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Quinta, 23 de março de 2017

“O fracking é uma farsa”

É o que afirma Juliano Bueno de Araújo, fundador da Coesus e coordenador de Campanhas Climáticas da 350.org, na entrevista a seguir:

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Juliano Bueno:

Juliano Bueno: "A agricultura e o agronegócio são extremamente impactados pela exploração de gás de folhelho" - Imagem: Divulgação ALMG

Por que o fracking é tão perigoso?

É uma tecnologia que fratura rochas no subsolo. A injeção de até 35 milhões de litros de água por poço perfurado, mais os 250 mil litros de produtos químicos e radioativos com areia (que chamamos de “coquetel da morte”), transforma o subsolo do planeta em um queijo suíço. E aí, apenas 20 a 30% dessa mistura volta para a superfície. Todo o restante fica no solo, gerando uma série de consequências, principalmente a contaminação de aquíferos. No Brasil, 42% da nossa população é abastecida por águas subterrâneas. A técnica é um risco perigosíssimo à segurança hídrica nacional.

 

E quanto às outras atividades econômicas? Qual é o impacto?

As águas são contaminadas e tornadas impróprias para consumo humano, animal e uso comercial e industrial. O agronegócio, principalmente a agricultura e pecuária, são extremamente impactados. Milhões de pessoas e empresas que precisam de água para fazer irrigação, por exemplo, não poderão usá-la. Depois que a perfuração e a injeção do coquetel da morte são feitas, passados alguns meses, os gases e fluidos percorrem o subsolo até a superfície e daí as terras produtivas passam a ser contaminadas e acidificadas, tornando-se impróprias para uso.

A terra deixa de produzir?

Exato. Há países que já proíbem a importação e consumo de produtos que sejam produzidos em um raio de até 80 km onde há uma torre exploratória de gás. Ou seja, o impacto econômico e agrícola é insustentável para qualquer país, principalmente o Brasil, em que a agricultura é importantíssima para a economia. O Chile, por exemplo, hoje vende alimentos com um selo “Fracking free”, para promover suas frutas no mercado europeu como um alimento livre de fluidos hidráulicos. Já a indústria da fruticultura na Argentina tem alta dificuldade em vender e exportar seus produtos. Há aproximadamente 80 mil agricultores e centenas de cooperativas e empresas agrícolas que faliram. Eles não têm mais emprego e renda porque não conseguem comercializar seus alimentos.

 

A exploração de gás de folhelho é uma realidade no Brasil?

Já foram realizados testes de viabilidade. Em 2012 e 2015, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realizou leilões públicos onde 15 estados brasileiros, abrangendo 754 cidades, foram afetados sob a sombra da aquisição de áreas do subsolo. Em nenhuma cidade foi realizada um audiência pública por parte da agência. Nenhum cidadão foi convidado ou perguntado se era de seu interesse a realização de testes sísmicos ou a exploração de gás. Isso foi feito de maneira ilegal, na “surdina”. Não havia a intenção de tornar essa informação pública.

Marcador de fracking

Marcador deixado em algumas áreas de cidades brasileiras pela empresa Global Services, contratada pela ANP para realização de testes para aquisição sísmica: na "surdina" - Imagem: Coesus/350Brasil

O que aconteceu, na sequência?

O Ministério Público Federal, de várias regiões, a Coesus e outras organizações entraram com ações civis públicas. Os efeitos dos leilões estão suspensos com liminar na Justiça e nenhuma atividade exploratória poderá ser feita até o julgamento final. Entretanto, sabemos que liminares são frágeis sob o aspecto jurídico e as consequências ambientais e à saúde humana dessas atividades são trágicas. Os produtos radioativos e químicos utilizados no “coquetel da morte” causam câncer, doenças neurológicas, gástricas e de pele. Há estudos que comprovam que, onde as atividades de exploração de gás são realizadas, os abortos espontâneos aumentaram até 3.000 vezes. Já os casos de câncer cresceram até 1.600 vezes.

 

No Brasil já existe uma legislação específica que proíba a exploração de gás de folhelho?

Ainda não temos uma legislação nacional que proíba o fracking. Existem dois Projetos de Lei (PLs) apresentados em 2013 e em 2015. Um suspende e o outro proíbe a atividade no Brasil. Eles ainda não foram votados em plenário no Congresso Nacional. Passaram por duas Comissões, fomos vitoriosos nelas, mas derrotados na de Minas e Energia, que obviamente tem um interesse meramente exploratório, no sentido de não se verificar as consequências deste tipo de exploração. São poucos os grupos econômicos interessados na atividade. No Brasil, o Paraná foi o primeiro a proibir o fracking para proteger suas reservas de água subterrânea, a produção agrícola e a saúde de seus 11 milhões de habitantes. Já temos 284 cidades no país que implementaram uma legislação municipal que cria uma série de empecilhos e dificuldades para que este tipo de exploração aconteça em suas áreas. Por isso é importante que outros estados brasileiros sigam o exemplo do Paraná até que tenhamos os PLs aprovados.

 

Que países já proibiram a exploração de fracking?

O estado de Nova York (EUA), quando viu que sua água subterrânea estava sendo contaminada e seu nível de água rebaixado, proibiu a técnica. Na França, Bulgária e Alemanha ela também foi proibida. Na Austrália, o seu maior estado produtor de gado fez a mesma coisa.

A exploração de gás de folhelho é feita, em sua maioria, por pequenas e médias empresas de petróleo e gás. Nos EUA, quando essa aventura começou haviam 2.300 empresas. Mais de 1.400 já faliram, porque é uma aventura.

 

Em que sentido?

É um golpe econômico, em que uma empresa diz que há uma reserva grande de gás, mas isso não se evidencia. Então, no mercado de ações, as pessoas investem nessas empresas acreditando que elas vão ter lucro e fazer bem para elas. Mas tudo não passa de uma farsa. É algo semelhante ao que o Eike Batista fez aqui no Brasil com o pré-sal, ao afirmar que havia bilhões de litros de petróleo e isso não foi comprovado. Milhares de pessoas perderam dinheiro. Fora a farsa que isso traz, há a falsa imagem de “boa aventurança” que é passada para as cidades que recebem ou autorizam este tipo de exploração. O que acaba colocando em risco o agronegócio, que tem a agricultura e a pecuária baseadas no uso da água e do solo, além de produtores e empresas que trabalham com tecnologia, fornecimento de sementes e a produção de animais.

 

O que a população brasileira deve fazer para evitar o fracking?

Acho relevante que as pessoas se mobilizem. Há um problema grave de escassez de água em diversas regiões do mundo. Já vimos isso em vários estados brasileiros, principalmente em São Paulo, com a crise hídrica de 2014. Hoje o Nordeste, onde o gás de folhelho até já foi “vendido” ilegalmente para ser explorado, tem a maior crise hídrica dos últimos 100 anos. A grande chamada que fazemos para toda a população é o de ela proibir o fracking nas suas cidades e se mobilizar junto às suas assembleias legislativas para impedir o avanço da técnica de exploração aqui. Afinal, não queremos que nossos parentes e amigos tenham câncer. Queremos que o nosso produtor rural continue tendo a capacidade de produzir. Que a água e o ar estejam limpos e saudáveis para todos nós. É possível fazermos uma transição energética sustentável. Não precisamos do gás de folhelho. O momento agora é o da energia renovável, que é mais barata do que gás ou petróleo.

 


LEIA A REPORTAGEM COMPLETA CLICANDO NOS LINKS ABAIXO:

Fracking, não!

Os impactos ambientais

A resposta da ANP

“O fracking é uma farsa”

Os testes sísmicos

O papa também é contra

 

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