Quinta, 18 de agosto de 2016

Uma rede do bem

Reunidos em Itaipu, representantes de boas práticas em água premiados pela ONU lançam plataforma e propõem novas alianças de cooperação para a implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável/Agenda 2030

Luciana Morais (*) De Foz do Iguaçu (PR) redacao@revistaecologico.com.br



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Sob a liderança de Jorge Samek, Itaipu reuniu instituições e especialistas e premiados: “Não existe Plano B para o planeta” - Imagem: Divulgação

Sob a liderança de Jorge Samek, Itaipu reuniu instituições e especialistas e premiados: “Não existe Plano B para o planeta” - Imagem: Divulgação

Não poderia haver cenário mais emblemático para tratar de um dos temas que mais mobilizam a humanidade: a proteção e a gestão responsável dos recursos hídricos. Afinal, habitamos um planeta cada dia mais ameaçado pelas mudanças climáticas e onde a água não potável e a falta de saneamento matam e adoecem mais pessoas, por ano, do que todas as guerras e formas de violência juntas.

Foz do Iguaçu, no Paraná – cidade mundialmente famosa por suas belezas naturais superlativas, como as colossais Cataratas e o seu Parque Nacional, que abriga o maior remanescente de floresta Atlântica da Região Sul do Brasil – foi palco escolhido para um encontro destinado a catalisar novos esforços em prol da conservação hídrica e da prosperidade humana e planetária.

Durante dois dias, representantes de projetos premiados pela ONU como as melhores práticas de gestão da água no mundo – por meio do Prêmio Water for Life (Água para a vida) – e especialistas de diferentes instituições e países estiveram reunidos no Parque Tecnológico Itaipu (PTI). Juntos, eles debateram os desafios ligados à implementação dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Agenda 2030, conjunto de metas globais a serem cumpridas nos próximos 15 anos (leia mais a seguir).

 

Plataforma virtual
 – Os projetos apresentados integram a Rede Global de Gestão Participativa da Água, criada em 2015. A novidade anunciada por Lupércio Ziroldo Antônio, presidente da Rede Brasil de Organismos de Bacias Hidrográficas (Rebob), foi a plataforma virtual [www.boaspraticasnasaguas.com] criada para congregar e amplificar a divulgação de tais iniciativas. “Nesse nosso mundo globalizado, temos que atuar fundamentalmente com cooperação e interdependência. Ninguém mais vive sozinho, é preciso integrar ideias, soluções e ampliar o intercâmbio de experiências e saberes.”

 Ziroldo lembrou que o Brasil tem cerca de 280 organismos e comitês com a participação direta da sociedade na gestão da água. “Só comitês de bacia hidrográfica são mais de 230. Um crescente movimento de representação social que mobiliza quase 100 mil pessoas.” Não por acaso, um dos principais objetivos dessa Rede Global é fazer com que as iniciativas premiadas pela ONU inspirem ações semelhantes e sejam replicadas mundo afora, com foco voltado para a ação local do cidadão em prol de seus cursos d’água.

Um dos destaques da nova plataforma, que será incrementada aos poucos e traz informações em diferentes idiomas, é um link com a indicação de fontes para o financiamento de projetos. “Há inúmeras ações positivas sendo promovidas em diversos países, mas em muitos casos as pessoas não têm conhecimento nem acesso às fontes de financiamento para os seus projetos. Vamos indicar caminhos, disponibilizar formulários e meios de contato com essas fontes”, frisou Ziroldo.

Força do exemplo

 Números e estatísticas apresentados durante os painéis de debate em Foz reacenderam o sinal de alerta em relação à importância da água para a sobrevivência e o bem-estar da humanidade. Entre eles, o fato de esse tesouro líquido vital estar presente em nada menos que 80% dos processos produtivos globais. Calcula-se, ainda, que 6% do PIB mundial será afetado, até 2050, por problemas relacionados à escassez hídrica.

Anfitrião do encontro, o diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Jorge Samek, listou os principais usos da água, ressaltando o seu papel decisivo na geração de energia. Ele destacou que 70% desse recurso natural disponível no mundo é usado na agricultura, enquanto 76% das energias globalmente produzidas são consumidas nas cidades.

“Vivemos um tempo de grandes avanços tecnológicos no qual praticamente tudo tem backup e pode ser substituído. Mas, no caso da Terra, não. Não temos um plano B. Por isso, costumo dizer que essa rede global é uma rede do bem. Pois reúne pessoas preocupadas em transformar a sua realidade para melhor e, acima de tudo, empenhadas em dar sustentabilidade efetiva à nossa casa única comum.”

Enfático, Samek completou: “Os bons exemplos têm força. Estamos compartilhando aqui ideias e iniciativas que coincidem com o que acreditamos e praticamos. E buscando construir, a partir do território de Itaipu, um mundo melhor para todos.”

Merenda local

Superintendente de Meio Ambiente de Itaipu, Jair Kotz apresentou os resultados alcançados com o programa Cultivando Água Boa (CAB). Criado em 2003, ele contempla 20 subprojetos que envolvem e beneficiam comunidades de 29 municípios do Oeste do Paraná. Um território que tem aproximadamente um milhão de habitantes e 800 mil hectares de área.

Vencedor do 6º Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza/2016 – O “Oscar da Ecologia” brasileira promovido pela Revista Ecológico –, o CAB está presente em 217 microbacias, onde promove ações de proteção e recuperação de nascentes, adequação de estradas, conservação de solos, destinação correta do lixo e melhoria do saneamento. Para Kotz, quando se trata da aplicação dos ODS é essencial estabelecer uma conexão permanente entre o global e o local.

“Não alcançaremos a sustentabilidade territorial se as pessoas não se derem conta de que nossas ações e escolhas diárias impactam o planeta como um todo. Se por um lado contribuímos para a problemática global, por meio das mudanças climáticas e de impactos sobre os recursos hídricos, por outro temos nas mãos a chance de ser protagonistas na construção de um futuro mais seguro e digno para todos.”

 

Como exemplo concreto, ele citou a atuação de Itaipu e de parceiros num projeto de fornecimento de merenda escolar com produtos da agricultura familiar local. “Hoje, 60% da merenda é produzida no próprio município, sendo 38% dela de forma orgânica.”

Repensar a prática

 – Com sua fala sempre vibrante, o diretor de Coordenação de Itaipu, Nelton Friedrich, sintetizou: “Quanto mais microscópica e local for uma iniciativa multiplicadora, melhor ela se torna. Afinal, o maior desafio em relação aos ODS/Agenda 2030 é aterrissar no cotidiano das pessoas, incentivando e apoiando a sua ação transformadora local.”

Para ele, a adoção de novos valores, comportamentos e atitudes – aliada a novos padrões de produção e de consumo – é uma das chaves para superar os desafios impostos pelas mudanças climáticas, cujos alertas já reverberam pelo planeta. “As mudanças no clima impactam o ciclo da água e afetam as populações mais vulneráveis. No Brasil, elas já contradizem os versos de Tom Jobim (1927-1994): as águas de março não fecham mais o verão. Chegam mais cedo ou mais tarde, e geralmente de forma trágica, causando impactos nunca antes vistos.”

Otimista, Friedrich fez questão de destacar também, em tom esperançoso, os recentes investimentos do Brasil em projetos de geração de energia eólica. Mencionou, ainda, iniciativas voltadas para a melhoria da mobilidade urbana, tais como a construção de ciclovias em inúmeras cidades do país, bem como a concessão de descontos e isenção fiscal para quem investe em construções ecologicamente corretas. “Não basta mudar o jogo. É preciso ir além e entender o novo jogo que precisa ser jogado, abrindo caminho para o surgimento de uma nova civilização planetária. Como nos ensinou o educador Paulo Freire (1921-1997), a prática de pensar a nossa prática é a melhor maneira de pensar certo.”

Experiências internacionais

Durante o encontro, que também reuniu representantes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Unesco, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Programa Hidrológico Internacional, Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e Agência Nacional de Águas (ANA), Engracia Tamaña apresentou o projeto de restauração dos rios Las Pinas e Zapote, nas Filipinas.

Lá, o plantio de diferentes espécies de bambu foi a saída encontrada para conter a erosão nas margens e ajudar a despoluir esses dois cursos d’água. O processo de revitalização ambiental também levou ao fomento da produção de adubo orgânico, feito com resíduos e sedimentos retirados dos rios, que é usado por fazendeiros e agricultores da região.

Apostando no que chamou de ‘ciência cidadã’, Jim Taylor, diretor de Educação Ambiental da ONG sulafricana Wessa, apresentou o miniSASS [www.minisass.org]. Trata-se de uma ferramenta simples e que pode ser usada por qualquer pessoa, em diferentes cantos do mundo, para fazer o biomonitoramento da qualidade da água e da saúde de um rio.

“Basta recolher amostras de macroinvertebrados (insetos aquáticos comuns, tais como libélulas e besouros) e, dependendo de quais grupos são identificados no local, com base na análise de uma folha de referência com os desenhos dos insetos, tem-se uma medida da situação do curso d’água.”

A pontuação abrange cinco categorias e varia de saudável (cor azul) até pobre/modificada (vermelha). Com o apoio da direção do Parque Nacional, Jim foi ao Rio Iguaçu com alguns participantes do encontro e testou em campo o miniSASS. O resultado foi azul: ou seja, o rio está saudável e em seu estado natural.

Que assim seja e permaneça: para o bem da atual e das novas gerações. Afinal, como escrevi na primeira reportagem que fiz sobre as Cataratas do Iguaçu, anos atrás: “Quem acredita em Deus sente a presença Dele em toda parte. Mas lá, diante da imensidão das Cataratas, é como se Ele nos tocasse o ombro e dissesse: – Olha o que Eu criei para você. Ainda duvida da minha existência?”


Fique por dentro:

Recorde

A Itaipu Binacional registrou o melhor semestre de sua história. A usina produziu, de 1º de janeiro até 30 de julho, 51.637.234 megawatts-hora (MWh), superando em 1,5 milhão de MWh o recorde anterior, registrado em 2012, quando foram gerados 50,1 milhões de MWh no mesmo período. Aos 32 anos de operação, Itaipu segue rumo a mais uma marca histórica, com 100 milhões de MWh até o fim deste ano, reafirmando a sua posição como a maior hidrelétrica produtora de energia limpa e renovável
do mundo.


Fique por dentro:

Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram definidos em negociações entre os países-membros da ONU após a Conferência Rio+20 e estão assim agrupados: erradicação da pobreza; fome zero e agricultura sustentável; saúde e bem-estar; educação de qualidade; igualdade de gênero; água potável e saneamento; energia limpa e acessível; trabalho decente e crescimento econômico; indústria, inovação e infraestrutura; redução das desigualdades; cidades e comunidades sustentáveis; consumo e produção responsáveis; ação contra a mudança do clima; vida na água; vida terrestre; paz, justiça e instituições eficazes e parcerias e meios de implementação.

A Agenda 2030, por sua vez, constitui uma série de compromissos que os mesmos países-membros precisam cumprir, em relação aos ODS, até 2030. Essa foi a segunda vez que os representantes das iniciativas premiadas pela ONU-Água se reuniram em Foz do Iguaçu. A primeira foi em setembro do ano passado, quando foi oficialmente criada a Rede de Gestão Participativa da Água. 

 

 

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