Terça, 25 de abril de 2017

“Queremos deixar um legado”

Wilson Brumer (*)



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“Não tenho dúvida de que a mineração necessariamente vai ter de passar por uma rediscussão dos seus aspectos tecnológicos. A cadeia produtiva mineral tem de chegar ao consumidor, que exige cada vez mais produtos de qualidade, que não sejam danosos ao meio ambiente e devem ser compatíveis com a capacidade de consumo dos vários segmentos. Não tenho dúvida também, por exemplo, que ‘barragem’ no futuro é um negócio que vai virar um ‘palavrão’. Isso significa que novas tecnologias para a mineração a seco vão ser necessárias, terão de ser desenvolvidas ou aprimoradas. É um processo natural. Quantas barragens existem Brasil afora, principalmente em Minas? Todas elas devem ser controladas de forma adequada, para que não aconteça o mesmo, infelizmente, que aconteceu com o projeto da Samarco. Ninguém, é claro, faz barragem para ser rompida.

Quanto ao uso da água, no Brasil sempre falamos que o problema está ligado à falta de chuvas. Será? Quando olhamos Israel, que tem um consumo muito maior que a sua capacidade de gerar o recurso, fica mais fácil entender a importância de se investir na gestão e no uso da água - que pertence ao povo e é administrada pelo Poder Público. Em nosso país, temos absurdos: investimos em tratamento de água para ela ser jogada no vaso sanitário. Limpamos as calçadas com água tratada que deveria ser bebida. O próprio modelo de tratamento no Brasil tem de ser repensado. Gastamos recursos demais para a água ser usada de forma inadequada.

Queremos deixar um legado: da mesma forma que Israel quer melhorar o mundo, a Fundação Renova quer melhorar a região afetada. Não adianta, ao final do dia, implantarmos vários programas e a região ficar como antes. Precisamos falar de recuperação também no que concerne ao saneamento e tratamento de esgoto. Não é só cumprir aquilo que foi acordado com as autoridades, sejam elas municipais, estaduais ou federais. É fazer mais. É resolver o problema de saneamento como um todo.

A sustentabilidade começou com a parte mais focada em meio ambiente, mas é muito mais isso. Temos de encontrá-la na geração do emprego, nas tecnologias... Vejo com satisfação que os vários programas que estamos discutindo têm de se integrar, de tal forma que a gente crie uma região sustentável. Se nós tirarmos da região a atividade minero-metalúrgica, o IDH da região do Vale do Rio Doce deve ser comparável ao das áreas mais pobres de Minas Gerais.

Temos uma enorme responsabilidade, que é como desenvolver econômica e socialmente esta região aproveitando, infelizmente, o que aconteceu. Não adianta ficar olhando para trás. Não podemos perder a oportunidade de fazer um grande projeto de desenvolvimento econômico e social para a região. São vários municípios, burocracias têm de ser vencidas, mas isso não importa. Os problemas nós vamos vencer. O que não podemos deixar é sermos vencidos por eles. Que os esforços não fiquem isolados. O que nós pudermos fazer juntos – Fiemg, Israel, outros órgãos públicos, a Fapemig –, para que possamos entregar algo muito melhor do que estava lá, será feito. Como presidente do Conselho Curador da Fundação Renova, já me abro para ser o interlocutor. E o nosso presidente-executivo, Roberto Waack, tem a mesma filosofia:  transformar a região afetada em uma área mais sustentável do que era antes. O problema do Rio Doce é um problema de décadas, piorado agora pelo que aconteceu na Samarco. Mas a Fundação Renova tem tudo para transformar este desafio em um grande exemplo de recuperação e sustentabilidade.” 

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