Sexta, 10 de fevereiro de 2017

A ecologia educacional de Darcy Ribeiro

A poética intelectual do antropólogo que mostrou ao mundo um Brasil miscigenado, culturalmente rico e verde por natureza

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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“Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que me comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas.”

Foi assim que o próprio Darcy Ribeiro, antropólogo mineiro, nascido no Cerrado exuberante da Montes Claros de 1922, se autodefiniu. Na vida carnal, foi muitos. De escritor a político, de marido a senador, não teve filhos. Talvez por isso, e pensando naqueles que nascem a cada minuto neste Brasil verde e amarelo, mudou a cara da educação no país, desenvolvendo projetos pedagógicos, sociais e estimulando a criação de melhores escolas e instituições de ensino.

Inquieto como todo intelectual que busca transformar o mundo em um lugar melhor, fez da causa ecológica uma missão. Morou anos na Amazônia, defendeu os índios, foi exilado. De volta ao Brasil, foi adotado pela cidade do Rio de Janeiro, onde se elegeu vice-governador e senador. Falecido em 1997, em decorrência de um câncer, foi imortalizado. Para os índios, ficou na memória. Dos livros, textos e palavras, deixou a lição de que o Brasil tem vocação para terra abençoada. É o que a Revista Ecológico, a fim de rememorar sua obra e seus pensamentos, 20 anos após sua partida, apresenta a seguir:

  Brasil

“O Brasil é a melhor província e o melhor povo do mundo para se fazer um país. Mas é muito difícil. É muito fácil fazer uma Austrália. Basta caçar uns ingleses e holandeses, jogar no mato e mandar matar os índios e pedir que repitam a paisagem inglesa. No caso do Brasil, não. É a partir de seis milhões de índios desfeitos, 12 milhões de negros desafricanizados e de uns poucos milhares de portugueses que se refaz um povo, um gênero novo de gente que nunca existiu. (...) E ainda não encontrou o seu destino.”  

“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros.”

“O Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às
classes empresariais.”  

  Deus

“Deus é minucioso. A obra dele é acabada, perfeita. As criaturas mais reles desse mundo, como os cupins, são maravilhas da perfeição. Cada partezinha articulada com as outras, todas compondo um bicho completo, perfeito, capaz até de se refazer, multiplicado. Se em tudo Deus foi assim tão detalhado, que dirá na criatura preferida, racional, criada assim perfeita para louvar o Criador? Somos a perfeição das perfeições.”  

“Assim Deus nos fez para sofrer e durar, pecar e purgar. Matéria mais dura que o mais duro ferro é o nosso ser. Minha carne apodrecível, quando se liquefaz e escorre, deixando uma cinza de ossos para durar e depois se acabar, não está finando não. Está é parindo minha alma, livre, afinal, para durar eternamente.”

  Alma

“Espero em Deus é que a alma dure sem doer dores da carne, nem angústias do espírito. Chega já de achaques de peito podre e pesadelos de espírito desvairado.”

“O que importa não é o corpo corrupto, corruptível, é a alma. Esbugalhado ou não, vou apodrecer para liberar meu outro eu, espiritual, minha alma eterna. Nela serei outro. Não como os outros eus que fui. Ela é o outro que me habita. Sou sua morada, onde ela cresceu, envelheceu, amadureceu, como um parasita. A alma é um bicho-de-pé que habita nosso corpo? Não, é ela que, eterna, me dá continuidade.”

“Nela permaneci sempre eu, não igual, porque vim acumulando as experiências dos eus que fui: aprimorando, me aperfeiçoando. A alma é aço fino, inoxidável. Incorruptível.”

“Alma é a roupa que a gente veste, que nos protege e com a gente padece. Quando resta, no fim, é a gente mesmo, resumida.”

Frases de Darcy Ribeiro

  Indignação

“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

  Mulo

“Mulo até que não é nome ruim demais, ou não seria, se não fosse por essa qualidade de bicho estéril que também é minha. O mulo animal, cria de égua com jumento, ou de jegue com cavala, é bicho enxuto de carnes, de pouco luxo no comer, duro no trabalho, bom.”

  SilÊncio

“Meu mundo é silêncio. Quando desligo o rádio e volto ao natural, o que fica é o silêncio. Tão silencioso que ouço o pio de uma saracura a meia-légua, piando. Meu ouvido fino nesse silêncio ouve o vento zunindo na copa das jaqueiras ou das mangueiras, conforme vente do nascente ou do poente. Se, por um instante, tudo cala, o silêncio grita. Aí durmo.”

  Chuvas

“Nessas alturas planas, suspensas, de ares leves, apenas sobrevivo. Às vezes, a chuva exagera e chove dias sem parar. Às vezes, são as ventanias que ventam sem sossego. Às vezes, caem raios, dia e noite, como se o mundo fosse acabar. Os aguaceiros, as ventanias e as tempestades me atormentam demais. Eu me sinto um inseto, sem ar, no meio de um mundo aguado, ventoso, desatinado. Só não me entrego ao desespero porque não é de homem desandar.”  

  Viajar

“Viajar montado, com tropa própria, é ver tudo lá de cima. É reger os homens, os bichos, as coisas. É ter o mundo submisso. Meu mundo viajei, tropeiro comandei, montado firma na besta e mais firma na vida. Ô estradas tantas deste mundo que já não verei. Caminhos de terra, na seca são regos de pó, poeirentos. Nas águas, lodosos passos de barro mole, atoleiros. Rios de gente caminhante, cortando retos as planuras do Cerrado ou subindo tortos, íngremes morrarias de pedrais.”  

“Estradas do meu mundo, terrosas, batidas de tanto andar por elas. Viajar é trotar pelos poeirais, nas secas; pelos lodaçais, nas águas. Viajar estradeiro, no meio dos homens, que encabeçam cada lote de tropa, é viver vivendo vendo viver, convivendo. Não se pode é parar. Parei. A estrada que tenho agora, diante de mim, é só do retorno, por palavras, aos idos meus que não estão mais nesse mundo. Estão só no meu peito.”

  Autorretrato

“Obras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com a minha marca nos mundos que passei, enquanto passava: um sambódromo, um parque indígena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muitíssimas escolas, algumas universidades. Não é pouco, quisera mais. Muito mais. Sou um homem de fazimentos.”  

“Eu não sou ruim nem bom. Não nego que exista gente melhor que eu. Conheci alguns. Digo é que esse mundo de Deus não é dos bons, nem pode ser. Um mundo cheio de compaixão pelos fracos seria um mundo fraco. Um mundo com muita atenção com os tristes e desenganados seria um mundo triste, no máximo resignado.”

“Por minha mão o mundo melhorou. Por onde passei ficou o sinal do trabalho de um homem. Aí é que está onde e no que tenho de ser julgado.”

   Igreja

“Qual é a minha igreja? Acho que é o fazimento do mundo. É continuar brigando pro mundo funcionar. É cair feito doido em cima dos outros, para ajudarem o mundo a se erguer.”

  Mundo

“O mundo é como é: lugar de briga. Assim é, e a gente que cai nele nua e desamparada que nem eu, então, o que tem de fazer não são bondades. É o que for preciso pra sair da lama. Os donos da vida que nem eu, agora, podiam, talvez, mudar as regras do mundo pra fazer dele um paraíso geral.”  

  Água

“Muita água minha foi dar no Velho Chico, buscando mais água em que se dissolver, purificar. Outras sujas águas daquelas minhas, descendo o Tocantins, foram ferver na boca do Amazonas, lá por Belém do Pará. Só lá, no maior agual do mundo, repousaram.”  

  Homem

“Coitado do homem que tem pena de si mesmo. Eu não. Tenho é ressentimento. Amargura. Infelicidade não é comigo.”  

  Memória

“Meu viver é essa especula. Rememorar. Reviver, de coração pesado em palpitações, ou leve, vibrante, idos da vida vivida.”

“Comi a vida. Agora, rumino meus recordos de curraleiro, carreiro, soldado, muleiro, tropeiro fazendeiro. Tudo isso fui. Hoje, pastoreio essa fazenda da memória.”  

  Envelhecer

“Envelhecer é isso. É ir restringindo o mundo da gente, reduzindo a convivência. É ir-se resumindo até caber, inteiro, dentro da gente mesmo. Quando o recolhimento se completa, só resta morrer, e, enquanto não morrer, viver como eu vivo, pra dentro enrustido. Ruminando idos vividos.”  

  Morte

“A morte bem que podia ser o fim do mundo. Fim total, de não ficar nada. Nem memória do que foi. Nem necessidade de recomeçar. A vida, minha vida, o mundo inteiro teria sido um acaso, um equívoco: sucedeu e acabou. Ninguém soube. Ninguém viu. Não gosto disso não. Preciso saber de um Deus que tenha memória de mim, que saiba ajuizar meus feitos, que cobre minhas contas.”  

“Não pedi para nascer, mas não quero ter sido carrapato à toa, que viveu e morreu ignorado, desprezível. Não pode ser. Somos a flor da criação divina. O espírito há de florir na Glória.” 


Trabalhadores do campo

“Do mundo lá de fora, não sei nada. Suponho que seja igual. Mas desse mundão brasileiro, goiano, mineiro, baiano, sei de sobra. Nele sou mestre. Aqui temos gastado gente sem conta, nos séculos da cristandade. Aqui, civilizamos os índios ou acabamos com eles, pondo fim naquela existência inútil que levavam, à toa, à toa. Também negros sem conta, caçados na África e trazidos para cá, nós metemos no trabalho e gastamos na produção.” 

“Nosso serviço está aí para quem quiser ver? Léguas de matas derrubadas a poder de fogo ou de punho de homem, convertidas em fazendas de lavoura e criatório. Aí está, nossa obra debaixo da luz do sol, para a glória de Deus. O diabo é que mesmo gastando tanta gente, o povo cresce sem parar, se multiplica que é um horror nas fazendas, nas cidades. Para quê?”  

 


Queimadas

Vão do Paraná. A mata florestal maior desse mundo. Saída virgem da mão de Deus. Tanto verde. Um mundo imenso de léguas de mata; da mata mais alta e espessa. Eu fiz aquela mata tremer, urrar, ardendo inteira debaixo do meu fogo, aceso na maior fogueira que jamais se viu.”  

Aquele mundo verde, entroncado, poderoso, aberto em palmas, esgalhado, lá no alto, debaixo do meu fogo escureceu. Acinzentou. De repente, o que vimos foi o ar grosso, recheado de fumaça, estremecer animado como se ganhasse vida. Era o turbilhão de abelhas, marimbondos, cigarras, besouros que rodopiavam enlouquecidos.”

 “Me lembro, corno hoje, o chão do outro lado tremer e remexer fervendo de cobras rastejando em desespero no meio de tatus, tamanduás, caxinguelés desnorteados. Onças de todo pelame saltavam n'água esturrando. Vi, até com pena, um veado atado no chão, querendo fugir sem poder: tinha os pés queimados.”  

Dias e dias, semanas e semanas durou o fogaréu queimando. (...) Por fim, o fogaréu cessou e o mundo morreu. Lá ficou a terra aberta, exposta como uma ferida, debaixo do céu escaldado, arfante. (...) Aquela queimada minha, dissolvida, foi um purgante que dei ao mundo.”

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