Quarta, 01 de fevereiro de 2017

Gonçalo Alves

Conheça a planta utilizada para tratamento de diarreia, hemorroidas e que já foi utilizada até para testes em estação espacial

Marcos Guião - redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Marcos Guião

Imagem: Marcos Guião

sol já se ia alto e o suor escorria feito riacho pelo cangote, juntando a camisa no corpo e sungando as calças já úmidas na cinta. Guardei o facão na bainha e fiquei mirando os forros do mundo, azulado nos fundos ramiados com as penugens de nuvens aqui e acolá. Fadiga muita nessa correção de trecho na buscação de remédios. Ufh! Inda bem que o embornal já tava cheio e a missão dando ponto de cumprida. Fiquei me alembrando de como se dei com a planta que havia acabado de colher, a Gonçalo Alves (Astronium fraxinifolium).

Pra começo de prosa logo me espantei com essa planta que tem nome e sobrenome de gente. Como assim? De onde veio isso? Inté hoje num fiquei sabendo a origem e se alguém souber me escreva contando; eu agradeço por demais. De princípio, me embaraçava um pouco na hora de diferençá ela de outra, mas com o passar dos anos fui criando intimidade com as árvores do Cerrado. Daí descobri seu cheiro, que é muito aparentado com manga e num demorou um tim pra botá reparo no empareado das folhas. Por fim, peguei o jeitão dela e hoje só bato o olho e já identifico.

Serventia muita ela tem e também gastei tempo pra tomar ciência de tudo. De premero era só uso das cascas no xarope lambedor e depois foi se desdobrando. Utilidade boa me contou um militar aposentado lá das bandas de Curvelo, que teve a mulher entrevada na cama sem consentimento pra movimentação. Dor montada nas juntas, ela era o retrato do sofrimento. Remédio sem quantidade e ela já enojada de tanto médico dando palpite e solução nenhuma. Certo dia, ele se alembrou do avô apregoando as qualidades do Gonçalo e foi pro Cerrado buscar as entrecascas. Despois colocou numa garrafa de vinho, deixou uns dias antes de coar e a mulher deu de tomar um cálice pela manhã e outro mais na boca da noite. Pois bem. Passou-se três meses, a mulher sarou completamente e inté hoje nem registro tem das doradas antigas.

Fama mesmo ela alcançou quando foi levada pelo astronauta Marcos Pontes (aquele cabra simpático de cabeça branca que tava toda hora na TV) para “passear” na estação espacial. Ele fez uma experiência, plantando sementes de Gonçalo lá nas alturas e comprovou que elas germinaram mais rápido. Que coisa né? Inté o Gonçalo já teve no espaço e nóis aqui ainda rastejando...

Mas as aventuras dessa planta-gente num para aí não. Suas cascas têm paladar bem apertento e ajuda se o caso for diarreia. O banho alivia muito a queimação das hemorroidas e as folhas secas transformadas em pó são polvilhadas nas feridas com ótimos resultados cicatrizantes. Como se viu, é uma tanteira de utilidade numa pessoinha só.

Inté a próxima lua!  

(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais. 

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