Terça, 14 de fevereiro de 2017

É agro. E daí?

O agronegócio, que também se diz pop, não divulga o que faz pelo meio ambiente. Daí sua imagem pública nada amigável com a natureza

Felis Concolor - redacao@revistaecologico.com.br



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É o que confirma o último barraco protagonizado pelo setor contra a escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense, cujo enredo para o carnaval deste ano - “Xingu, o clamor que vem da floresta” – não agradou ao segmento que hoje responde por um quarto do PIB nacional.

Conforme primeiro registrou o jornalista Ancelmo Gois, na sua coluna em “O Globo”, intitulada “O Império Contra-Ataca”, para a Sociedade Rural Brasileira e a Associação Brasileira de Criadores de Zebu, a letra contribui para “a perpetuação na sociedade do velho preconceito contra o homem do campo”. Já para a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador, a vítima é o próprio cavalo, segundo ela, também repudiado de “forma errônea” na letra.

Para Cahê Rodrigues, carnavalesco da Imperatriz, o setor apenas perdeu mais uma chance de ficar calado: “Nunca foi nossa intenção agredir o agronegócio, setor produtivo de nossa economia a quem respeitamos e valorizamos. Combatemos, sim, em nosso enredo, o uso indevido dos agrotóxicos que poluem os nossos rios, matam os peixes e coloca em risco a vida de seres humanos, sejam eles índios ou não, além de trazerem danos irreversíveis para a fauna e a flora do país”.

A preocupação é com o índio, prosseguiu Cahê: “Quando a Imperatriz decidiu levar o Xingu para a avenida, tinha uma razão muito forte. Ela quer dizer apenas: respeitem o nosso índio e aprenda, com ele, a amar o que chamamos de Brasil”.

A Revista Ecológico conferiu a letra e selecionou as críticas e apelos mais fortes. Em nenhum deles é citado literalmente o agronegócio. Em linguagem pop, isso significa que o próprio setor vestiu a carapuça. Em vez de ficar calado ou mostrar o tanto que já começa a fazer pelo meio ambiente onde atuam, os ruralistas radicais e suscetíveis preferiram se identificar, vestir a fantasia da ignorância e desdenho do que sempre fizeram impunemente com a natureza até antes do advento da consciência ecológica e do desenvolvimento sustentável. Confira esses versos:

“...O Belo Monstro rouba as terras dos seus filhos./ Devora as matas e seca os rios./ Tanta riqueza que a cobiça destruiu.../ Sou o filho (do Xingu) esquecido do mundo. / Minha cor é vermelha de dor. / Meu canto é bravo e forte./ Mas é hino de paz e amor... o índio luta pela sua terra./ Da Imperatriz vem o seu grito de guerra. Salve o verde do Xingu!/ A esperança, a semente do amanhã.../ Herança, o clamor da natureza a nossa voz vai ecoar e preservar!”.

Conforme a Ecológico registrou em sua edição anterior, melhor seria o setor se preocupar com as lágrimas derramadas pela top model Gisele Bündchen. Isso aconteceu, com repercussão mundial, quando ela sobrevoou a Floresta Amazônica, viu e foi informada pelo Greenpeace que 65% da destruição que seus lindos olhos verdes testemunharam ainda é causada, insustentavelmente, pela agropecuária extensiva.

Também estratégico seria o agronegócio brasileiro responsável fazer um brainstorming com a sua principal líder e formadora de opinião pública, a ex-ministra da Agricultura Kátia Abreu, do PMDB-TO, para ela não piorar mais a imagem em reconstrução do setor. E não repetir mais “pérolas” como esta: “Nós desmatamos, sim. Não para deixar áreas ao léu. Mas para fazermos uma das melhores agriculturas do mundo”.

Áreas ao leu?

Desmatamento e a agropecuária

Pecuária extensiva na Amazônia: isso é tech, é tudo? - Imagem: Daniel Beltrá/Greenpeace

Léu significa “à toa”. Matas, rios e florestas à toa, como se o planeta e a humanidade não precisassem da sua biodiversidade? É assim que, sem conferir nem agregar qualquer valor, apenas para serem desmatados e transformados em pastos, Kátia Abreu ainda vê a natureza e o meio ambiente perfeitos criados por Deus?

É daí que vem o clamor planetário contra o setor, muito além do “é tech, é pop, é tudo”. Muito além do Xingu. Lembrando também o sábio e necessário conceito da educação ambiental: não basta à galinha botar o ovo. Mesmo sem agência de publicidade, ela também cacareja para influenciar outras galinhas a repetirem o milagre da vida sobre a Terra.

O agronegócio é esse ovo. É vida, é verde, é preservação e sustentabilidade. Tudo junto, separado e interdependente, desde quando o homem desceu das árvores e a agricultura foi inventada.

Saiba mais
Para entender o choro amazônico de 
Gisele Bündchen, acesse: goo.gl/CM0qyR

 

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