a preservação da Amazônia onde, repito, 14 milhões de brasileiros têm direito aos benefícios do desenvolvimento sustentável, ele deveria nos pagar alguma coisa.

 

ECOLÓGICO - É possível plantar soja em larga escala com preservação ambiental?

Perfeitamente, e não só com relação à soja. Você pega um município nosso, igual Lucas do Rio Verde, que tem toda a sua área possível de exploração aberta. Ele consegue manter 35% de todas as suas matas naturais intactas. Ocupou-se o que era possível para fazer agricultura diversa e o resto se preservou.

 

ECOLÓGICO - O senhor disse que nos últimos dez anos o Grupo Amaggi não desmatou um só hectare na Amazônia e que a expansão da produtividade do grupo foi obtida utilizando tecnologia cada vez mais avançada. Por que que esta forma de explorar o Mato Grosso não é seguida por outros empresários?

O Grupo Amaggi está há muito tempo aqui. Nós fizemos a nossas aberturas bem lá atrás, quando não havia essa discussão, na década de 1980. As leis eram outras. Fomos adquirindo outras áreas prontas, já abertas. Para aumentar a área de produção, tem que haver a ocupação do Cerrado e isso é permitido por lei. Outra coisa que as pessoas não entendem é que, legalmente, você pode tirar a vegetação para fazer o que quiser, dentro do percentual permitido. No caso do Cerrado, até 1996, eram 80% de ocupação. Hoje, são 65%. E 35% de reserva. Se o ministério do Meio Ambiente se negar a dar a autorização, o cidadão pode ir ao Ministério Público, que vai conseguir a licença para ele. Uma vez que cumpra a legislação ambiental, com os critérios ali colocados, ninguém tem o direito de impedir que esse produtor retire a vegetação para fazer pastagem ou plantar. O que não se pode permitir é fora desses percentuais. Então, quando eu digo que o Grupo Amaggi há mais de oito anos não desmata, é porque nós já fizemos isso lá atrás.

 

Ecológico - Qual posição que o Grupo Maggi ocupa hoje no estado?

Somos mais fortes na área comercial do que na área de produção. Só que nosso negócio sempre foi produzir, e não vamos abrir mão disso. Está no sangue. Eu gosto de ver a lavoura, de plantar e ir lá colher. A gente faz isso com amor e responsabilidade. Nosso grupo é signatário de vários acordos internacionais que proíbem qualquer relacionamento comercial do setor com produtores que tenham trabalho escravo e não cumpram procedimentos socioambientais em suas propriedades. A Amaggi hoje, cujos procedimentos também exigimos dos nossos fornecedores, é 100% auditada por empresas internacionais, idôneas e independentes.

 

Ecológico – Como empresário e político bem-sucedido, qual a sua visão de futuro para o Brasil?

Sou otimista. Se os brasileiros se conscientizarem sobre a necessidade do desenvolvimento sustentável e cumprirem a legislação ambiental no lugar onde estão, nós não teremos problemas no futuro.

 

Ecológico – E quanto ao planeta?

Se você for lá nos EUA, vai ver que eles não  deixaram uma só árvore na beira dos seus córregos. Pegaram o Pantanal deles, as terras alagadiças da Califórnia, transformaram-no todo em terra agrícola, sem preservar nada. O Mato Grosso é o estado que mais recolhe embalagens de agrotóxicos do mundo. Não é nem só do Brasil: 95% das embalagens que vêm para cá são recolhidas, recicladas e transformadas em matéria-prima novamente. Nem os EUA fazem isso. Essa é a verdade. Não tem ninguém no mundo que possa fazer agricultura e pecuária sustentáveis, com preservação ambiental e responsabilidade social igual ao Brasil. Eu desafio alguém a me mostrar o contrário”.

 

REVISTA ECOLÓGICO, 10 anos depois – Em nome da carne “verde” (economicamente sustentável, ambientalmente correta e socialmente mais justa), sem a necessidade de degradar o solo nem cortar uma só árvore na Amazônia, com a palavra,  Blairo Maggi! 

* Em tempo: até o fechamento desta edição, a Ecológico não conseguiu retorno da assessoria do ministro.


Pecuária extensiva – Atividade desenvolvida em grandes extensões de terra, geralmente onde há floresta suprimida, com gado solto e sem grandes aplicações de recursos tecnológicos. Segundo a ambientalista Maria Dalce Ricas, superintendente da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), “não existe nada que degrade mais o solo e evite a volta da floresta do que pata de boi”.

Ó que é pecuária extensiva


Pecuária intensiva – É desenvolvida em áreas menores, geralmente em regime de confinamento ou semiconfinamento. São utilizados recursos tecnológicos avançados, como reprodução por inseminação artificial, técnicas melhoramento genético, alimentação balanceada e cuidados sanitários, como vacinação e tratamento de enfermidades.

Ó que é pecuária intensiva

 

Saiba mais

 


Fique por dentro:

Maior exportador mundial de carne bovina, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro alcançou R$1,26 trilhão em 2015, representando 21% do PIB total brasileiro. Já o PIB da pecuária chegou a R$ 400,7 bilhões, 30% do agronegócio nacional.

O Brasil tem 215,2 milhões de cabeças de gado, distribuídas em 167 milhões de hectares. Isso equivale a uma ocupação/lotação média de 1,25 cabeça por hectare.

Conforme dados do IBGE, entre os 20 municípios com os maiores rebanhos bovinos do país, 11 estão na região Centro-Oeste. O líder do ranking é São Félix do Xingu, no Pará, com mais de 2,2 milhões de cabeças, 1% do total nacional.

A produção intensiva de animais requer enorme quantidade de água e alimentos. O cultivo de grãos para a fabricação desses produtos disputa espaço diretamente com a produção de alimentos para humanos. A atividade agropecuária acaba expandindo suas fronteiras para áreas onde antes existiam florestas e uma enorme biodiversidade.

A criação de gado em escala industrial também gera grande quantidade de resíduos, que acarretam para a poluição do solo e dos sistemas hídricos subterrâneos, além de aumentar a emissão de gases de efeito estufa.

De acordo com a Embrapa, a demanda global pela produção sustentável de alimentos, incluindo carne, coloca o Brasil em posição de importância estratégica, com previsão de participação da ordem de 40% no que se refere ao abastecimento de alimentos até 2050 quando, segundo estimativas da ONU, a população global chegará a 9,7 bilhões de habitantes.

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