Quarta, 26 de abril de 2017

Uma ponte para novos mundos

Com conhecimento e capacitação, Projeto Realizando Sonhos, do Instituto Café Solidário, transforma a realidade de 120 crianças, adolescentes e mães de Buritizeiro, no Norte de Minas

Luciana Morais, de Buritizeiros/MG (*) redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Thiago Costoli

Imagem: Thiago Costoli

Por trás de cada rosto se descortina um turbilhão de sentimentos. Algumas histórias são de ‘cortar’ o coração. Em poucos minutos de conversa, João Vitor dos Reis Santos, de 10 anos, demonstra resignação de gente grande. Vai das lágrimas ao riso tímido, enquanto conta ter perdido a mãe, doente, há poucos dias. Já órfão de pai e caçula de sete irmãos, João foi morar com uma tia.

“Fico melhor aqui, porque tudo é bom, principalmente a capoeira. Quando crescer, quero ser carreteiro para poder viajar e conhecer muitos lugares”, planeja, com olhos de esperança. É num bairro de casas simples, com ruas de terra, que se cruzam histórias de vida como a de João e brota a semente de um futuro melhor para inúmeras famílias de Buritizeiro.

Banhado pelo Rio São Francisco, o município norte-mineiro, distante 357 quilômetros de Belo Horizonte, tem um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil: 0,659 na escala que vai de 0 a 1. O motor da transformação social e cultural em curso na cidade é o “Realizando Sonhos”. Um projeto que abre suas portas diariamente e oferece cursos gratuitos para 120 crianças e jovens, de seis a 18 anos, além de mães de diferentes idades.

Tudo começou em 2011, a partir da ajuda financeira dada pelo Instituto Café Solidário ao então Projeto Bola Pra Frente, coordenado pela Cáritas Paroquial de Buritizeiro. O Café Solidário é o braço de responsabilidade social mantido pelas empresas do grupo mineiro Montesanto Tavares. Com sede em Belo Horizonte, atua há 12 anos na produção, importação, transporte, armazenagem e exportação de café e também é proprietário da Fazenda Atlântica Agro, na vizinha Pirapora.

Tocada pelas carências da região, a direção da Montesanto decidiu ir além. Abraçou integralmente o projeto que, com o tempo, mudou de nome e ampliou o seu alcance, sem contar com qualquer recurso do município. Uma das conquistas mais recentes é a construção da sede própria do “Realizando Sonhos”, inaugurada em dezembro do ano passado, no Bairro Alto São Francisco.

Projeto Realizando Sonhos em Buritizeiros / MG

João Vitor: aos 10 anos, ele é exemplo de resignação e de esperança no futuro - Imagem: Luciana Morais

Alimento para a alma

O capricho e a dedicação da equipe responsável estão estampados em cada detalhe e ambiente. Ampla e delicadamente decorada, a nova casa é um verdadeiro oásis de aconchego para as turmas que, de segunda a sexta, nos turnos da manhã e tarde, participam das oficinas de pintura, bordado, corte/costura, violão, flauta, canto, capoeira, teatro e dança. Há samambaias, folhagens e vários objetos que remetem à cultura barranqueira do Velho Chico, como as tradicionais carrancas de madeira.

Quadros pintados pelas crianças dão ainda mais cor e vida ao hall da recepção. Na fachada e muros, os modernos grafites do artista plástico belo-horizontino Ataíde Miranda, feitos especialmente para o projeto, chamam a atenção. Um pé de araticum, fruta típica do Cerrado, sombreia parte da calçada, bem na entrada, enquanto mudas de laranja, limão e jabuticaba esverdeiam ainda mais o gramado que margeia o anfiteatro.

Sentada perto de um canteiro com camarás amarelos, Janaína Campos da Silva, de 32 anos, faz questão de dizer que o “Realizando Sonhos” mudou a sua vida. Após perder um bebê com cinco meses de gestação, ela entrou em depressão. “Só consegui parar de tomar remédio depois que comecei a fazer as aulas de costura e violão. O Instituto não realiza só os meus sonhos, não. Ele realiza a minha vida inteira. Se deixar, eu falto morar aqui, de tanto que gosto de tudo. Graças a Deus.”

A cada turno, os participantes têm direito a uma refeição completa, além de café/lanche, preparados pelas auxiliares Regina Célia Bastos e Maria Aparecida Souza, a Cidinha. No dia da visita da Ecológico, em fevereiro, o cheiro do feijão refogado com bastante bacon e linguiça fritos – apelidado de “gordo” e um dos preferidos da meninada – aguçava o apetite.

“A maioria raspa o prato e ainda repete. A mudança pra cá foi muito boa. Além da cozinha maior e toda equipada, temos também o refeitório”, comenta Cidinha. “Fico feliz de ver que eles estão aprendendo a comer mais verduras e legumes. Mas o melhor de tudo é receber o carinho da criançada: esse é o melhor alimento para a alma”, emenda Regina.

Aula do conhecimento

Patrícia Fonseca: valorização das pessoas e de seus dons - Guarda Chuva Produções

A disciplina das turmas e a brancura das blusas do uniforme impressionam. Tudo flui sem gritos ou correria. Enquanto uns dedilham o violão, outros se concentram na costura. Pintar e bordar, só no sentido literal mesmo. Depois das salas de aula, o anfiteatro é o principal ponto de encontro para as diferentes atividades oferecidas ao longo do dia. Em especial, a roda de capoeira ao som do berimbau e muitas palmas.

É também no anfiteatro que acontece uma das atividades mais bacanas do projeto. A chamada aula do conhecimento. Quem explica seu conceito e objetivo é a sua idealizadora, Patrícia Fonseca, superintendente do Instituto Café Solidário e diretora da Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano.

“A ideia é ampliar os horizontes das crianças, difundindo conhecimento e mostrando a elas que o mundo é muito mais do que a realidade de carências, desigualdade e violência aqui da região. Não é uma aula maçante, formal. É mais lúdica, ministrada pelos próprios monitores e com recursos simples, como fotos, jogos e vídeos. Assim, monitores e alunos têm a chance de aprender juntos a descortinar a diversidade cultural, as novidades e também as belezas do mundo”, pondera Patrícia.

O tema do dia da nossa visita foi ‘As Setes Maravilhas do Mundo Moderno’. Monumentos mundialmente famosos, como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e o Taj Mahal, na Índia, foram apresentados às crianças sob a forma de um jogo da memória.

Folhas A4, com fotos e informações sobre cada maravilha, foram dispostas no chão. Pequenos pesos, em formato de galinha-d’angola, evitavam que elas fossem viradas pelo vento. O desafio da turma era acertar onde estava o par certo de cada imagem.

 

Sem preconceito

Com 28 mil habitantes, Buritizeiro não tem calçamento em 90% de suas ruas. A bicicleta é o meio de transporte oficial de boa parte das crianças, mães e monitores até o projeto. Uma delas é a ‘tia’ Lorena Borges. Simpática e boa de prosa, ela encara com tranquilidade o desafio de ensinar o ofício da avó, costureira, a meninos e meninas. Isso mesmo. No projeto, não há espaço para preconceito e tabus. E a garotada, claro, agradece.

“Aqui não tem separação, não. A gente aprende de tudo, inclusive a costurar e bordar. Além de conhecer todas as partes da máquina e o seu funcionamento, já aprendemos costura reta, oval etc. Daqui a um tempo vamos aprender a tirar medidas e usar moldes para fazer roupas”, revela Wendel Júlio, de 13 anos, filho de Janaína e fã declarado da dupla sertaneja mato-grossense Maiara & Maraísa.

Projeto Realizando Sonhos em Buritizeiros / MG

Oficinas de pintura, bordado, corte/costura, violão etc. são oferecidas diariamente, em dois turnos - Imagem: Thiago Costoli

As aulas iniciais do curso de corte e costura, explica Lorena, incluem teoria e exercícios de destreza, para que todos usem as máquinas com controle e segurança. São atividades que requerem concentração e paciência e, portanto, ajudam as crianças no aprendizado das diferentes disciplinas escolares.

Para Lorena, só o fato de conseguirem controlar sozinhos a máquina de costura, já é uma vitória e tanto. “Muitos têm só seis, sete anos e costumam dizer que ela, às vezes, mais parece touro bravo. Se pisar forte demais no pedal, ela dispara e embola a linha toda”, brinca. No caso das mães, as aulas ajudam a aliviar as despesas domésticas.

“Só de economizarem 10, 15 reais toda vez que precisam trocar um zíper ou dar bainha numa peça, já vale o que aprendem aqui. Para mim, não importa a profissão que as crianças vão escolher ou como as mães vão se beneficiar das aulas no futuro. Ensino que o mais importante é fazer tudo com amor. O Instituto é uma luz em nossas vidas, uma ponte para novos mundos”, resume.

Pedagogo e administrador, Duílio Pimentel, coordenador-geral do “Realizando Sonhos”, sintetiza o foco do projeto em uma frase: o desejo de fazer a diferença na vida das pessoas. “Aqui também tenho a oportunidade de crescer como profissional e ser humano todos os dias. Sonho ver trabalhos como o nosso sendo replicados em outras cidades. Se mais empresas e institutos quiserem, podem fazer o mesmo. Basta querer de verdade.”

Respeitada e querida por todos, Patrícia lembra: “A vida fica mais fácil e leve quando aprendemos a usar nossos dons; sem ficar infeliz ou perder tempo tentando ser o que não somos. Quem sabe não surge daqui um grande nome do bordado, da costura ou da música? Só o tempo dirá. Por hora, estamos abrindo nossas portas, corações e semeando conhecimento, cultura, ética, respeito e patriotismo. É assim que queremos seguir avançando”, diz, já planejando oferecer aulas de etiqueta à mesa para os seus pupilos.


No berço do ouro verde

Plantio de mogno africano

Plantio de mogno africano consorciado com café arábica ocupa uma área de seis hectares 

Do outro lado da ponte, em Pirapora, as águas do Velho Chico sustentam a maior floresta de mogno africano (Khaya ivorensis) do Brasil em hectares plantados: 500. O berço onde cresce o chamado “ouro verde”, em razão da alta rentabilidade estimada na colheita dessa madeira nobre, é a Fazenda Atlântica Agro.

Pioneira na clonagem de mudas em parceria com universidades, a propriedade também tem mogno plantado em consórcio com café arábica numa área de seis hectares. Outros 288 hectares são exclusivamente dedicados ao café, 60 deles plantados recentemente.

“A colheita ocorre geralmente em abril e é 100% mecanizada. Este ano, esperamos produzir 5 mil sacas, de 60 quilos. Em 2018, a expectativa é mais que duplicar, chegando às 12 mil sacas”, estima o gerente-geral, Fernando Miranda. Em pivôs irrigados, são produzidas três variedades de grãos: topázio, catuaí 62 e o IBC-12, também conhecido como café-uva, devido à cor mais escura e ao generoso tamanho dos frutos.

Há ainda 900 hectares de pasto – com gado nelore para corte e reprodução – e outros 917 hectares protegidos sob a forma de áreas de preservação permanente e reserva legal. O Cerrado típico da região abriga vários mamíferos, como lobo-guará e raposa, além de aves. Passarinhos cantam por toda parte e uma ema passou em desabalada carreira pertinho do carro da reportagem, antes de se embrenhar na mata.

 

Garota propaganda

A cada dois anos, a Atlântica Agro sedia o Seminário de Mogno Africano – evento que está em sua terceira edição, promovido pela Associação Brasileira dos Plantadores de Mogno Africano (ABPMA). Criada em 2011, a entidade tem como meta fazer do Brasil o maior produtor de florestas plantadas da espécie no mundo. Hoje, o país tem cerca de 10 mil hectares, a maioria com idade entre um e sete anos. A primeira colheita, portanto, deve ocorrer daqui a cinco/sete anos.

“Por causa do clima quente e de poucas chuvas, optou-se pelo plantio irrigado, que tem se mostrado uma decisão acertada, diante do ótimo desenvolvimento do nosso mogno. São 276 árvores por hectare, com espaçamento 6x6 metros, adubação balanceada e orientação do crescimento para que tenhamos um produto final de alta qualidade”, detalha Miranda. Os plantios começaram em 2009 e a produtividade esperada é de 320 m³ de madeira serrada com 15 anos de idade.

Outro cartão de visita são os 12 hectares de campos experimentais que, após várias pesquisas e plantios, permitem comparar o desenvolvimento do mogno ao de outras espécies, como o cedro australiano, a teca e o eucalipto. Já a casa-sede é uma espécie de “garota propaganda” do mogno africano, presente em móveis, objetos decorativos, divisórias, tetos e no piso do deck, próximo à piscina. A madeira usada na confecção de todas as peças veio de uma floresta certificada no Pará.


Casa sede da Fazenda Atlântica Agro: mesa com raiz de mogno africano é um dos destaques da decoração

Casa sede da Fazenda Atlântica Agro: mesa com raiz de mogno africano é um dos destaques da decoração


Fique por dentro:

Obra de Portinari

As oficinas do "Realizando Sonhos" têm uma temática diferente a cada semestre. Em 2015, por exemplo, os participantes conheceram a vida e a obra do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903-1962). Depois de produzir pinturas e bordados inspirados nas criações do artista, visitaram Belo Horizonte, onde viram de perto os paineis de sua autoria, na Igrejinha da Pampulha, conheceram os museus do Circuito Cultural da Praça da Liberdade e apresentaram um espetáculo de Natal, durante a confraternização dos funcionários da sede do Grupo Montesanto, no Bairro Estoril.

 

Sinfônica Jovem

O Instituto Café Solidário também apoia entidades assistenciais e patrocina projetos culturais. Em Santa Luzia, na Grande BH, custeia mensalmente alimentos e fraldas geriátricas para 26 idosos atendidos pelo Asilo Renascer. Já a Banda Sinfônica Jovem de Pirapora recebeu R$ 100 mil este ano para manter a formação musical de 130 crianças e jovens de baixa renda. “Se não fosse a doação do Instituto, já teríamos fechado as portas. O mais importante é formar pessoas de bem. E, se possível, também bons músicos”, afirma o presidente e fundador, Ansfrido André de Oliveira. À frente da banda, que toca do clássico ao pop, está o maestro Alex Domingos. Ele é um dos criadores da Vesperata de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, atração de fama internacional. “Aqui, criamos a Sinfonia do Velho Chico, quando nos apresentamos no lendário vapor Benjamim Guimarães, ancorado no São Francisco”, conta Alex, ao lado esposa, Bernadete, que cuida da iniciação musical das crianças.


Saiba mais:

www.institutocafesolidario.org.br

www.atlanticaagropecuaria.com.br


Que tal ouvir Sinfônica Jovem de Pirapora agora?

www.facebook.com/bandasinfonicajovemdepirapora


(*) A repórter viajou a convite do Instituto Café Solidário

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