Quinta, 11 de agosto de 2016

S.O.S Atlântico

Mais recente “Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica” recoloca Minas Gerais pela sexta vez no topo da lista de estados que mais (des)matam o bioma

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Desmatamento ilegal da Mata Atlântica em Minas Gerais - Imagem: Wellington Pedro/ImprensaMG

Desmatamento ilegal da Mata Atlântica em Minas Gerais - Imagem: Wellington Pedro/ImprensaMG

Quando nasci, há 37 anos, Minas Gerais era mais verde. Com a licença poética de Gonçalves Dias, Drummond e Cora Coralina, minha terra tinha mais buritis, onde cantavam os sabiás. Minha terra tinha mais água, e perto dela tudo era feliz. E meu povo preferia ter 100% de consciência ambiental no coração e na alma aos 100% de ferro ou aço que hoje têm os machados e motosserras (e as mentes insustentáveis) que dilaceram as árvores de nosso estado.

Foi com menos esperança nos passos e mais tristeza nos ombros que todos nós, mineiros e brasileiros, recebemos a notícia de que Minas voltou a liderar a lista de estados que mais desmatam a Mata Atlântica. Simples assim. E tão doloroso quanto.

Toda a destruição dos remanescentes do bioma que sofridamente ainda pinta de verde a “caixa d’água do Brasil”, depois da queda nos níveis de desmatamento registrada no período 2013/2014, novamente veio fazer parte da realidade do nosso ser e viver mineiros. É o que apontam os novos dados do “Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica”, produzido pela Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), que abrange 2014/2015.

O estudo mostra que, no período, 18.433 hectares, ou 184 km², de remanescentes florestais nos 17 estados da Mata Atlântica foram desmatados - um aumento de 1% em relação ao período anterior (2013-2014), quando foram registrados 18.267 ha. Este 1%, no entanto, não é pouca coisa: é o mesmo que 184.330.000 m2 ou mais de 25.800 campos de futebol!

Em Minas Gerais, 7.702 hectares de área verde atlântica foram ceifados, índice 37% maior do que o registro anterior. Estão incluídos neste número as consequências da maior tragédia socioambiental da mineração brasileira: o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em 05 de novembro passado. Na cidade histórica de Mariana, que teve vários distritos soterrados, dos 258 hectares de Mata Atlântica devastados, 65% deles (169 ha) foram destruídos pela lama.

Durante a visita do ministro de Meio Ambiente, Sarney Filho, a Mariana no início de junho – também registrada na edição anterior da Revista Ecológico - a Fundação SOS Mata Atlântica entregou relatórios de desmatamento do município e da qualidade da água do Rio Doce ao ministro e ao prefeito da cidade, Duarte Júnior, além de outras autoridades locais. Os mapas mostram que o rompimento da barragem foi o maior desastre ambiental já ocorrido na Mata Atlântica mineira.

II Encontro dos secretários de Meio Ambiente dos estados abrangidos pela Mata Atlântica contou com a participação do ministro Sarney Filho - Imagem: Capim Filmes/SOS Mata Atlântica

Em nota enviada à Ecológico, a Semad afirmou que “o desmatamento da área remanescente da Mata Atlântica, em Minas Gerais, é apurado pela SOS Mata Atlântica e pelo Inpe com metodologia própria. Minas é o estado que possui a maior área remanescente de Mata Atlântica do país”.

Sobre as medidas adotadas para reduzir o desmatamento no bioma, a secretaria destacou “o fomento florestal para a recuperação das áreas degradadas e a fiscalização ostensiva para coibir o desmatamento ilegal. No ano de 2015, a Semad realizou grandes operações especiais tendo como foco as intervenções sobre florestas nativas, a fim de frear o desmatamento na Mata Atlântica”. E que está “permanentemente atenta à questão do desmatamento do bioma, implementando ações que objetivam não somente coibi-lo mas também recuperar as áreas
já devastadas”.

Panorama nacional

O desmatamento do bioma, que hoje só tem 12,5% de sua cobertura vegetal original, aumentou em todo o país. Fora dos limites de Minas, o Atlas reforça que a devastação vem dando passos largos em alguns locais. Mas também há boas notícias.

“Em termos gerais, os dados mostram pontos de atenção neste último período. Houve uma queda no número de estados no nível do desmatamento zero e um aumento total de 1% do desmatamento no país, em comparação à queda de 24% no período anterior. Isso mostra que é preciso reforçar as políticas de proteção do bioma, em compromissos como o que firmamos com os secretários de Meio Ambiente dos 17 estados [leia mais a seguir]. Esta e outras ações fazem parte de uma agenda estratégica para evitar retrocessos na conservação dos 12,5% de Mata Atlântica que ainda restam no país”, afirma Marcia Hirota, diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica.

A vice-liderança do ranking ficou com a Bahia, berço do Brasil, com 3.997 hectares desmatados, 14% a menos do que o período anterior. Já Piauí, campeão de desmatamento do período 2013/2014 caiu para o terceiro lugar após reduzir o  índice em 48% (de 5.626 ha para 2.926 ha).

Márcia Hirota: "É preciso evitar o retrocesso" - Imagem: Gustavo Pedro

O município de Alvorada do Gurguéia (PI) foi o responsável pela maior área verde destruída entre todas as cidades do Brasil. No período analisado, foi identificada uma redução florestal de 1.972 hectares. Baianópolis (824 ha) e Brejolândia (498 ha), ambas na Bahia, vêm logo atrás, com as mineiras Curral de Dentro (492 ha), Jequitinhonha (370 ha), Águas Vermelhas (338 ha), Ponto dos Volantes (208 ha) e Pedra Azul (73 ha) na sequência.

O estado que registrou maior porcentagem de crescimento da área desmatada foi Paraná, com assustadores 116%. Saltou de 921 hectares destruídos para 1.988 ha na última atualização da SOS Mata Atlântica e do Inpe.

O Atlas ainda revela outras informações preocupantes. As florestas com araucária voltaram a ser derrubadas, sendo 89% (1.777 ha) do total de desflorestamento apenas no Paraná. Hoje, 3% das florestas que abrigam a Araucaria angustifolia, espécie ameaçada de extinção conhecida também como pinheiro brasileiro, continuam em pé.

Quando o assunto são as áreas de mangues, Santa Catarina capitaneou a destruição com quatro hectares dilacerados. Já a supressão de vegetação de restinga foi de 680 hectares em todo o país, com Ceará repetindo a liderança (336 ha). Piauí (224 ha), Santa Catarina (55 ha), Paraíba (49 ha), Paraná (12 ha) e Rio Grande do Norte (4 ha) engrossam a fila de desmatadores.

Desmatamento zero

Na edição anterior do Atlas, nove estados haviam conquistado o nível de desmatamento zero (menos de 100 hectares de desflorestamento). Na versão atual, foram sete: São Paulo (45 ha), Goiás (34 ha), Paraíba (11 ha), Alagoas (4 ha), Rio de Janeiro (27 ha), Ceará (3 ha) e Rio Grande do Norte (23 ha).

A meta do desmatamento zero no bioma foi reforçada durante o “Viva a Mata 2016”, evento realizado pela SOS Mata Atlântica no Rio de Janeiro (RJ) e integrado pelo “II Encontro dos Secretários de Meio Ambiente dos Estados da Mata Atlântica”.

Com a incorporação de representantes de Goiás e Mato Grosso do Sul, foi criada a carta “Nova História para a Mata Atlântica”, agora com a assinatura de 17 secretários e representantes de estados abrangidos pelo bioma, em um compromisso coletivo que prevê a ampliação da cobertura vegetal nativa e busca do desmatamento ilegal zero no bioma até 2018.

“Esta meta serve de exemplo para que a gente antecipe também compromissos firmados em Paris, buscando metas mais ambiciosas”, ressaltou o ministro de Meio Ambiente, Sarney Filho, que também participou do evento.

Segundo a carta, “após cinco séculos tratada a ferro e fogo, a pretexto de um desenvolvimento que nem sempre veio, a floresta que deu nome ao Brasil está pronta para contar uma história diferente. E nós, secretários de Meio Ambiente dos Estados da Mata Atlântica, queremos ser protagonistas desse compromisso em prol do bioma, um patrimônio nacional”.

E completa: “A sociedade brasileira não aceita mais o desmatamento como o preço a pagar pela geração de riqueza. Ao contrário: como descobriram os habitantes da Região Sudeste, a perda das florestas e dos serviços que prestam, como a conservação de recursos hídricos, tem impacto negativo e direto sobre a qualidade de vida dos moradores das cidades. Considerando que 72% dos brasileiros habitam a região originalmente coberta pela Mata Atlântica, preservar o que restou e restaurar o que se perdeu tornou-se uma questão de sobrevivência. E uma agenda estratégica para o país”.

O documento destaca alguns caminhos para que a meta de zerar o desmatamento no bioma nos próximos dois anos. Entre elas, o pleno atendimento jurídico da Lei da Mata Atlântica (11.428/2006), por meio da criação e execução dos Planos Municipais de Mata Atlântica, assegurando a proteção dos remanescentes. Ainda há a restauração de cerca de 20 milhões de hectares desmatados ilegalmente, como prevê o Código Florestal.

“O compromisso firmado consiste em implementar essas duas leis nos nossos estados, coibindo o desmatamento e disseminando o Cadastro Ambiental Rural e os Planos de Recuperação Ambiental”, atestam os secretários, citando a moratória ao desmatamento implementada há três anos em Minas Gerais como exemplo encorajador.

“Mas é preciso ir além de medidas de comando e controle: devemos usar mecanismos financeiros já existentes para bancar a conservação: usar os fundos estaduais e os de compensação ambiental; estimular a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), já que 80% da Mata Atlântica estão em áreas privadas; e implementar urgentemente incentivos previstos no Código Florestal, como o pagamento por serviços ambientais.”

Como termina a carta, é preciso coragem e vontade política para inaugurar esse novo capítulo na trajetória da Mata Atlântica. E transformar o passado de cinco séculos de destruição para que nos próximos cinco ela esteja aí, viva e verde, e cheia de histórias para contar. Com mais buritis, para cantarem os sabiás. Com 100% de amor à natureza nas mentes e corações. E terra com muita água, pra gente ser feliz.

 

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