Segunda, 24 de abril de 2017

E a carne verde, Maggi?

Confira a "Carta do Editor" da Revista Ecológico, edição 97

Hiram Firmino - hiram@souecologico.com



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Blairo Maggi, em busca da nota 10 em meio ambiente: depende dele fazer da pecuária brasileira um setor mais sustentável - Imagem: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABR

Blairo Maggi, em busca da nota 10 em meio ambiente: depende dele fazer da pecuária brasileira um setor mais sustentável - Imagem: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABR

O mundo inteiro, capitalista e carnívoro, assistiu ao desempenho “salve a Pátria” de Blairo Maggi, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento ao longo de toda a truncada Operação Carne Fraca. Impetuoso e pragmático, como é de seu estilo, ele não deixou por menos. Vestiu até macacão higiênico para entrar nos frigoríficos e conhecer as suas entranhas e vísceras. E, assim, evitar que o maior país produtor de carne bovina do planeta tivesse um prejuízo estimado de até US$ 1,5 bilhão. Não teve.

Para um setor que, novamente livre e aquecido, vide a fome de uma população global de sete bilhões de habitantes, deverá capitalizar até R$ 15 bilhões em exportações até o final deste ano, o estrago financeiro não deverá passar de US$ 140 milhões, que também será compensado.

Como bem apontou a colega Bianca Alvarenga, na Revista Veja, em uma ação conjunta, tanto o Governo Temer quanto as empresas exportadoras de carne conseguiram evitar uma “indigestão” maior ainda. Acabaram se mexendo para aprimorar a necessária fiscalização, através de uma Medida Provisória com penas mais duras do que as previstas na regulamentação insustentável de 1952.

O capitalismo, o ministro e todo o setor produtivo sabem bem disso, como tudo que é vivo na natureza, é criativo, adaptativo e multiplicativo. Ele se reinventa o tempo todo, para não morrer. E, pelo contrário, continuar vivo, lucrando cada vez mais, após recuperar, com um simples e futuro aumento nos preços, qualquer tragédia carnívora atual.

Aí é que o ministro Blairo Maggi entra, de novo, na dança agropecuária e vital do planeta. Ele sabe, igualmente, que toda espécie de vida animal ou vegetal sobre a Terra, seja uma simples borboleta até a baleia mais majestosa, se extinta, é para sempre. Enquanto governador do Mato Grosso, em sua época, o Estado mais devastador e predatório da ainda resiliente Amazônia Legal Brasileira, ele venceu, em 2005, com 37,2% de indicações, o vergonhoso prêmio “Motosserra de Ouro”, do Greenpeace. Ou seja, apontado, depois de Lula (26,3%), como a “personalidade brasileira que mais contribuiu para a destruição (e extinção gradativa) de toda a biodiversidade que ainda se abriga na última grande floresta tropical e refrigerador naturalmente climático do planeta”.

Entrevistado pela Ecológico, nessa época, o governador Maggi não se abalou. Agricultor e pecuarista, ele aceitou, parcialmente, as críticas. E contra atacou, seguro e desafiante: “Minha defesa é achar que contra trabalho não há argumento. O que temos de fazer é trabalhar. Deram-me zero na área ambiental. Vou mostrar que somos capazes de tirar um dez!”

Daí a pergunta que a Ecológico  lhe refaz nesta edição,  já passados onze anos dessa sua promessa: por que, do mesmo jeito que atuou em defesa da carne vermelha, nem sempre sustentável, ele e o Governo Temer, incluindo a própria indústria da carne, seus grandes e rentáveis frigoríficos, não implantam a “Operação Carne ‘Verde’”, 100% sustentável, conscientes de que a pecuária extensiva e predatória continua sendo responsável por 65% da destruição em curso e galopante da Amazônia? E que os 35% de natureza e meio ambiente já perdidos ali não têm preço? E se tivesse, certamente seria infinitamente maior que os US$ 1,5 bilhão de perda superestimada por Maggi na Operação Carne Fraca?

É esta a nova pergunta mais patriota ainda, caro Blairo, que lhe fazemos. É o que você, caro leitor, cara leitora, vai continuar acompanhando nesta primeira edição outonal da sua Ecológico.

Boa leitura, até à próxima lua cheia! 

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