Sexta, 10 de fevereiro de 2017

Os desafios de Kalil

Além de devolver a importância política que a secretaria municipal de Meio Ambiente já teve, quando da sua criação, cujo modelo democrático de gestão e legislação avançada já serviu de exemplo para várias capitais do país, Kalil tem cinco “pedreiras” ambientais para resolver

Hiram Firmino e Luciano Lopes redacao@revistaecologico.com.br



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Kalil com seu vice, Paulo Lamac, na Mata do Planalto: 
a hora de implantar soluções para os problemas ambientais 
de BH chegou. Mas elas serão prioridades? - Imagem: Divulgação

Kalil com seu vice, Paulo Lamac, na Mata do Planalto: a hora de implantar soluções para os problemas ambientais de BH chegou. Mas elas serão prioridades? - Imagem: Divulgação

O novo prefeito de BH, Alexandre Kalil, tem uma responsabilidade enorme pela frente. Não será fácil. Mas ele prometeu, a seu jeito: “Meio ambiente é o seguinte: não vamos deixar agredir o que ainda temos de natureza. Temos de cuidar dos parques e jardins, e existe um órgão ambiental (a secretaria verde) que não funciona. Tem gente qualificada lá, é só fazê-la funcionar. O trabalho de sustentabilidade não representa voto, por isso que o meio ambiente que nos resta ainda é tão desconsiderado e maltratado”.

E deu exemplo, com propriedade: “Podemos acabar com a maioria dos problemas de saúde na capital cuidando, preventivamente, do saneamento básico. Evitar doenças, ao invés de tratá-las depois” – ele afirmou na campanha, durante encontro com ambientalistas.

Quais os seus principais desafios, diante da desimportância histórica acumulada tanto pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que pode ser a sua “menina dos olhos”, quanto pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam), a sua “ferramenta política”? Pretende valorizar os dois para consolidar, de maneira sustentável, o desenvolvimento econômico e o crescimento imobiliário com a preservação da pouca natureza que nos resta?

É o que a Revista Ecológico e os ambientalistas históricos da capital mineira sugerem a seguir.

1 - Despoluição da Pampulha

Ano passado, graças ao empenho pessoal do prefeito Marcio Lacerda (leia-se também Leônidas Oliveira, seu presidente da Fundação Municipal de Cultura mantido no cargo por Kalil), o Complexo Arquitetônico da Pampulha recebeu o título de “Patrimônio Cultural da Humanidade” pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). E uma das condições para que a condecoração seja mantida é a despoluição total da Lagoa da Pampulha, que há décadas sofre com línguas de esgoto clandestinas e a poluição de suas margens e águas. Dentro do prazo determinado pela Unesco, o Consórcio Pampulha Viva, que realiza a despoluição, tem de concluir as ações em curso de melhoria da qualidade da água da lagoa. E, depois disso, terá de manter os níveis de purificação durante mais um ano. A Sudecap realiza diariamente a limpeza do espelho d’água da lagoa, com a utilização de dois barcos e uma balsa.

Esta ação terá de ser intensificada pela nova administração, além da adoção de novas soluções de recuperação ambiental, uma vez que o volume médio diário de lixo recolhido ao seu redor é de 10 toneladas durante o período de estiagem e o dobro no período chuvoso.

Poluição da Lagoa da Pampulha

Dez toneladas em média de lixo ainda são retiradas por dia da Lagoa da Pampulha: até quando?Imagem: Tavinho Moura

Cereja do bolo

Desde as administrações e obras somadas de Marília Campos e Carlin Moura à frente da Prefeitura de Contagem, que o córrego Sarandi, principal contribuinte em volume d´água da lagoa, deixou de despejar 80% do esgoto químico, advindo da Cidade Industrial, que chega à Pampulha. Ou seja, só falta ambas as prefeituras captarem e tratarem os 20% restantes de poluição.

Nos últimos dois anos, mesmo atritados, Marcio Lacerda e Fernando Pimentel, leia-se a Copasa, também fizeram um dever de casa impensável e quase completo:  descobrir os despejos clandestinos de esgotos domésticos, tanto ao longo do Sarandi, em Contagem, como às margens dos seis córregos que também caem na Pampulha, em BH. E interligá-los à rede sanitária pública, até seu tratamento na Estação do Onça, antes de encontrar com o Arrudas rumo ao Velho Chico.

A cereja do bolo do atual prefeito é essa: manter e intensificar a parceria com o Estado que, ao longo de quatro anos, pode virar a realidade sonhada pela população. Se Kalil conseguir terminar o Programa Intermunicipal de Despoluição da Lagoa da Pampulha, ele será lembrado como o JK ecológico que a ex-Cidade Jardim ou ex-Paris brasileira ainda não teve.

 

2 - Parque Municipal Lagoa Seca

Em 2015, após quase 50 anos de exploração permitida pela prefeitura nas franjas da Serra do Curral, logo atrás da Vila Acaba Mundo, no Sion, a Mineradora Lagoa Seca solicitou, ao Comam, a renovação da Licença de Operação (LO) até 2012. Uma das condicionantes para a sua concessão foi a criação de um parque ecológico de uso público em toda a área degradada, com cinco milhões de metros quadrados, e que seria o maior da Grande BH. Mais de 10 anos depois, com o fim das atividades da mina a céu aberto, a mineradora não cumpriu o combinado. Ainda conseguiu uma nova licença para continuar operando uma mina subterrânea. E quer que o Comam volte atrás na obrigação legal, como contrapartida ao licenciamento ambiental, de recuperar toda a área degradada e entregar um parque para a população. E, sim, ao contrário, poder implantar um condomínio de luxo, com prédios residenciais e comerciais no local, dentro de um macro projeto de paisagismo via parceria pública privada.

O destino de Kalil é o mesmo e pode reacender uma antiga discussão que Marcio Lacerda não teve a coragem de encarar: a difícil, mas não impossível, tarefa de reunir os proprietários e partes interessadas e efetivamente instituir a criação do adiado parque, consorciado ou não com o setor imobiliário, como um direito natural aos mais de 2,5 milhões de habitantes de BH.

Uma solução fácil, também apontada por Lacerda, não vigorou. Seria simplesmente ligar toda a área a ser recuperada com o restante já preservado da serra. Torná-la um parque natural, sem gastos com edificações, apenas de contemplação. E assim evitar o fluxo maciço de visitantes e seus carros,  vans e ônibus, no já adensado trânsito congestionado da região. Solução ecologicamente correta.

Mineração Lagoa Seca

3 - Complexo Ambiental da Serra do Curral

Outro esperado olhar ambiental de Kalil continua na emblemática Serra do Curral, eleita democraticamente pela população como o cartão-postal natural de BH, fazendo limite com a exuberante quantidade de verde e água de Nova Lima. Daí a importância estratégica da criação do Parque Municipal Lagoa Seca, que fica no meio do caminho, entre os parques Mangabeiras e Paredão da Serra.

Se Kalil conseguir isso, estará irreversivelmente fortalecido outro sonho dos ambientalistas e ex-prefeitos da capital, desde Maurício Campos: a criação de um gigantesco corredor ecológico ao redor de toda a Serra do Curral, protegendo-a de vez, desde o Parque-Mata da Baleia até a sua ligação com o Parque Estadual do Rola Moça. E daí pra frente até a Serra da Calçada, em Moeda, tendo como unidades de conservação (UCs) centrais o Parque das Mangabeiras, as RPPNs do Jambreiro, Vale dos Cristais e Samuel de Paula. Bem como a ligação natural, além do Rola Moça, das estações ecológicas de Tumbá, Cercadinho e Fechos. É de onde são retirados 70% das águas que abastecem a zona sul de BH. Sem falar na maravilhosa e pouco conhecida trilha turística implantada e abandonada pela prefeitura no cimo maravilhoso da serra que tanto chateou Drummond, vide seu poema “Triste Horizonte”.

O primeiro passo para a criação não apenas deste corredor, mas do Complexo Ambiental da Serra do Curral também sonhada por Lacerda, foi dado em dezembro de 2015, com a assinatura de um protocolo de intenções entre as prefeituras de BH e Nova Lima, e o Instituto Estadual de Florestas (IEF), representando o Governo do Estado.

Veio 2016 com as eleições e tudo parou.

 Agora é só chamar o seu colega Vitor Penido e fazer acontecer!

 

4 - Mata do Planalto

Mata do Planalto em Belo Horizonte

O que restou da "intocável" Mata do Planalto: "A Prefeitura tem de mediar uma transferência da obra para outro local", disse Kalil - Imagem: Google Earth

Está aí um dos mais simbólicos desafios ambientais que Kalil herdou: o embate pela preservação da Mata do Planalto, um dos mais importantes e derradeiros redutos verdes de BH, vem mobilizando moradores vizinhos numa luta que se arrasta há sete anos, contra a construção de mais de 700 apartamentos em parte da área, que tem quase 120.000 m2. Durante sua campanha, Kalil visitou o local acompanhado de seu vice, Paulo Lamac, e afirmou como colírio para as ONGs que defendem a sua total implantação e preservação:

“Essa mata é intocável! A prefeitura tem que mediar uma transferência para que a obra seja feita em outro lugar. Existe um déficit de moradia de 76 mil residências na cidade. São dois problemas, portanto. Mas é inadmissível que, em pleno século XXI, se derrube mais Mata Atlântica para construir prédios” - afirmou.

Só o tempo dirá se Kalil irá manter a promessa.

 

5 - Inferno Sonoro (1)

Cerca de 70% das reclamações registradas na Secretaria Municipal de Meio Ambiente se referem a ruídos, apontam os ambientalistas. É preciso fortalecer a fiscalização da poluição sonora, bem como intensificar o monitoramento de fontes poluidoras reincidentes, visando, principalmente, a resolução de conflitos entre áreas residenciais, bares e restaurantes. Criar mecanismos de incentivo para a realização de atividades em locais apropriados e novas áreas de lazer também são reivindicações constantes dos moradores. Desafio difícil para uma cidade chamada “dos barzinhos”, cuja população também  tem o direito de dormir em paz.

Mais. Corre na Câmara Municipal um projeto de lei de interesse dos pastores evangélicos para aumentar de 70 para 80 decibéis o volume máximo de som permitido para as suas igrejas, mesmo que seus fiéis e não fiéis fiquem mais surdos precocemente. Isso porque toda surdez é lenta, progressiva e incurável.
Até Deus é contra!

Eventos no Mineirão

 

Palco da Esplanada: Por que a PBH não transfere para ali os eventos que agridem o Parque das Mangabeiras e sua vizinhança? - Imagem: Reprodução

Barulho infernal (2)

Um outro desafio correlato que Kalil terá que acertar com a Fundação Municipal de Cultura e a Belotur. Por mais bacana que seja a programação de eventos musicais realizados pela PBH aos sábados e domingos, viver ao lado das várias praças públicas da capital, vide até mesmo na Praça JK, no Sion, tem sido um inferno para as populações vizinhas, principalmente de terceira idade, que não têm para onde fugirem. Não dá nem para ver e ouvir televisão, tamanho o barulho infernal e anti-democrático o dia inteiro.

É um horror de samba-funk e outros ritmos que a maioria da população não conhece, nem curte. Sem preconceito.

Em tempo: absurdo maior acontece em pleno estacionamento do Parque das Mangabeiras, para o horror acrescido da natureza salva e preservada ali com tanta luta. Ou seja, a permissão, pela PBH, de realização de festas e shows de rock pesado até às 10 horas da noite.

Perguntar não ofende: por que não concentrar esse merecido apoio que a prefeitura dá à classe artística-musical no Palco da Esplanada, na área externa do novo Mineirão, cuja reconstrução para receber a Copa das Confederações eliminou milhares de árvores ali plantadas pelos torcedores, como a Ecológico já mostrou?

Hoje ali é só cimento e dinheiro público gastos em vão.

Ninguém merece tamanha desolação e espaço apropriado não utilizado, caro Kalil. 


Saiba, na próxima edição, quais são as duas outras “pedreiras”, essas grandes e delicadíssimas, do ponto de vista político. Mas que, se enfrentadas com coragem apartidária e amor social acima de tudo, podem fazer do Kalil mais que um prefeito ecológico; um estadista, na história de BH. Aguarde e acompanhe!

Saiba mais
facebook.com/alexandrekaliloficial

 

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