Quarta, 22 de março de 2017

Ruben Fernandes: "A mineração tem de ser sustentável"

Conheça Ruben Fernandes, atual presidente da Anglo American no Brasil

Hiram Firmino e Bia Fonte Nova - redacao@revistaecologico.com.br



font_add font_delete printer
Ruben Fernandes, o novo rosto da Anglo American:

Ruben Fernandes, o novo rosto da Anglo American: "Nosso compromisso é fazer a diferença" - Imagem: Ronaldo Guimarães

Engenheiro metalurgista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, o belo-horizontino Ruben Fernandes, atual presidente da Anglo American no Brasil, está na empresa desde 2012 e é o oitavo executivo a ocupar o cargo, em oito anos de presença da mineradora no Estado.

O carro-chefe das atividades é o Sistema Minas-Rio, projeto que inclui a mina e a unidade de beneficiamento de minério de ferro localizada em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas – na porção mineira da Serra do Espinhaço –, além de um mineroduto e do terminal de embarque no Porto do Açu, em São João da Barra (RJ).

Canceriano, Ruben tem a sensibilidade e a tenacidade como uma de suas marcas registradas, aliada também à sua trajetória e experiência profissional de 22 anos atuando na mineração. Seu principal desafio, no momento, é obter as licenças ambientais necessárias à consolidação da Fase 3 do Minas-Rio. Com elas, a mineradora espera atingir sua capacidade máxima de produção, saltando de 16,1 milhões para 26,5 milhões de toneladas de minério/ano até 2019.

Descontraído e de fala rápida, o executivo recebeu a reportagem da Revista Ecológico em seu escritório, em Belo Horizonte, onde ressaltou a importância da mineração para a sociedade, em especial no Brasil, que é líder na exportação de nióbio e o terceiro entre os maiores exportadores de minério do mundo. Otimista, reforçou o compromisso de deixar um legado duradouro e sustentável na região de influência do projeto e revelou sua antiga relação afetiva com Conceição do Mato Dentro, onde sua família viveu por mais de 10 anos e seu pai fundou a conhecida cachaça Bento Velho. Confira o que pensa este novo “embaixador” da mineração:

Segredo

“Mineração tem que ser sustentável, é uma questão de sobrevivência. Todos dependemos dessa atividade que é essencial para a vida moderna e está presente em nosso dia a dia sob variadas formas, de geladeiras e carros a computadores e aviões. O segredo é fazer o que é certo, pensando no longo prazo, com respeito socioambiental e muito diálogo.”

“O Minas-Rio terá vida útil bastante longa. Temos reservas naturais para operar por mais de 40 anos e, portanto, nossa visão é de futuro, de criar laços e buscar o engajamento permanente com as comunidades vizinhas. O casamento entre mineração e comunidade tem de dar certo, gerar frutos ambientais, sociais e econômicos, deixando um legado que seja duradouro e sustentável para todas as partes envolvidas.”
 

Embaixador

“Minerar é gerar desenvolvimento e riqueza para todos, de forma responsável. Apesar de o setor historicamente enfrentar resistência e oposição, temos de desmitificar essa realidade. Acredito que cada funcionário de uma empresa deste setor tem de ser um embaixador da mineração positiva e responsável, que traz conforto, desenvolvimento e benefícios coletivos.”

“Durante um dos painéis de debate do Congresso Mundial de Mineração, realizado em outubro, no Rio de Janeiro, frisei que a mineração não pode ser mais vista como no filme ‘Avatar’, apenas como vilã, uma degradadora da natureza. Ela é uma indústria capaz de transformar a vida das pessoas para melhor, levando desenvolvimento e prosperidade para as regiões em que atua.”

Conceição do Mato Dentro

Conceição do Mato Dentro - Imagem: Divulgação/Site da Prefeitura

Inovação

“Este ano, estou completando 30 anos de profissão, 22 deles na mineração – cinco anos na Anglo American – e outros oito na siderurgia. Sou um entusiasta da mineração, pois, como disse, o mundo precisa e todos nós precisamos dela. Também sou ligado às questões que envolvem inovação e a busca da excelência, com foco em sistemas e métodos de produção mais seguros e eficientes. Em especial do ponto de vista da economia de água e de energia.”

“A mineração precisa inovar ainda mais. Sobretudo na adoção de processos de produção que permitam, por exemplo, minerar sem o uso de água e reduzindo o risco a que são expostos os profissionais da operação. A Anglo American tem um time muito forte ligado à inovação. Um grupo que fica em Londres, estudando e pensando o futuro da companhia daqui a 20, 30 anos, visando ao aperfeiçoamento contínuo da nossa atividade.”

“Temos também iniciativas diferenciadas, como um projeto-piloto, no Chile, para uso de prensas de rolos para cominuição – fragmentação e redução da granulometria – do minério de ferro. Do ponto de vista energético, esse processo é bem mais eficiente, se comparado à eficiência dos britadores e moinhos convencionais.”

 

Água

“Sem compromisso ambiental, não conseguiríamos prosseguir com as nossas atividades. E o cuidado com a água é uma das prioridades do Minas-Rio. Além de recircular ao máximo o recurso que captamos para uso no processo – hoje esse índice é de 86% – temos ações voltadas para a conservação de matas ciliares e de nascentes, contribuindo para o aumento da disponibilidade hídrica na região.”

“Essa disponibilidade é permanentemente avaliada em importantes cursos d’água, tais como os rios do Peixe e Santo Antônio, que integram a Bacia do Rio Doce. Mas, infelizmente, no que diz respeito à qualidade das águas, o maior poluidor hoje dos nossos recursos hídricos é o esgoto doméstico. A ausência de saneamento básico na região reduz a disponibilidade hídrica para os mais diferentes usos, inclusive na mineração. Se você coletar uma amostra da água que devolvemos à natureza – após o processo produtivo – verá que ela é mais limpa e tem qualidade bem superior à que captamos.”

“Em relação ao reaproveitamento da água que conduz a nossa polpa de minério, via mineroduto, até o Porto do Açu (ES), também temos boas perspectivas. Como ela percorre diferentes variações de terreno, com áreas planas e montanhosas, a água ganha grande velocidade após nosso descer a Serra da Mantiqueira e pode vir a ser usada na geração de energia elétrica para abastecer o próprio porto.”

Licenças

“Hoje, nosso foco central no Minas-Rio é a obtenção das licenças ambientais para a Fase 3 do projeto. Em outubro do ano passado, o Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) nos concedeu a Licença de Operação (LO) para a Fase 2, que envolveu um conjunto de melhorias e ajustes operacionais, incluindo um pequeno avanço na cava.”

“A estratégia inicial de implantação do projeto já previa o licenciamento em três fases. E com a terceira, estaremos aptos a atingir nossa capacidade instalada de produção, que é de 26,5 milhões de toneladas de minério de ferro/ano até 2019. Em 2016, produzimos 16,1 milhões de toneladas.”

“Estamos trabalhando com força total e a meta é obter a Licença Prévia e também a de Instalação (LI) até agosto deste ano. Isso porque precisaremos de um ano para construir as novas estruturas, compatíveis com o aumento da produção. Entre elas, diques de contenção e o alteamento de uma conta na barragem de contenção de rejeitos, que entrou em operação em 2014 e fica dentro da nossa área de operação, entre Conceição e Alvorada de Minas. Vamos investir cerca de R$ 1 bilhão só em serviços.”

 

Barragem

Barragem da Anglo American

Barragem da Anglo American: o diferencial de segurança é o método construtivo - downstream -,  a jusante. A barragem foi concebida para ser alteada em etapas, sempre para frente do maciço - Imagem: Divulgação

“Hoje, apenas 35% da capacidade total da nossa barragem está ocupada. Além disso, temos um importante diferencial de segurança: o método construtivo escolhido para a barragem, ainda na fase inicial do projeto. Conhecido como downstream – ou seja, a jusante – ele é considerado mais seguro, com a barragem concebida para ser alteada em etapas, sempre para frente do maciço (leia mais a seguir).”

“Nossa barragem, portanto, é diferente da estrutura de Fundão, da Samarco, que rompeu em 2015, tanto em termos de operação quanto de engenharia. Mesmo assim, desde o acidente de Mariana, temos acompanhado todas as discussões sobre a segurança das barragens de rejeitos em nosso Estado.”

“Esse movimento motivou inclusive a publicação de um decreto estadual, ano passado, suspendendo temporariamente a formalização de processos de licenciamento ambiental de novas barragens com método de alteamento a montante, exatamente pelos riscos de falha na operação e na estabilidade dessas estruturas. No entanto, até agora, essa exigência ainda não foi legalmente definida.”

 

Rigor

“Quando o assunto é barragem, valores que já praticamos, como responsabilidade e segurança, ganham ainda mais força. Além de um Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM) – com inspeções rotineiras e ações que nos permitem controlar os riscos inerentes à atividade e tomarmos as decisões na hora certa – contamos ainda com uma consultoria especializada em geotecnia que nos audita anualmente. Em 2016, ela atestou a estabilidade e a segurança da nossa estrutura, que também é fiscalizada pelo Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM) e pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam).”

“A Anglo American tem um corpo técnico forte, com grande conhecimento e expertise na operação de barragens de rejeitos em diferentes países, como África do Sul, Canadá e Chile. Um dos maiores especialistas do mundo no assunto, Caius Priscu, é chefe de Gerenciamento de Resíduos Minerais da Anglo e nos audita internamente, sempre com extremo rigor. Uma das máximas dele é a seguinte: ‘Quando há um problema na operação, podemos tirar as pessoas e os caminhões, corrigir a falha e depois voltar. Mas na barragem não é assim: é preciso acertar desde o primeiro dia’. Felizmente, temos esse conforto adicional, pois optamos por ste modelo mais seguro desde o embrião do Minas-Rio.”

 

Relacionamento

“A resistência da opinião pública e de certas comunidades à mineração é uma realidade enfrentada por todo o setor. Naturalmente, na região do Minas-Rio também há aqueles que não entendem o projeto, não foram atingidos por ele, mas ainda assim protestam. Por isso, temos procurado divulgar melhor tudo o que estamos fazendo de bom e de positivo para Conceição e outras cidades da região.”

“Procuramos estar o mais próximo possível da população, seja por meio das nossas equipes de relacionamento, seja marcando presença através de programas sociais importantes. Um exemplo é o Programa de Desenvolvimento de Fornecedores Locais (Promova). Desde 2012, já realizamos 35 cursos para 1.700 participantes, em parceria com o Sebrae, a Fiemg e o Senac. Em quatro anos de história, o Promova multiplicou em 14 vezes o volume de compras locais feitas no Minas-Rio.”

Educação

“Em parceria com o Senai, a Anglo American reformou o antigo Ginásio São Francisco, que estava há anos abandonado. Essa escola tem importância histórica para Conceição e formou cidadãos ilustres, como o ex-ministro e ex-embaixador José Aparecido de Oliveira (1929-2007) e o atual presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, desembargador Herbert Carneiro. Desde 2013, funciona no local a Unidade Profissionalizante “José Aparecido de Oliveira”. Investimos R$ 3 milhões na reforma e o Senai cerca de R$ 1,5 milhão em equipamentos.”

 

Inédito

“Como o Minas-Rio está inserido na Serra do Espinhaço – tombada como Reserva da Biosfera pela Unesco desde 2006 – também temos dedicado atenção especial à criação de áreas protegidas. Hoje, a Anglo tem quase 12 mil hectares preservados, sob a forma de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Isso é algo inédito: tanto na história da região quanto no que se refere à conservação da vegetação de campos rupestres e também da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do Brasil.”

 

Ligação

“Poucos sabem, mas tenho ligação afetiva antiga com Conceição do Mato Dentro. Minha família morou por mais de 10 anos na cidade, onde meu pai fundou a cachaça Bento Velho, uma das mais tradicionais da região. Passávamos vários feriados e férias na fazenda. Com três anos de idade, minha filha foi eleita Miss Conceição Mirim. Hoje, ela está com 20 anos. Meu pai vendeu a fazenda e o alambique há alguns anos, mas a história da Bento Velho continua. Inclusive, o rótulo que ele mesmo desenhou para a marca ainda é o mesmo.”

 

Futuro

“Desde a chegada da Anglo American, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da região de Conceição aumentou cerca de 40%. O PIB per capita também subiu. Em suma: temos plena consciência de que somos um empreendimento de alto impacto ambiental. Porém, temos promovido diversas ações voluntárias, que vão além das nossas obrigações legais, previstas nos licenciamentos.”

“Nosso compromisso é seguir fazendo a diferença, seja preservando a água e o verde, melhorando a instrução das pessoas ou contribuindo para a geração de novas riquezas. Queremos que Conceição e as cidades vizinhas se tornem cada dia menos dependentes da mineração.”

“Sou otimista. Afinal, é gratificante saber que estamos contribuindo para que as pessoas ampliem seus horizontes, tenham trabalho, renda e também a oportunidade de educar melhor seus filhos e netos. Esses são os legados que esperamos deixar perpetuados no futuro. Para isso, continuaremos contando com a dedicação e a garra de todas as nossas equipes, sempre motivados a fazer o melhor.”


Quem é ele

Ruben Fernandes, 51 anos, tem MBA em Negócios pela USP. Foi diretor de Mineração da Votorantim Metais no Brasil e, entre 2009 e 2011, respondeu pela diretoria de Operações da Vale Fertilizantes, sendo responsável também por vendas e marketing. Presidiu as empresas Kaolin – Pará Pigmentos e Cadam, duas subsidiárias da Vale, entre 2007 e 2009. De 1988 a 1998, ocupou diversas posições de liderança na indústria de ligas especiais. Atualmente, participa da iniciativa “The CEOs Legacy”,
da Fundação Dom Cabral, que reúne dirigentes de nacionais e multinacionais, com o propósito de criar um ambiente de transformação no qual reflitam e compartilhem experiências capazes de fazer a diferença em suas vidas e nos negócios. É casado e tem dois filhos.


Fique por dentro

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é calculado com base em três indicadores: saúde, educação e renda. Foi criado em 1990 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) como alternativa às avaliações puramente econômicas de progresso nacional, como o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). O IDH varia entre 0 e 1.

De acordo com o Plano de Desenvolvimento Socioeconômico e Empresarial para a Região de Influência da Anglo American em Minas, produzido pela Fiemg, entre a população adulta acima de 25 anos, a média é de três anos de estudo. Já o IDH na região é de 0,668, enquanto em MG é de 0,733. O PIB é de 3,349 per capita, enquanto no restante do estado é de 11,028. Nova Lima, cidade também mineradora, lidera o ranking estadual do IDH, com 0,813.

Barragem da Anglo American

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário
Outras matérias desta edição