Quinta, 18 de agosto de 2016

Boas práticas no campo

III Seminário Ambiental da Faemg aponta caminhos para a agricultura sustentável

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Agricultura e sustentabilidade. Você não leu errado. Por mais inimaginável que fosse - dados os milhões de hectares de florestas historicamente lançados ao chão no Brasil para dar lugar à produção agrícola e à pecuária -, essas duas palavras estão na mesma linha. E começaram a caminhar de mãos dadas. Quem busca o alinhamento é o próprio setor, que vem construindo e estimulando iniciativas ecologicamente corretas entre os produtores rurais.

Para mostrar que boas práticas ambientais no meio rural já são uma realidade, a capital mineira foi recentemente palco do “III Seminário Ambiental” do Sistema Faemg. Os produtores participaram de seis palestras e dois debates sobre “Resíduos, Fertilização e Bioenergia”.

“Nosso foco é a produção com sustentabilidade. Não é possível exercer qualquer atividade hoje sem estarmos conectados com ela. Seminários como este são uma oportunidade de formação de uma nova massa crítica, munida de conhecimentos. Precisamos despertar uma ótica mais complexa da questão ambiental, que é a de preservar e conservar os recursos naturais. Mas, ao mesmo tempo, gerando qualidade de vida e renda. E produzindo alimentos, que também é a nossa missão”, afirmou Roberto Simões, presidente do Sistema Faemg, na abertura do evento.

Entre as boas práticas que o setor fomenta estão as alternativas de produção de bioenergia e gestão de resíduos sólidos, que vêm contribuindo para reduzir o impacto do agronegócio no meio ambiente.

É o caso da Granja Três Lagoas, localizada na região de Conselheiro Lafaiete (MG). Com 500 matrizes e 5.800 suínos, o proprietário Carlos Salgado buscava uma solução para tratar e aproveitar os 65 mil litros de compostos orgânicos sólidos e efluentes líquidos produzidos por dia na propriedade.

Por meio da instalação de um biodigestor, os materiais são separados. O líquido, proveniente da degradação das fezes dos suínos, é utilizado para produção e aproveitamento de gás, enquanto o sólido é transformado em adubo orgânico para fertilização de pastagens. A Granja, que produz 320 toneladas de matéria orgânica tratada por ano, fatura quase R$ 11 mil no período com a venda de adubo. Só de energia gerada, a economia de luz chega a R$ 88 mil/ano. “A conclusão que chegamos é que, sem reaproveitamento, a manutenção do tratamento dos efluentes e sólidos orgânicos custará caro ao produtor. Em consequência, seu custo operacional será mais alto”, afirma o engenheiro agrônomo Orlando Rolón, que atua na Granja.

 

Evandro Barros, agrônomo da Embrapa Suínos e Aves, chamou a atenção para gargalos que possam impossibilitar o uso de resíduos da atividade agrícola e pecuária, como dejetos de suínos e aves, em propriedades rurais. Um dos mais comuns é não planejar. “Um biodigestor, por si só, não resolve problema ambiental. É preciso ter um bom projeto, realista, com consultoria e assistência técnica especializada, inclusive no pós-venda, e estudo de viabilidade econômica. O manejo incorreto do equipamento pode se tornar uma alternativa inviável para o agricultor”, ressaltou. A própria Embrapa, inclusive, oferece este tipo de consultoria.

LIXO NA ROÇA

E o resíduo sólido e o lixo doméstico gerado no campo? Onde dispor as embalagens de óleo, pilhas, medicamentos vencidos e lâmpadas? Segundo a gerente de Resíduos Especiais da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), Alice Dias, o lixo identificado no meio rural tem cada vez mais característica urbana.

“A ideia foi trazer mais questionamentos, e apresentar o encaminhamento do que está sendo feito na gestão de resíduos no meio rural e os desafios para o futuro. Começamos identificando os tipos de resíduos que ocorrem no meio rural e que demandam uma gestão adequada; que são vários e estão assumindo cada vez mais uma característica de urbano do que de rural. É uma mudança que guia uma nova abordagem também”, ponderou Alice.

“Minas Gerais tem muitos gargalos. Não há nenhuma empresa recicladora de vidro, por exemplo. Nosso parque de reciclagem de plástico ainda é muito tímido, com iniciativas caseiras. Também é preciso inserir a demanda de coleta e tratamento de resíduos gerados no meio rural em termos de compromisso e acordos setoriais, que é o que os órgãos ambientais federal e estadual vêm fazendo.”

Para Ana Paula Mello, coordenadora da Assessoria de Meio Ambiente da Faemg, é preciso pensar, debater e planejar a questão dos resíduos além de apenas cumprir as normas ambientais. “O bom manejo se reflete também na saúde, qualidade de vida e cria novas oportunidades econômicas  para produtor rural. Através do reaproveitamento desses resíduos, é possível transformar um problema em solução. E em renda.”

DA FAZENDA PARA O BRASIL

O engenheiro agrícola Juarez de Souza e Silva trouxe um exemplo economicamente viável que pode contribuir para potencializar ainda mais a eficiência energética do país: a fabricação de álcool combustível, ou bioenergia, em pequenas propriedades rurais.

“O que queremos mostrar é que se pudéssemos produzir bioenergia em pequena escala, no pequeno produtor, teríamos muito mais energia disponível do que através das grandes indústrias. Quando trabalhamos com os pequenos produtores, o processo é totalmente integrado. Produzimos a bioenergia em associação com a produção de alimentos. A ideia não é trabalhar somente com a bioenergia, mas a obtermos como um subproduto da produção de alimentos. É um potencial muito grande e ecologicamente sustentável, já que nada é retirado do solo e o que se utiliza de fator externo é apenas uma pequena quantidade de fertilizante; nada comparável ao uso pesado de um processo comum”, garante Juarez, que utilizou sua própria propriedade para estruturar o projeto.

A iniciativa é um sucesso. Todos os processos de fabricação já foram testados e várias teses de mestrado e doutorado comprovam sua viabilidade. “Nosso problema é só lutar com o governo para liberar a produção de álcool combustível para o pequeno produtor. Já dominamos bem a tecnologia. Agora é apenas uma questão política”, reforça o engenheiro, que também é pesquisador do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Hoje, o custo do litro de álcool produzido na propriedade de Juarez sai por R$ 1. Em postos de gasolina custa, em média, R$ 2,50.

Roberto Simões: “Não é possível exercer qualquer atividade sem estar conectado com a sustentabilidade” - Imagem: Alexandre Mota


Sistema Faemg

É composto pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar Minas), o Instituto Antonio Ernesto de Salvo (INAES) e os Sindicatos dos Produtores Rurais. Mais de 400 mil produtores são beneficiados pelas ações do Sistema Faemg em todo o estado.


Fique por dentro

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome há dois anos. Entre 1990 e 2014, o número de brasileiros em situação de subalimentação caiu 84,7%. O apoio à agricultura familiar, por meio do acesso ao crédito e assistência técnica, além do benefício de prestação continuada, foram essenciais para alcançar esse objetivo. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que, em 2050, o Brasil terá mais de 226 milhões de habitantes, um crescimento de 9%. Por isso, aliar produção alimentar e sustentabilidade será um desafio enorme.


Saiba mais

www.sistemafaemg.org.br

 

 

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