Quarta, 01 de fevereiro de 2017

Florestas mais vazias

O PL 6.268/16, de autoria do deputado Valdir Colatto, irá contribuir para a cultura da crueldade e da violência

Maria Dalce Ricas * redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Reprodução

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A caça a animais silvestres no Brasil foi proibida em 1967. Não se pode dizer que tenha acabado, mas diminuiu muito, principalmente nos estados onde a atuação das polícias ambientais é mais forte e a educação é de melhor nível. Mesmo assim, a morte de animais por caçadores que desafiam a lei contribui para a extinção de espécies.

Valdir Colatto, “brilhante” expoente da bancada ruralista na Câmara dos Deputados, é autor do PL 6.268/16, que legaliza a caça a animais silvestres. Sempre a postos para apresentar ou apoiar propostas que vão permitir e estimular desmatamento e degradação, ainda tem coragem de distorcer a realidade, argumentando que a caça, desde que controlada, pode ajudar a combater espécies exóticas que oferecem riscos ao ecossistema. Ele cita o javali europeu, conhecido como javaporco, que tem caça liberada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Convenientemente, esquece-se que isso é exceção e que tem sido usada para matar outras espécies, pois a caça é feita com cães que estraçalham os animais de forma repugnante e que obviamente não distinguem a espécie das demais. E caçadores certamente aproveitam a oportunidade para matar outros animais.

O PL certamente recebe aplausos vigorosos da indústria de armas brasileira e de suas congêneres, principalmente americanas, que ampliarão seu mercado de morte.

O PL não é só contra o meio ambiente. É contra a paz e será incentivo à liberação do uso de armas no país, além de contribuir para a cultura da crueldade e da violência. Crianças que aprendem a amar os animais serão estimuladas a matá-los, como ocorre nos EUA, pior exemplo de violência resultante do porte de armas. Boa parte das mortes que lá acontecem, incluindo de crianças, é resultante da fácil aquisição de armas para caça.

Com exceção da Floresta Amazônica - onde a população de animais silvestres, apesar dos registros de desmatamento, caça e incêndios, ainda é grande; no restante do país, as “florestas vazias” são “marca registrada”. Mesmo ignorando a crueldade da caça e o direito dos animais silvestres à vida, as populações existentes não suportariam. Nos parques e estações ecológicas onde se pressupõe haver menos caça, avistar animais silvestres, principalmente da mastofauna (mamíferos de forma geral), é pura sorte, pois além de morrerem de medo da espécie humana, sua população é mínima. Se o PL passar, assistiremos ao aceleramento absurdo da extinção de espécies animais no país.

E mais uma vez, um PL de grande interesse também tramita sem qualquer discussão com a sociedade e com segmentos técnicos e científicos como pesquisadores e órgãos de meio ambiente. Enquete da Câmara sobre o mesmo registrou até o momento que 84% dos votantes são contra. 

(*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda).

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