Sexta, 03 de fevereiro de 2017

"A educação é revolucionária"

Presidente-executivo da Fundação Dom Cabral, Antonio Batista da Silva Junior, fala sobre o ensino no Brasil

Bia Fonte Nova - redacao@revistaecologico.com.br



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Antonio Batista, presidente-executivo da FDC:

Antonio Batista, presidente-executivo da FDC: "O Brasil nunca precisou tanto de bons professores e líderes"

O recente almoço-palestra promovido pela Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE Minas), no auditório da Fiemg, em Belo Horizonte, teve como convidado o atual presidente-executivo da Fundação Dom Cabral (FDC), Antonio Batista da Silva Junior.

À frente da melhor escola de negócios da América Latina, ele falou sobre os “Desafios do líder no contexto atual” e frisou que a educação é ferramenta essencial para transformar a sociedade, rumo a um mundo melhor para todos.

Otimista, ele lembrou que a atual crise brasileira somente será superada com a emergência de novas lideranças.

Confira, a seguir, os principais destaques de sua apresentação:

Coração da atividade

Tenho muito orgulho de pertencer à Fundação Dom Cabral (FDC), instituição na qual estou há 27 anos e que, felizmente, tem valores muito próximos aos da ADCE Minas. Sobretudo no que se refere à ética e ao sentido de utilidade pública, uma vez que ambas têm a sociedade como o coração da sua atividade.”

 

40 anos da FDC

“O convite para que eu assumisse a presidência-executiva partiu do professor Emerson de Almeida, nosso fundador, e surgiu no esteio de uma grande reflexão estratégica que fizemos. Afinal, a FDC celebrou 40 anos de existência. É uma data extremamente marcante, que nos incentiva a olhar tanto para trás, para tudo o que construímos, quanto para frente, para os projetos que ainda precisamos construir. Graças a Deus, construímos uma imagem muito boa, em especial no que se refere ao desenvolvimento de executivos, não só em Minas e no Brasil, mas também no exterior.”

 

De pernas para o ar

“Vou compartilhar aqui algumas ideias que constam de nossa reflexão estratégica. Quero começar com uma frase: ‘Estamos vendo o mundo de pernas para o ar’. As transformações são imensas e o mundo não é mais como antigamente. O homem foi muito feliz no processo civilizatório. Conseguiu dominar a natureza interna e externa através da tecnologia: chegou à lua, criou produtos e serviços até então impensáveis.”

“No entanto, ainda nos mostramos intolerantes ao diálogo e pouco abertos ao diferente. Como resultado, temos assistido a vários conflitos ideológicos e étnicos, no Brasil e no restante do mundo. Além do desenvolvimento tecnológico, que faz negócios erodirem e surgirem numa velocidade impressionante, a transformação dos organismos internacionais e o terrorismo são outros fenômenos do mundo contemporâneo.”

 

Desigualdade é desafio

“No Brasil, não é diferente. Vivemos o paradoxo do crescimento/riqueza versus desigualdade. No século 20, registramos uma das maiores taxas de crescimento da história, nos posicionando entre as dez maiores economias mundiais. No entanto, o abismo entre o andar de cima e o de baixo (classes sociais) persiste. O grande desafio de nossa geração é aproximar esses extremos, diminuindo a desigualdade e forjando uma classe média forte. Nenhum país cresce e se desenvolve sem uma classe média forte, atuante como consumidora e politicamente participativa.”

 

Democracia imperfeita

“Somos um país de prós e contras. Temos baixo nível de inovação e de abertura para o mundo exterior: são raríssimas as nossas marcas globais. O setor público, por sua vez, não entrega serviços essenciais, como transporte/mobilidade, saúde, segurança e educação. Temos instituições fortes, uma economia diversificada, mas em termos de infraestrutura ainda há muitas deficiências.”

“Vivemos numa democracia imperfeita. Afinal, no Brasil enfrentamos graves problemas de governança, corrupção, falta de transparência e baixo nível de participação política, fatores que levaram a uma crise de confiança que, por sua vez, decorre de uma crise de liderança.”

“Para se ter uma ideia, segundo uma pesquisa recente, o Exército é a instituição na qual os brasileiros mais confiam. Não tenho nada contra o nosso glorioso Exército, mas não era para ser assim... A classe menos acreditada é a dos políticos, seguida da dos homens de negócios/executivos. Essa percepção dos brasileiros é, sem dúvida, reflexo da crise de liderança que enfrentamos.”

“Essa crise de confiança nas instituições atinge até mesmo a Igreja. Uma realidade que nos leva a fazer uma ampla reflexão sobre ética e a relação entre o público e o privado. Acredito que a crise atual só será superada com a emergência de novas lideranças, e o Brasil, nunca precisou tanto de bons líderes e de bons empreendedores como agora. Somente com líderes fortes, regidos por uma nova ética e com um novo jeito de atuar nas diferentes esferas: empresarial, política, religiosa, social, etc. teremos um país e um mundo melhores.”

 

Agentes do processo

“O empreendedor é um sujeito que tem duas características básicas. Primeiro, a vontade de fazer algo significativo. Segundo, a coragem de assumir riscos. Na FDC, frisamos sempre que precisamos de executivos que sejam menos escravos da performance e mais agentes do progresso. Gestores capazes de pensar sistematicamente, para além do econômico-financeiro e de maneira sistêmica, considerando não só o crescimento de suas empresas, mas sobretudo o desenvolvimento do país.”

 

Gênio da garrafa

“Nesse contexto, também é importante refletir sobre o papel da educação, das pessoas e das escolas de negócios. Quero lembrar aqui alguns conceitos, como o de capital humano, surgido há cerca de 50 anos, com o norte-americano Gary Becker [1930-2014], ganhador do Prêmio Nobel de Economia. Capital humano são todas as capacidades e habilidades de um indivíduo. E, segundo Becker, a educação é o único caminho que permite às pessoas aumentarem o seu capital humano.”

“Portanto, a educação é revolucionária. Só ela salva, transforma o indivíduo e as corporações. O sujeito é o que ele sabe e conhece. E quando uma pessoa se instrui, ninguém mais toma conta dela. Para mim, o processo de educação e de aprendizagem é como ‘tirar o gênio da garrafa’. Uma vez aberta a garrafa, ele se liberta, é outro a partir daí.”

“Ao longo dos últimos anos, o Brasil registrou avanços importantes no desenvolvimento da educação. Ainda estamos atrasados em vários aspectos, mas a agenda e o foco, sem dúvida, evoluíram. Hoje, considera-se muito mais a qualidade do que a quantidade. Mas o Brasil só colocou 100% das crianças na escola no fim do século 20. Nos anos 1970, quando éramos um país de 90 milhões de habitantes – época em que comecei a frequentar a escola primária –, só 40% das crianças iam para a escola. A Argentina, por exemplo, colocou 100% de suas crianças na escola no fim do século 19.”

 

Capacidade de diálogo

“Mas e no campo da educação executiva: por que as empresas procuram as escolas de negócios? Na FDC, treinamos cerca de 35 mil executivos brasileiros e estrangeiros por ano. Elaboramos cerca de 300 programas customizados e temos 600 empresas de médio porte associadas ao Programa Paex [Parceiros para a Excelência, voltado para o aumento da competitividade e dos resultados]. O primeiro motivo que leva as empresas a nos procurarem é o interesse em melhorar seus resultados financeiros. Nesse exato momento, temos 300 professores espalhados pelo Brasil, ajudando as empresas em sua gestão econômica.”

“Em segundo lugar, as empresas buscam a FDC para desenvolver seus líderes. Querem ter em suas equipes executivos que sejam cada vez mais capazes de pensar para além do próprio umbigo, de olhar para fora e para frente e, se preciso, de inventar o futuro.”

 

Novas ideias

“É importante estar atento aos novos paradigmas que estão surgindo, fazendo com que as empresas e as corporações revejam, por exemplo, o conceito de resultado. O resultado financeiro continua sendo vital, ele é o oxigênio das empresas. Mas a forma como elas o alcançam está mudando. Ele não está mais centrado apenas na produtividade e na eficiência do trabalho, está em outros meios e em outros valores.”

“O resultado financeiro foi o mantra dos anos 1980/1990, quando Michael Porter [professor da Universidade de Harvard e um dos maiores especialistas mundiais em estratégias de competitividade] nos ensinou que quanto mais robusta fosse a estratégia de uma empresa, maior seria a sua lucratividade frente ao concorrente. Essa era a máxima de Porter.”

“Mas será que o conceito de resultado financeiro mudou por que cansamos de medir o desempenho das empresas por EVA [valor econômico agregado], por VLP [valor presente líquido] e por Ebitda [lucro antes do pagamento de impostos, juros e depreciações]? Claro que não. Mudou porque novas ideias e conceitos surgiram no mundo.”

 

Novos conceitos

“Hoje, está claro que o conceito de resultado tem que se transformar de financeiro para sustentável. Ou seja, o que determina a performance da empresa não é o resultado financeiro em si, mas também a sua capacidade de se sustentar no mercado. Não adianta só ter lucro; é preciso demonstrar respeito, ter transparência e abertura para dialogar com a sociedade e com todos os seus stakeholders [diferentes públicos de interesse].”

“Na prática, isso envolve uma série de outras variáveis, entre elas o conceito de reputação. Afinal, o capital reputacional é tão importante quanto o capital produtivo/financeiro. Reputação é sinônimo de respeito, da credibilidade que uma organização carrega.”

“Outra variável importantíssima é o conceito de resiliência. Todos sabemos que problemas sempre vão acontecer, seja com produtos, serviços ou no relacionamento com clientes. Cabe às empresas se perguntarem qual é a sua capacidade de enfrentar desafios, de se adaptar e de promover as transformações necessárias para superar as crises e os momentos difíceis.”

Dispersão do poder

“Quero citar também alguns fenômenos que estão ocorrendo em escala mundial e impactando de forma direta a vida das pessoas e das organizações. O primeiro é a dispersão do poder. Antigamente, ele estava concentrado na propriedade dos fatores de produção, no capital físico, no capital financeiro e na terra. Com tempo, ele migrou para outros lugares. Hoje, o poder está nas mãos da sociedade, das ONGs, do cidadão comum.”

Conceito de justiça

“Outra mudança importante que está ocorrendo é na esfera das ideias. Uma delas é o novo conceito de justiça. Justiça, aliás, é o curso mais famoso em Harvard, capitaneado pelo professor de filosofia política Michael Sandel, que escreveu o livro “Justiça – o que é fazer a coisa certa.”

“No Brasil, observamos que com a urbanização crescente, sobretudo a partir dos anos 1970, esse conceito de justiça, do que é certo ou errado, se tornou mais evidente. Afinal, as pessoas estão mais próximas e, portanto, suas atitudes e comportamentos mais visíveis e suscetíveis ao julgamento alheio.”

 

Conceito de compartilhamento

“Outra ideia que vem ganhando força em todo o mundo é o compartilhamento. Graças a ele, vemos prosperar novos negócios, como o serviço de transporte do Uber, e sites como o AirBnb, rede online de aluguel de quartos e imóveis por temporada.”

“Por fim, quero destacar a importância dos avanços no campo da tecnologia. Tecnologia, hoje, é sinônimo de transparência, de acesso, de escala e de velocidade. Por meio dela, as pessoas fiscalizam tudo, o tempo inteiro. Basta lembrar o recente caso do nadador norte-americano [Ryan Lochte, durante as Olimpíadas do Rio]. A reação à mentira deles comprova a força desses novos conceitos que citei aqui: a dispersão do poder, a importância da tecnologia, etc.”

“Depois de uma noitada com amigos, Lochte foi pego na mentira pela tecnologia e pelo poder que se deslocou para as mãos do cidadão comum. Como resultado do flagra, sua performance deixou de ser medida apenas por sua eficiência em cair na piscina e bater recordes. Ele perdeu contratos milionários e seu capital reputacional agora, com certeza, pesa mais do que as suas habilidades e capacidades físicas.”

 

Papel dos CEOs

“Voltando à questão dos bons líderes, acredito que os presidentes, CEOs e principais dirigentes de uma empresa têm três papeis fundamentais. O primeiro é entregar resultados, como expliquei, em seu sentido mais amplo. O segundo é equilibrar interesses diversos, tanto internos quanto externos. O terceiro papel vital para os CEOs – e cada dia mais visado pelas pessoas – é o compromisso de construir e de deixar um legado. Tanto para a sua corporação, quanto para a sua família e a sociedade. Cabe a eles mobilizarem toda a sua capacidade e recursos disponíveis para isso.”

“Na FDC, por exemplo, estou liderando uma iniciativa chamada “The CEO Legacy”, que deverá ser lançada em março do ano que vem. Queremos reunir cerca de 30 dirigentes de empresas brasileiras e multinacionais, com o propósito de ajudar no desenvolvimento do Brasil e do mundo. A ideia é criar um ambiente de transformação que proporcione aos CEOs um espaço para refletirem e trocarem experiências capazes de fazer a diferença em suas vidas e também nos negócios.”

 

Ser relevante

“Na FDC, o fato de termos o olhar voltado para o futuro nos impõe vários desafios. Um deles é enfrentar o paradoxo do novo: queremos diversificar ainda mais o leque de soluções educacionais inovadoras. Estamos fazendo um experimento com o Watson – super computador cognitivo da IBM – para levar inteligência artificial para a sala de aula. Ele está sendo colocado primeiro como aluno e, no futuro, queremos que ele atue como professor.”

“O segundo desafio é sermos cada dia mais uma escola internacional. Não a cópia pálida de uma grande escola norte-americana ou europeia. Mas uma escola mineira e brasileira de padrão global. Nesse sentido, temos parcerias importantes, como a firmada com uma escola francesa, por meio da qual temos trazido 200 alunos por ano para BH. Nossa meta é chegar a 1 mil alunos anualmente.”

“Nosso terceiro desafio é ser protagonistas em temas de interesse da sociedade. Afinal, desde a sua criação, em 1976, a FDC é reconhecida por sua forte presença no campo da gestão empresarial e também por seu compromisso de atender as demandas da sociedade. Esse compromisso está, inclusive, estampado no desenho e no slogan da nossa nova logomarca: ser relevante.”

“A FDC quer seguir crescendo e evoluindo, alinhada com os melhores valores éticos, atenta às necessidades do empresariado por inovação e eficiência e sempre pronta a superar desafios. Apesar do momento conturbado vivido pelo país, vislumbramos o futuro com otimismo. Temos plena convicção da potencialidade que tanto o Brasil quanto os brasileiros têm.”

“Somos um país que já deu certo. O Brasil de hoje é bem melhor do aquele em que meus pais viveram e, seguramente, será ainda melhor para os meus filhos e netos. Nós, da FDC, estamos empenhados em fazer a nossa parte. É nisso que acreditamos.”

 


Quem é ele

Mineiro de Belo Horizonte, Antonio Batista da Silva Junior, 53 anos, tomou posse no começo deste ano. Ele substituiu Wagner Furtado Veloso, que passou a integrar o Conselho Curador da FDC. Doutor em administração de empresas e especialista em Business Policy pelo Insead (França), Batista atuou como diretor-executivo de Programas Customizados, professor de Estratégia Competitiva e Alianças Estratégicas e em projetos de desenvolvimento organizacional. Pelo 11º ano consecutivo, a FDC foi eleita a melhor escola de negócios da América Latina, segundo o ranking de educação executiva 2016 do jornal britânico Financial Times. Ela ocupa, ainda, o 17º lugar no ranking geral, que classifica as melhores escolas de negócios de todo o mundo. É casado e tem dois filhos.

 


Saiba mais

www.fdc.org.br

www.adcemg.org.br 

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