Sexta, 10 de fevereiro de 2017

Trump Bin Laden Bush?

Novo presidente dos Estados Unidos promete “erradicar o terrorismo da face da Terra”, mas se recusa a avançar na resposta às mudanças do clima. Qual terror, afinal, nos aguarda?

Vinícius Carvalho - redacao@revistaecologico.com.br



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O ano é 2030, avisa a Organização Mundial de Saúde (OMS). A cada duas horas, o número de mortes adicionais provocadas por doenças associadas à mudança do clima superará todos os assassinatos reivindicados até hoje pelo Estado Islâmico fora do Iraque e da Síria. O equivalente, em mortes, a 83 atentados às Torres Gêmeas por ano. Ou ainda a 13 ataques diários como os detonados pela Al Qaeda no metrô e nas ruas de Londres em 2005.

Pode não parecer terror para Trump, cujo país despeja mais de 20 toneladas de carbono por segundo na atmosfera da Terra. Mas certamente é para parte da população mundial que assiste, atônita, ao líder da segunda nação mais poluidora do mundo dar de ombros para o aquecimento global.

Só no dia da posse, Trump mandou retirar todas as menções à “mudança do clima” que constavam do site da Casa Branca. Anunciou o fim do “Plano de Mudança Climática” do ex-presidente Barack Obama, prometeu flexibilizar a legislação de recursos hídricos do país e previu 30 bilhões de dólares adicionais em salários para os americanos com a retirada de regulações ambientais “desnecessárias”.

Anunciado com pompa, o plano é baratear a energia nos Estados Unidos suspendendo regulações ambientais e liberando terras públicas para novos negócios em petróleo, carvão e gás. Com isso, Trump espera “destapar” parte dos US$ 50 trilhões em recursos naturais ainda não explorados no país, gerar um crescimento rápido de 4% ao ano - ainda que sujo - e amealhar royalties suficientes para financiar o superplano de US$ 1 trilhão de dólares em infraestrutura que prometeu durante a campanha.

Tudo sob o mesmo pretexto – e lance de marketing - de todos os falcões americanos desde Richard Nixon: a promessa de uma América autossuficiente em energia e livre da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Quais as opções de Trump? Como o mundo reagirá? E quem liderará, nos Estados Unidos, a resistência? É o que a Revista Ecológico pergunta nesta reportagem especial dedicada a um outro sonho americano possível.

A saída dos EUA do  Acordo do Clima de Paris

A Convenção sobre a Mudança do Clima é o espaço no qual os países associados à ONU definem compromissos conjuntos para responder às mudanças climáticas. No penúltimo encontro, realizado em Paris, chegou-se ao maior acordo já conseguido até aqui: 197 países – incluindo os EUA – se comprometeram a manter o aumento da temperatura média global em menos de 2°C, acima dos níveis pré-industriais, até 2100.

A parte dos EUA no acordo inclui corte de emissões da ordem de 28% até 2025 e apoio em dinheiro para países menos desenvolvidos se adaptarem à mudança climática. O acordo enfureceu Trump, que já classificou o “conceito de aquecimento global” como um “embuste perpetrado pela China para tornar as manufaturas americanas não competitivas”.

O que pode acontecer?

Trump tem, pelo menos, três opções. A primeira, e mais improvável, é permanecer no Acordo assumindo as metas de Obama. A segunda é oficializar a saída definitiva dos Estados Unidos, o que demandará votação no Congresso e amplo desgaste internacional. E a terceira, e mais provável opção, será fazer um pouco dos dois: manter-se formalmente no Acordo para não ceder espaço à China, mas sem se mover para reduzir as emissões nos Estados Unidos.

 

“Vamos procurar amizade e boa vontade com as nações do mundo - mas vamos fazer isso com o entendimento de que é o direito de todas as nações colocar seus próprios interesses em primeiro lugar.”

 

O fim do Plano de Energia Limpa

Apresentado por Obama como “o mais importante passo que os EUA já deram para combater a mudança climática”, o Plano de Energia Limpa dos Estados Unidos foi lançado em 2015 com a promessa de reduzir em 32% as emissões de 3.100 usinas de geração elétrica do país movidas a carvão, petróleo e gás natural.

A meta ridicularizada por Trump prevê a redução de emissões da ordem de 870 milhões de toneladas de carbono, 318 mil toneladas de dióxido sulfúrico e 282 mil toneladas de dióxido de nitrogênio pelos Estados Unidos até 2030. Emissão anual equivalente à de 166 milhões de carros ou 70% de toda a frota americana.

O que pode acontecer?

O imbróglio deve ser decidido pela Suprema Corte, onde já correm 24 processos movidos pela indústria fóssil e por estados americanos contra a medida. Mas Trump pode protelar a implementação do plano mesmo que a justiça vote a favor das restrições. É que eventuais disputas judiciais entre estados e União  só devem começar a valer após o fim do prazo para os estados começarem a implementar suas metas. Nesta data, em 2022, Trump só estará na Casa Branca se eleito para um segundo mandato.

 

“O problema com o conceito de aquecimento global é que os Estados Unidos gastam uma fortuna para consertá-lo, enquanto a China e outros países não fazem nada.”

 

A exploração de terras públicas protegidas

A plataforma energética de Trump envolve também a abertura de terras públicas americanas para a exploração de combustíveis fósseis. Segundo define seu novo plano de energia, a meta é “destapar” parte dos U$ 50 trilhões em recursos naturais ainda não explorados nos Estados Unidos por meio da retirada de restrições em áreas protegidas.

Um dos empreendimentos mais polêmicos é o oleoduto Keystone XL, que promete reduzir em 40% a dependência energética americana da Venezuela e do Oriente Médio. Com capacidade para transportar 830 mil barris de petróleo por dia, o oleoduto de 1.897 quilômetros pretende ligar o estado de Alberta, no Canadá, às refinarias do Golfo do México, no sul dos EUA. Em novembro de 2015, depois de várias consultas, o Departamento de Estado concluiu que o projeto “não servia ao interesse nacional dos EUA”.

Já o Gasoduto Dakota Access, de 1.886 quilômetros, serviria para transportar o petróleo das reservas da Dakota do Norte até o estado do Illinois. O percurso atravessa o lago Oahe e territórios já demarcados de tribos indígenas Sioux, que se queixaram do impacto da construção para o seu sistema de distribuição de água e da destruição de sítios arqueológicos considerados sagrados pelos povos nativos.

O que pode acontecer?

Trump já emitiu memorandos para acelerar a aprovação de ambos os projetos. Um avanço mais radical sobre o território americano, contudo, dependerá de revisão da chamada Roadless Rule. Promovida por Bill Clinton em 2001, a legislação colocou 58 milhões de acres de florestas nacionais fora do alcance da mineração. Trump quer também eliminar a chamada “Regra dos EUA para as Águas”, ato que regulamenta a Lei Nacional de Águas e os níveis aceitáveis de emissão de nitrogênio em zonas hídricas consideradas prioritárias pelos Estados Unidos. Neste caso, a flexibilização beneficiaria também o agronegócio.

“Precisamos tirar vantagem dos US$ 50 trilhões estimados em reservas inexploradas de xisto, petróleo e gás natural, especialmente nas terras federais que o povo americano possui.”

 

A redução de investimentos para o monitoramento do clima

Limitar pesquisas climáticas que fornecem base científica para a comprovação da mudança do clima é um sonho antigo dos aliados de Trump. Um dos primeiros alvos deve ser a Divisão de Ciência da Terra da NASA, uma das maiores fornecedoras de dados para os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) sobre fenômenos como o derretimento das calotas polares, a acidificação dos oceanos e a escalada das temperaturas na Terra. 

A rede de satélites de agência espacial americana é reconhecida pela comunidade científica internacional como uma das principais fontes de dados que ajudam a monitorar e analisar os efeitos da atividade humana no clima global. Entre esses programas está a missão Gravity Recovery and Climate Experiment, que consiste em dois novos satélites que devem ser lançados entre 2017 e 2018 para estudar como o planeta está reagindo às mudanças climáticas.

O que pode acontecer?

Trump já indicou que pode eliminar as pesquisas da Nasa sobre o clima global em favor da exploração do espaço profundo. A medida provavelmente levaria à transferência da maior parte dos dois bilhões de dólares previstos no orçamento da Divisão de Ciência da Terra para a Divisão de Exploração Espacial, que inclui missões como a ida a Marte e o envio de sondas para além do Sistema Solar.

 


Quem é ele

Nascido em 14 de junho de 1946 no bairro nova-iorquino do Queens, Donald Trump é o segundo dos cinco filhos de Fred Trump, um empresário imobiliário de origem alemã, e Mary MacLeod, uma imigrante escocesa. Enviado na adolescência a uma escola militar, formou-se em Economia na Universidade da Pensilvânia e tornou-se o favorito do pai para sucedê-lo no comando da empresa Elisabeth Trump & Son, dedicada ao aluguel de imóveis de classe média nos bairros nova-iorquinos de Brooklyn, Queens e Staten Island.

Trump assumiu as rédeas da companhia em 1971, rebatizada como Organizações Trump, e levou os negócios da família para Manhattan. Enquanto o pai construía casas para a classe média, ele optou por torres luxuosas, hotéis, casinos e campos de golfe.

Já nos anos 1980, tinha em construção empreendimentos como a Trump Tower, o Trump Plaza e cassinos em Atlantic City. Comprou também os direitos dos concursos Miss USA, Miss Universo e Miss Teen. Mas se notabilizou mesmo nos EUA ao apresentar o reality show “O Aprendiz”. Em 2016, a revista Forbes classificou Trump como a 324ª pessoa mais rica do mundo e a 113ª nos Estados Unidos, com um patrimônio líquido de 4,5 bilhões de dólares.

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A resistência

Marcha contra Trump em Washington: a maior parte da população quer que os EUA apoiem o Acordo do Clima

Protesto contra Donald Trump

As mesmas avenidas de Washington que Donald Trump não conseguiu encher na data de sua posse foram tomadas, no dia seguinte, por centenas de milhares de pessoas insatisfeitas com o novo ocupante da Casa Branca. Mais de meio milhão de manifestantes, segundo os organizadores, marcharam por Washington D.C.: o maior protesto a um presidente recém-empossado já realizado na histórica americana.

Nova York, Chicago, Boston e Atlanta uniram-se à marcha contra a agenda ultraconservadora de Trump, que também teve atos em cidades como Berlim, Londres, Sydney e Cidade do Cabo. “A luta para salvar o planeta, interromper as mudanças climáticas, para garantir acesso a água das terras do Standing Rock Sioux, à Flint, Michigan, a Cisjordânia e Gaza. A luta para salvar nossa flora e fauna, para salvar o ar – este é o ponto zero da luta por justiça social”, discursou uma das líderes do movimento, a ativista Angela Davis.

O grupo aposta, para a luta, na própria sociedade americana. Segundo pesquisa realizada pela Universidade de Yale no início deste ano, sete em cada dez americanos disseram que a mudança climática está ocorrendo, contra apenas 13% que dizem que ela não é real. Além disso, a maior parte dos americanos - 69% - diz que os EUA deveriam apoiar o Acordo do Clima de Paris.

O Greenpeace fez um dos protestos mais contundentes até aqui, após colocar uma enorme faixa com a palavra “Resist” numa grua a poucos quarteirões da Casa Branca. Segundo Karen Topakian, uma das diretoras da organização ambientalista, “as pessoas deste país estão prontas para resistir e para se erguer de uma forma como nunca fizeram antes”. 

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