Segunda, 24 de abril de 2017

E assim caminha o retrocesso

Confira o artigo do biólogo, João de Deus Medeiros, sobre o Projeto de Lei que libera a caça no Brasil

Maria Dalce Ricas * redacao@revistaecologico.com.br



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Atenção, Valdir Colatto: nós e os animais estamos de olho. Nenhumainsustentabilidade será tolerada

Atenção, Valdir Colatto: nós e os animais estamos de olho. Nenhumainsustentabilidade será tolerada

Neste meu “escrito”, praticamente vou reproduzir - com autorização - trechos do excelente artigo do biólogo catarinense João de Deus Medeiros, professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina, sobre o Projeto de Lei (PL) 6.268/16 do deputado Valdir Colatto que libera caça no Brasil:

“O mundo foi criado para o bem do homem e as outras espécies devem se subordinar a seus desejos e necessidades. As plantas foram criadas para o bem dos animais e esses para o bem dos homens, já dizia Aristóteles. E ele foi além: os animais domésticos existem para labutar, os selvagens para serem caçados. Para os estoicos, a natureza existe, unicamente, para servir aos interesses humanos.”

“O homem era o fim de todas as obras de Deus, visto como o centro do mundo, ponderou Francis Bacon. Quando os animais tornam-se incômodos, declarava Henry Moore no século XVIII, os homens têm o direito de contê-los, ‘pois não há como discutir que somos mais valiosos que eles’. Mesmo Santo Agostinho e Tomás de Aquino palpitaram sobre o tema, esclarecendo que o sexto mandamento, contra o assassinato, não valia para não humanos. Influenciados pelo cristianismo ocidental, não há dúvidas de que os principais expoentes do início do período moderno adotavam uma postura intrinsecamente antropocêntrica. Civilização era uma expressão umbilicalmente associada à conquista da natureza, reforçada pela negação cartesiana da existência da alma nos animais, equiparando esses seres inferiores a meros autômatos.”

“O deputado Valdir Colatto parece ser ferrenho adepto de Francis Bacon. Diz-se defensor da natureza” - desde que os seres humanos estejam em primeiro lugar. Apresentou o PL 6.268, mascarando-o de princípios e diretrizes para a conservação da fauna silvestre no Brasil. Por um pequeno lapso, ironiza João, esqueceu-se de incluir um artigo instituindo o “dia do caçador”.

Crente na interpretação de que o Criador colocou todos os animais em nossas mãos, seu PL diz que poderemos matar animais silvestres e comercializar sua carne e peles. Estimular caça para proteger cultivos agrícolas já foi saudada como medida moderna na Inglaterra de 1533, com leis paroquiais remunerando caçadores. Colatto chega ao cúmulo de propor que eutanásia de bichinhos resgatados em áreas de empreendimentos sujeitos ao licenciamento ambiental também será admissível. Resgata-se e mata!

“Temam e tremam criaturinhas, pois isso não é tudo”: se aprovado, o PL poderá conceder licença para  aprisionamento, caça, abate, pesca, captura, coleta,  exposição, transporte e comércio de animais da fauna silvestre, assim como para destruir ninhos, abrigos ou criadouros naturais, ou realizar qualquer atividade que impeça sua reprodução. O deputado propõe também uso de cães para caçar até em Unidades de Conservação (UCs), provavelmente na esperança de que nelas haverá maior número de animais para serem mortos.

“Colatto é a modernidade esperada por aqueles que não apenas amam o passado, mas que se julgam superiores, escolhidos, ungidos a serem os melhores, os donos do mundo.” E João de Deus Medeiros conclui: “Talvez seja esse o PL que mais simbolicamente posiciona os parlamentares tupiniquins frente à sua busca pela eternização de uma moral vitoriana, essencialmente hipócrita, burguesa e injusta, onde bichos, mas também bichas, índios, negros, mulheres, crianças e trabalhadores podem ser vistos como seres inferiores”.

E assim retrocede a humanidade.

 


(*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda). 

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