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Quarta, 26 de abril de 2017

Minas será vitrine do maior evento global

Entrevista com Octávio Elísio Alves de Brito

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Octávio Elísio, consultor ambiental:

Octávio Elísio, consultor ambiental: "A água já é uma commodity negociada na Bolsa de Valores" - Imagem: Luciano Lopes

Ele nasceu em Belo Horizonte, mas passou boa parte de sua vida na cidade histórica de Ouro Preto, a 97 km da capital mineira, onde formou-se em Engenharia de Minas e Metalurgia. Casado e pai de três filhos, Octávio Elísio Alves de Brito é especialista em Engenharia Econômica pela PUC Minas, cursou Análise e Administração de Projetos, Marketing e Análise de Risco em Cambridge, nos EUA, e no Banco Mundial (BIRD). E ainda acumulou passagens pela Escola de Minas de Ouro Preto e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde foi professor.

Seu contato com a pasta ambiental começou no Governo Aureliano Chaves, com o professor José Israel Vargas (quando foi criada a Secretaria de Ciência e Tecnologia), e se fortaleceu na segunda gestão do Governo Hélio Garcia, na década de 1990, quando foi Secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Ele, que também já havia sido secretário estadual de Educação, no Governo Tancredo Neves/Hélio Garcia, ressalta a importância das escolas para a preservação dos recursos naturais. “Não há segurança hídrica sem educação para as águas”, defende.

Na Assembleia Nacional Constituinte participou ativamente nas áreas de educação, ciência e tecnologia, meio ambiente, e foi a favor da nacionalização do subsolo e da criação de um fundo de apoio para a reforma agrária, entre outros. Em 2009, compôs a diretoria da Agência Reguladora de Abastecimento de Água e Esgotamento Sanitário de Minas Gerais. Agora, como consultor ambiental da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) para o Fórum Mundial da Água, ele reforça a equipe que terá como objetivo fortalecer a imagem do Estado como potência hídrica brasileira. O Fórum, que deverá reunir mais de 60 mil pessoas de todo o mundo em Brasília (DF), em março de 2018, é um espaço importante de diálogo, em que os países também poderão mostrar seus exemplos e contribuições nas áreas de segurança hídrica, gestão integrada da água, mudanças climáticas, governança, saneamento básico e saúde.

É o que você confere a seguir nesta entrevista exclusiva à Ecológico:

Qual é a importância do Fórum Mundial da Água no contexto atual em que vivemos?

Ele é uma grande vitrine para o mundo. É o maior evento internacional sobre água. Foi criado pelo Conselho Mundial da Água com sede em Marselha, na França, e um conselho diretor formado por 36 membros, sendo quatro deles brasileiros. Seu presidente é Benedito Braga, secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, um homem de universidade, que tem uma tradição de trabalho na área hídrica. Inclusive, já atuou na Agência Nacional de Águas (ANA), onde dirigiu a Comissão Brasileira para Programas Hidrológicos Internacionais (Cobraphi).

 

O senhor já participou de alguma edição do evento?

O sétimo Fórum Mundial da Água aconteceu na Coreia, em 2015. Lá foi decidido que o próximo evento seria no Brasil. A edição coreana teve 40 mil participantes, 168 países, oito chefes de estado. Fui aos fóruns mundiais de Marselha, na França, e Istambul, na Turquia. Percebi que eles foram lugares de encontros, mas o diálogo ficava restrito, fechado, aos eventos. Ao se decidir realizá-lo no Brasil, estabeleceu-se a necessidade de se concluir e por em prática o que foi definido na Coreia e ter os objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis definidos pela Unesco/ONU como base. A partir daí, foi se desenhando um projeto temático para o novo Fórum. E ele tinha de ser aberto.

Obra de arte Leo Santana

“O Fórum será uma oportunidade de nos mostrar diferentes do que aconteceu com o desastre da Samarco e do Rio Doce. E aprendemos e evoluímos com isso.”

Quando o senhor afirma que o evento era fechado, se refere à dificuldade de se implementar as ações localmente?

Sim. Mas, principalmente, que a sociedade participasse. E a Comissão Organizadora Internacional, com a participação local, incluíram isso na estratégia do encontro, pois a água assume um especial destaque em seminários de especialistas e de organizações comprometidas com a questão ambiental. As imprensas brasileira e internacional vêm noticiando à exaustão a escassez hídrica e os eventos climáticos extremos. Temos que aproveitar essa oportunidade. Ver o fórum como um momento de nos mostrar diferentes do que aconteceu, por exemplo, com o desastre da Samarco e do Rio Doce. O Benedito Braga disse uma coisa muito importante após o Fórum da Coreia: “O mundo está mudando rápido e a água representa o risco número um em termos de impacto na comunidade global, por estar conectada diretamente com questões como alimentação, energia, saúde e desenvolvimento. É importante gerenciar esse recurso com cuidado e sabedoria”.

 

E a questão da água se transformar em commodity?

Ela vem se tornando commodity. E infelizmente já está sendo negociada na Bolsa de Valores. Na Austrália, já existe negociação de contratos futuros de água. Michael Burry, um investidor americano, que até foi retratado num filme recente (“A Grande Aposta”), decidiu investir nisso também. Mas não na Bolsa. E sim na melhor forma de se apostar em água: a produção de alimentos em regiões abundantes do recurso.

Praça da Liberdade em BH

Fontes da Praça da Liberdade: símbolo histórico , e agora também hídrico, da capital mineira - Imagem: Élcio Paraíso/PBH

É o que chamam de “água virtual”?

Isso. Você planta soja aqui e o que se exporta é toda a nossa água que foi utilizada na produção. Um objetivo forte hoje é definir o quanto de água tem em cada um desses produtos. E é por isso que o Brasil desponta como importante nesse contexto - porque ele tem água. É claro que precisamos ter consciência do que estamos exportando, porque tem água também.

 

Na Encíclica “Laudato Si”, o Papa Francisco lançou um convite para construirmos o futuro do planeta por meio da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas. É aí que se encaixa o Fórum?

Exatamente. E o tema da Campanha da Fraternidade da Igreja Católica para este ano é “Fraternidade: Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”. Tudo está se convergindo para essa oportunidade que falei há pouco que o Brasil terá. Para completar, ainda teve a escola de samba Portela, que venceu o carnaval do Rio de Janeiro, depois de 30 anos, com o tema “O Rio que passou em minha vida”. Temos de fazer 2017 ser o ano de mobilização em prol da água. E esse movimento tem dois objetivos: fazer com que o evento vá além dos especialistas e envolva a comunidade, principalmente os jovens.

 

E o segundo?

Deixar um legado, que  é  a mudança da forma de desenvolvimento, do compromisso a favor dos recursos naturais, especialmente com a água.

 

O que Minas Gerais irá apresentar no evento?

Minas deve ser protagonista. Terá uma comitiva expressiva e representativa do que vem sendo feito aqui na construção da segurança hídrica. E a Fiemg vem atuando nessa direção, especialmente junto ao setor empresarial. É o caso, por exemplo, do programa Minas Sustentável, que abrange as micro, pequenas e médias empresas e o Pacto de Minas pela Água. O Fórum será uma oportunidade de construir parcerias e mostrar casos de sucesso de sustentabilidade na construção da competitividade. A ideia principal é apresentar Minas Gerais como uma potência hídrica do Brasil, vendendo sua imagem positiva em gestão descentralizada, participativa e sustentável dos recursos hídricos. Mostrar o trabalho que está sendo desenvolvido junto às bacias hidrográficas, especialmente a do Rio Doce, na construção de um desenvolvimento sustentável, com envolvimento da comunidade. E as ações em andamento pela Fundação Renova, Fundação Dom Cabral, setores públicos e privado.

 

Como a Fiemg vem se preparando para o Fórum?

Ela faz parte da Seção Brasil (ligada à Agência Nacional das Águas - ANA) dos membros do Conselho Mundial da Água, que coordena as ações de preparação e realização do 8º Fórum. Com a Fapemig, mostraremos os avanços de Minas em ciência, tecnologia, inovação e as parcerias em rede com universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo, tanto na preservação e manutenção da água quanto na solução de desastres ambientais. A Comissão Organizadora do Fórum, inclusive, vem atuando dentro de uma sistemática inovadora, buscando sugestões e recolhendo experiências entre participantes.

Segundo Octávio Elísio, "não há segurança hídrica sem educação para as águas" - Imagem: Domínio Público

De que forma isso está sendo feito?

A partir do próprio site do Fórum Mundial da Água. Desde o dia 13 de fevereiro, o site disponibilizou a plataforma pública global “Sua Voz”, em que qualquer cidadão ou instituição pode deixar sua contribuição. Isso é uma beleza, porque tem gente do mundo inteiro participando do diálogo online. E sendo mobilizada. A plataforma terá três rodadas de oito semanas: fevereiro-abril; maio-julho; e agosto-outubro de 2017. São seis salas de discussão, com moderadores, contemplando os temas Clima, Pessoas, Desenvolvimento, Urbano, Ecossistema e Finança. Junto à Fiemg, estamos acompanhando e preparando um documento a partir dessas contribuições, a fim de levar também uma proposta mais alinhada com a sociedade para o Fórum. É um convite-provocação: fazer com que todos sejam solidários a uma estratégia multidisciplinar de sustentabilidade.

 

Quais sugestões apresentadas na plataforma são interessantes para serem levadas ao Fórum?

A importância da interrelação entre biomas, qualidade e quantidade de água. Esta, inclusive, foi uma pontuação de Glauco Kimura, um dos moderadores. Ele lembrou de dados importantes: o Cerrado, que perdeu 50% de sua cobertura vegetal e abriga as nascentes das principais bacias hidrográficas brasileiras. Segundo a Embrapa Cerrado, 8 das 12 regiões hidrográficas nascem no bioma: 50% das águas do Rio Paraná, 70% das do Tocantins-Araguaia e 90% da água que chega à foz do Rio São Francisco. Outro tema interessante, e que é pouco tratado na mídia, é a questão das águas subterrâneas.

A comunicação entre ciência, clima, gestão da água e políticas setoriais. Também há a falta de saneamento básico em países como Nigéria, Índia, Paquistão, Zâmbia e Mauritânia. O Fórum pode, inclusive, fazer o mundo avançar na universalização do acesso à água potável, como defendeu um dos participantes da plataforma on-line.

 

Por que a Fiemg está se concentrando tanto no Fórum Mundial das Águas?

Porque o 8o Fórum é um indicativo de mudanças e de metas e o setor empresarial deve ser proativo neste processo. Daqui a um ano, é preciso mostrar o que foi feito, que avançamos, que os objetivos foram alcançados. Nessa preocupação de mobilizar a sociedade, foi organizado, dentro da Seção Brasil, o “Programa Rumo a Brasília 2018”. Ele visa mobilizar cidades para o Fórum. Já aconteceu eventos em Belém (PA), Salvador (BA), Cidade do México, Buenos Aires (Argentina) e Santiago, do Chile.  A ideia é colocar Belo Horizonte na rota. A proposta é que seja outubro deste ano. Temos de ensaiar, nesse período, para que BH seja a “Capital da Água”.

 

Nessa mobilização, quem
será envolvido?

Todo mundo, do jovem ao empresário, governo, lideranças, sociedade civil. A Fiemg já está em contato com a Prefeitura de Belo Horizonte e a Secretaria Estadual de Cultura buscando parceria para uso do Circuito Cultural da Praça da Liberdade. A ideia é que, em cada um dos museus, seja realizado um evento sobre água. E também há o envolvimento das escolas para que haja palestras, aulas e dinâmicas que promovam a educação para o uso consciente desse recurso natural tão importante.

 

Já vem sendo pensada uma programação cultural e ambiental para quando BH sediar o programa?

Sim. Música, bandas, teatro, dança, gastronomia. E isso inclui também mostrar a Pampulha como Patrimônio Mundial da Unesco; o Parque das Mangabeiras, que era uma área de mineração; e o Museu de Inhotim, idem. É como se fizéssemos uma versão preliminar do Fórum Mundial da Água em Minas.

 

Quais os temas e tópicos propostos para debate no Fórum?

Clima (segurança hídrica e mudanças climáticas); Pessoas (água, saneamento e saúde); Desenvolvimento (água para produção sustentável); Urbano (gestão integrada de água, resíduo urbano); Ecossistema (água e ecossistemas, biodiversidade); e Finança (financiamento para segurança hídrica). Todos esses temas foram pensados dentro de uma sistemática de aperfeiçoamento das edições anteriores do Fórum e são perpassados por outros temas transversais: compartilhamento; capacitação; ciência e tecnologia; sustentabilidade. O grande foco é a educação ambiental. Na RIO+20, a Unesco afirmou que a educação para as águas é ampla. Não envolve apenas aquela educação formadora de hidrólogos e cientistas que vão pesquisar e estudar a questão da água. Mas também aqueles que são responsáveis por pensar as leis, que formam opinião, mais a educação informal e a mídia.

 

Qual o papel da mídia nisso?

É ela a responsável por fazer a mudança de pensamento da sociedade em relação à necessidade urgente de se preservar a água. Não há desenvolvimento sustentável sem segurança hídrica. E não há segurança hídrica sem educação para as águas.

 

Em uma entrevista que a Revista Ecológico fez com o sr. há sete anos, o senhor disse que “lutava para ser otimista e ter sempre o sentimento de esperança”. Essa luta ainda continua?

Continuo otimista e esperançoso. Quando vejo algo como o Fórum Mundial da Água acontecer, me dá esperança sim. Isso é o que me alimenta. O recado que deixo a todos é para não perderem a oportunidade de entender que o que aconteceu com o Rio Doce e a mineração deve se constituir em oportunidade de mudança. Infelizmente, o que choca é que provoca mudança. E o desastre tinha de acontecer em um estado chamado Minas Gerais, considerado a “caixa d’água do Brasil”, e em um rio onde foram cavadas as primeiras minas e que foi cenário da Corrida do Ouro. As mineradoras devem procurar alternativas que não sejam o uso da água e a produção de rejeito. Devem adotar a economia circular, de reduzir, reutilizar e reciclar. É hora de fazer diferente.

 

 

EM TEMPO: A Ecológico irá acompanhar e mostrar a preparação de Minas e do Brasil para o Fórum, em suas próximas edições até à realização do evento mundial, em março de 2018, em Brasília (DF).

 

Saiba mais
Para participar e deixar sua contribuição para o Fórum Mundial das Águas, acesse a plataforma “Sua Voz” no site www.worldwaterforum8.org

 

 

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