Quarta, 21 de dezembro de 2016

"A esperança existe"

Entrevista com Pavan Sukhdev, especialista em Desenvolvimento Sustentável e Economia Verde

Bia Fonte Nova - redacao@revistaecologico.com.br



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Pavan Sukhdev:

Pavan Sukhdev: "Aprendi cedo na vida que só conseguimos gerenciar aquilo que podemos medir e mensurar" - Imagem: Marcus Desimoni

Embaixador do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o professor e economista indiano Pavan Sukhdev foi a estrela de um encontro seleto promovido pela Fundação Renova, na lua nova de novembro, na sede da Fundação Dom Cabral, em Nova Lima (MG).

Especialista em desenvolvimento sustentável e economia verde, ele ressaltou a importância do diálogo no relacionamento com as comunidades afetadas pelo rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana, em 05 de novembro de 2015, bem como a criação de parcerias para a reconstrução das áreas devastadas pela maior tragédia socioambiental já ocorrida no Brasil.

Na plateia, estavam representantes do poder público, de órgãos ambientais, movimentos sociais e ONGs, além de integrantes da governança da Renova, das empresas mantenedoras e lideranças de algumas comunidades impactadas, como Barra Longa.

As palavras “esperança”, “diálogo” e “resiliência”, mencionadas em diferentes momentos, por diferentes participantes, deram o tom do encontro. “Devemos seguir adiante, acreditando que há esperança, e trabalhando de forma colaborativa em direção a um novo futuro”, frisou Pavan.

Confira, a seguir, suas principais reflexões, cuja experiência também inclui a participação em ações de reconstrução após desastres ocorridos mundo afora, entre eles o terremoto de 2011, no Japão, que matou mais de 15 mil pessoas:

Sobrevivência e reabilitação

“Estamos aqui para falar sobre como seguir adiante com as ações de reparação, restauração e reconstrução, previstas na missão da Fundação Renova. Cada uma dessas atividades requer muito raciocínio, consulta e discussão, pois não se trata de uma obra apenas de cimento e concreto. Mas sobre pessoas, comunidades, sobrevivência, trabalho e reequilíbrio de todos os ecossistemas afetados.”

“Reabilitação tem significados distintos para diferentes pessoas. Para mim, significa construir uma nova vida. Ela inclui elementos da vida antiga, mas precisa incorporar também inovação e melhorias. Deve, ainda, conter elementos de esperança, comprovando a importância tanto da criatividade humana quanto da resiliência das pessoas e da natureza de encontrarem saídas e novas soluções diante de uma situação extrema, como a enfrentada aqui. Portanto, a reabilitação jamais será alcançada sem colaboração, consulta e cooperação.”

Plano vivo e dinâmico

“O plano de ação da Samarco deve se basear nas necessidades, demandas e opiniões das comunidades impactadas e também na redução dos impactos ambientais causados pelo acidente. Sua elaboração tem de envolver todas as partes interessadas e afetadas, assegurando que todos estejam falando a mesma língua.”

“Sabemos que todos querem fazer o melhor, mas a ideia do que é bom e correto a se fazer numa situação complexa como essa, muda muito de um grupo para outro. Por isso, é essencial que se tenha um amplo processo de consulta às comunidades e, sobretudo, um pensamento colaborativo e cooperativo. Ninguém tem um conhecimento perfeito sobre as diferentes situações que vivenciamos. Todos vamos aprendendo à medida que vivemos.”

“Esse plano de reabilitação também não pode ser um documento estático, criado apenas para ser colocado numa vitrine. Deve ser um documento vivo e dinâmico. Um plano de ação que tenha as comunidades afetadas como coautoras será certamente mais especial e mais eficaz do que um documento escrito apenas por um comitê de especialistas.”

Palestra no Brasil de Pavan Sukhdev

Sem solução única

“Jamais teremos uma solução única para nos prevenirmos de desastres ou para nos recuperarmos da ocorrência deles. E o trabalho de recuperação das áreas afetadas é, por si só, uma reafirmação da resiliência humana, da criatividade na construção e na busca de soluções mais eficientes.”

“Em respeito às 19 pessoas que morreram na tragédia, devemos aprender com as comunidades afetadas, por meio do diálogo contínuo. Problemas complexos requerem soluções complexas. Diante deles não se tem apenas um ângulo, uma perspectiva ou lente única pela qual se possa olhar. Sempre haverá inúmeras perspectivas e, para avançar, será preciso encarar cada uma delas.”

“No caso da Renova, acredito que a perspectiva mais importante – e que deve ser o pontapé inicial de todas as ações – é a tristeza das comunidades afetadas. Não podemos fechar os olhos para o sofrimento das pessoas diante do que aconteceu.”

Sucesso x impactos

“Num processo complexo como esse, que envolve inúmeros parceiros e representantes de diferentes setores da sociedade, outro desafio é medir o sucesso das ações. Aprendi cedo na vida que só conseguimos gerenciar aquilo que podemos medir e mensurar.”

“É essencial, ainda, avaliar o que chamo de externalidades, ou seja, os impactos causados por uma transação ou empresa em qualquer pessoa ou instituição que não tenha concordado, de forma explícita, com essas atividades.”

“Um dos desafios da Renova é fazer com que o capital humano – formado pela riqueza da sociedade local, com seus valores e tradições – seja resgatado paralelamente às ações de recuperação ambiental e de infraestrutura dos locais atingidos. Medir essas externalidades vai permitir que a fundação demonstre, daqui a algum tempo, se as iniciativas adotadas foram realmente positivas e trouxeram resultados palpáveis, ou se foram apenas superficiais.”

Lições internacionais

“Também é importante aprender com as lições e experiências adquiridas em desastres naturais mundiais. Conhecer as soluções e as saídas adotadas por outros governos, empresas e comunidades. Ao visitar Bento Rodrigues, imagens com as quais me deparei no Japão, após o terremoto/tsunami de 2011 – que devastou Minamisanriku, uma das principais cidades costeiras na região de Tohoku/Fukushima – voltaram à minha memória.”

“Lá, nossos colaboradores, em parceria com a empresa Amita, criaram um plano de reconstrução baseado no reaproveitamento de recursos e insumos locais. Investiram, por exemplo, na geração de energia elétrica por meio de uma planta de biogás alimentada por resíduos orgânicos (restos de alimentos e rejeitos da indústria de pescados).”

“Além de energia elétrica para alimentar vilas rurais, a usina de biogás também gera fertilizante líquido, que é usado para pulverizar as lavouras da região, fomentando a retomada dos postos de trabalho perdidos com a tragédia. Criaram, ainda, certificações para o carvão vegetal e para pescados produzidos na cidade.”

“Durante a visita a Bento Rodrigues, vi matas de eucalipto em trechos da estrada, e pensei que, talvez, elas possam ser usadas para produzir carvão vegetal de forma sustentável, gerando uma nova atividade, renda e empregos na região.”

Guia da ONU

“No caso do tsunami da Indonésia/Oceano Índico, as lições de reconstrução também estão sendo compartilhadas. Passados mais de 10 anos da tragédia que matou cerca de 230 mil pessoas, a ONU lançou, em 2015, um ‘kit de ferramentas’ voltado para profissionais responsáveis pela implementação de programas de recuperação. Ele reúne experiências relativas ao tsunami de 2004 e também a outras tragédias naturais ocorridas na região, entre 1993 e 2013. O objetivo é servir de guia para o desenvolvimento, implementação e gerenciamento de programas complexos de recuperação pós-desastres.”

Dor e perdas

“Devemos seguir adiante, acreditando que há esperança e trabalhando de forma colaborativa em direção a um novo futuro. Quero lembrar, ainda, que não há substituição real para a dor, para as perdas e para a tristeza das vidas perdidas. Jamais poderemos compensar isso.”

“Contudo, o objetivo primordial de todo o trabalho que vem sendo e ainda precisará ser feito é criar uma nova vida por meio da reconstrução. Esse é o objetivo maior da Fundação Renova e ele deve ser conquistado por meio da resiliência. Ou seja, da habilidade de resistir, lidar e reagir de modo positivo diante de situações adversas. Espero, sinceramente, que vocês sejam bem-sucedidos.”


Fique por dentro

Físico e economista, Pavan Sukhdev é CEO e fundador da Gist Advisory, consultoria que capacita governos e corporações a medir e gerenciar seus impactos sobre o capital natural e humano. É autor do livro “Corporação 2020: como transformar as empresas para o mundo de amanhã”, cuja campanha de mesmo nome, lançada na Rio + 20, ressalta a importância de incluir os serviços ambientais – água, florestas, solo e ar – na contabilidade das atividades econômicas e produtivas.

Em 2008, ele liderou um estudo global sobre os benefícios econômicos dos ecossistemas e as consequências sociais e econômicas de sua perda e degradação. Defensor da economia verde, recebeu, em 2013, o “Prêmio Gotemburgo para o Desenvolvimento Sustentável" (Suécia), por seu esforço em ampliar o reconhecimento de políticas voltadas para a valorização dos serviços prestados pelos ecossistemas globais.

 

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