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Quarta, 22 de março de 2017

As "pedreiras" de Kalil

Conheça os dois últimos grandes desafios que o novo prefeito de BH terá de enfrentar, ao lado do governador Fernando Pimentel, além dos cinco que a Ecológico mostrou na edição anterior:

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Alexandre Kalil, com Fernando Pimentel: em suas mãos, a última esperança para a mais sustentável operação 
urbana já realizada na capital mineira - Imagem: Verônica Manevy/Imprensa MG

Alexandre Kalil, com Fernando Pimentel: em suas mãos, a última esperança para a mais sustentável operação urbana já realizada na capital mineira - Imagem: Verônica Manevy/Imprensa MG

Como a Revista Ecológico anunciou em sua edição 95, os dois maiores problemas que o governo Alexandre Kalil tem para resolver na área socioambiental em Belo Horizonte são mais que simples desafios. Na linguagem popular, são questões consideradas “pedreiras” mesmo, por envolverem tanto interesses escusos quanto diferenças partidárias e interferências intelectuais nada republicanas. E, muito menos, sustentáveis. Mas, se enfrentadas apartidariamente e com coragem (do latim “agir com o coração” social), justamente o perfil que Kalil mostrou durante a campanha, essas demandas podem fortalecer a imagem de um prefeito efetivamente preocupado com as demandas sociais, econômicas e ambientais – do que a ex-”Cidade Jardim” do Brasil ainda carece. Confira:

1 – ISIDORO

A primeira tragédia que o ex-prefeito Marcio Lacerda quase conseguiu evitar - e essa foi a sua confessada “maior tristeza” ao deixar o governo  – chama-se “Operação Urbana Isidoro”, instituída pela Lei Municipal 9.959, que ele regulamentou desde o seu primeiro governo, em 2010, como “Área de Interesse Socioambiental”. O nome Isidoro foi escolhido em homenagem ao curso de água integrante da Bacia do Onça e do Rio das Velhas, que corta a região hoje quase totalmente degradada.

Trata-se não apenas de preservar, mas de tornar sustentável, com a implantação compartilhada de uso público, urbanização e projetos habitacionais do “Minha Casa, Minha Vida”, todos os terrenos públicos e particulares ainda existentes na chamada última fronteira verde na região Norte da capital mineira.

Isso significava, em vez das conhecidas e incentivadas invasões politicamente criminosas, que continuam ocorrendo, a ocupação ecologicamente correta de nada menos que 9,5 milhões de metros quadrados, no limite de Belo Horizonte com Santa Luzia. Uma área com metragem maior, portanto, que a própria “Cidade Vergel” dos versos de Olavo Bilac, de 8,5 milhões de metros quadrados, assim sonhada por Aarão Reis dentro do perímetro urbano da Avenida do Contorno.

Aí que entra a ironia do destino, para não dizer cegueira e insensibilidade política. A maior quantidade de terrenos ali preservados até então, com matas e águas ainda intocáveis, somando 3,6 milhões de m2 (quase o dobro do Parque das Mangabeiras, a maior área verde de BH), pertencia à antiga Granja Werneck e à Mata do Sanatório. Ambas, desde o início do século passado, de propriedade do médico Hugo Werneck, o patriarca da família, fundador da Faculdade de Medicina, do Banco da Lavoura, do jornal Estado de Minas e do Automóvel Clube, além da primeira Câmara Municipal da capital mineira, que ele também presidiu.

Isidoro

Método perverso do fato consumado na Operação Urbana Isidoro, na capital mineira: primeiro colocam fogo, depois retiram a madeira e, sem mais natureza, promovem a posse ilegal

Detalhe ecológico: pai do ambientalista de mesmo nome, fundador do Centro para a Conservação da Natureza em Minas Gerais, a primeira ONG verde criada na América Latina, quando o mundo ainda não falava em meio ambiente e desenvolvimento.

É o “doutor Hugo”, que todos nós conhecemos, a quem a Revista Ecológico é dedicada in memoriam em todas as luas cheias, quando ela é distribuída.

Detalhe histórico: ele próprio, aos 89 anos e no leito do hospital, foi quem assinou o contrato do empreendimento, passo fundamental para a implantação da Operação Urbana Isidoro.

Hugo Werneck também havia sido convencido pelos seus filhos que, diante da escalada da degradação ao redor, essa era a única forma de proteger e dar uma destinação sustentável, também econômica e social, à natureza que sua família preservou ali durante mais de um século. Ele morreu uma semana depois.

 

ESPERANÇA

Granja Werneck

O Projeto Isidoro de ocupação sustentável, na ordem inacreditável de dois metros quadrados de área verde por cada metro quadrado de área construída, que também traz a assinatura do arquiteto e urbanista Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e com renome internacional, ainda pode virar realidade em grande parte da sua idealização original. Desde que não aconteça com Kalil e o governador Fernando Pimentel, o que tanto frustrou Lacerda: a falta de coragem política dos ex-governadores Antonio Anastasia e Alberto Pinto Coelho para autorizar e executar, quando puderam, a reintegração de posse dos terrenos públicos e particulares ainda vítimas ali do processo continuado de devastação e ocupação ilegais.

incêndio na mata do Isidoro

Os incêndios criminosos já tingem a Mata do Sanatório, onde os Werneck, pai e filho, sonharam uma história de amor e ecologia social - Imagem: Fernanda Mann

Tanto a reintegração quanto a invasão, ambas foram sabotadas e orquestradas por razões ideológicas. E pior, principalmente por gente de fora, incluindo intelectuais, o que acabou tirando o direito dos verdadeiros “sem teto” de terem uma oportunidade real de vida melhor. A maioria dos invasores, e isso é de conhecimento público, tem carros e domicílios fixos, com CEP e tudo em Santa Luzia. Razão por que, neste município vizinho, eles foram expulsos e não reclamaram, pela própria prefeitura, no mandado do ex-prefeito Carlos Calixto. 

O próprio Lula, em visita ano passado à região, em vez de presidir e propor uma solução sustentável, incentivou os invasores do Isidoro a subirem mais seus muros e barracos para inviabilizar o projeto em curso. Mas, ao mesmo tempo, também lhes prometeu: “Tenho certeza de que o governador Pimentel vai achar uma saída para vocês”. Essa esperança parece estar acontecendo agora.

A exemplo de Pimentel, que fez um bom trabalho na área ambiental quando na Prefeitura de BH - a ponto de ter empossado o próprio Hugo Werneck como presidente da Fundação Zoo-Botânica em sua gestão como vice do prefeito Célio de Castro - Kalil também estaria mudando seu olhar para a situação.

Se antes o novo prefeito era totalmente contra o processo de reintegração de posse em toda a área original do projeto, agora ele também busca uma solução compartilhada, inclusive junto à Construtora Direcional, que faz e é parte interessada na sonhada operação urbana.

Kalil estaria também participando de uma nova e possível formulação com o governo estadual, incluindo a possibilidade de justa troca de terrenos para os “sem-teto” verdadeiros.

Família de Hugo Werneck

A Revista Ecológico tem tentado falar com ele. Extra-oficialmente, o que se sabe, e é bom pra todo mundo, é que a “maior tristeza” de Lacerda pode virar a “maior alegria” tanto de Kalil quanto de Pimentel. Virar uma solução social, econômica e ambiental, que é o outro nome da sustentabilidade, não à toa, uma das 10 palavras mais acessadas hoje na rede mundial de computadores.

Uma fonte próxima a Kalil e à família Werneck garantiu que, “se antes só havia escuridão no final desse túnel, agora pelo menos já existe um ponto de luz, uma nova esperança no horizonte”.

Que ela seja bela e urgente. Em nome da lei!

 

Para saber tudo sobre o Projeto de Operação Urbana Isidoro, acesse: goo.gl/K5NI0n. Leia também o dramático desabafo da família do mais histórico e amado ambientalista brasileiro, que pede justiça e apoio ao Governo de Minas, acessando: goo.gl/XXk1dI


2 – INSTITUTO HILTON ROCHA

Hilton Rocha

Manter como estão, e sua polêmica história de invasão do patrimônio histórico-natural, as ruínas degradantes do ex-Instituto Hilton Rocha, no sopé da Serra do Curral? Ou permitir a construção sustentável, no mesmo lugar, pela Oncomed, de um moderno hospital de câncer para a população da capital, que os moradores vizinhos e o Ministério Público não querem que aconteçam?

Eis a outra “pedreira”, também de interesses difusos, para a administração Alexandre Kalil enfrentar e resolver, coisa que seus últimos antecessores na cadeira de prefeito de Belo Horizonte correram léguas para não se comprometer nem resolver.

A posição da Ecológico, que acompanha esse debate desde o seu início, com a morte do médico e humanista Hilton Rocha, é a mesma defendida pela ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, eleita pela Revista Times como uma das 50 personalidades globais capazes de influenciar a maneira de pensar da humanidade e mudar o seu futuro cada vez mais sombrio sobre o planeta:

“Não nos cabe mais discutir o que se deve ou não fazer com a natureza e o meio ambiente que nos restam. Mas como fazê-lo de maneira sustentável, pensando maior e nas gerações futuras”.

O detalhe inovador agora, que pode ser o fiel da balança, chama-se (coincidentemente, no sobrenome) Mário Werneck, o novo secretário municipal de Meio Ambiente de Kalil.

Enquanto presidente da Comissão de Meio Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Minas Gerais, e até ser convidado por Kalil, ele sempre se posicionou ao lado da proposta do hospital prometido pela Oncomed. Ou seja, de acrescentar mais 220 novos leitos à rede hospitalar do município, com capacidade para atender 13 mil internações/ano, além da realização de 180 mil exames e 65 mil atendimentos ambulatoriais em oncologia, oftalmologia e cardiologia.

Nesta polêmica, acrescente-se as estimativas do Instituto Nacional do Câncer de que, até o final do ano, estão previstos quase 10 mil novos casos de câncer somente na capital, somando-se todas as neoplasias. E a declaração pública feita por Mário Werneck, no final do ano passado, antes de sua nomeação, durante passeata de protesto e abraço simbólico de pacientes e ex-pacientes da Oncomed ao redor do antigo hospital:

“Só quem teve ou tem uma pessoa próxima acometida de câncer, seja rico ou pobre, sabe como essa doença é terrível e precisa de um tratamento diferenciado, humanizado e de ponta”. E concluiu: “Não é à tôa que estamos aqui, no pé desta serra, lutando pela construção do hospital que, me parece, incomoda o alto padrão da vizinhança que o repudia”, conclamou Mário.

A Revista Ecológico tentou, mas não conseguiu retorno do secretário.

Saiba mais
goo.gl/Tqcshw


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Os desafios de Kalil

 


 

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