> Edições Anteriores > Pelo verde do Rio Doce > MARIANA: O DEBATE CONTINUA

Quinta, 11 de agosto de 2016

“É preciso ter serenidade”

Vitor Feitosa (*)



font_add font_delete printer

A primeira ação a se fazer depois de um acidente como o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão é dar assistência emergencial às vítimas e socorrer os sobreviventes. Isso foi feito pela Samarco. A empresa, junto com o Corpo de Bombeiros e Defesa Civil, atuou até que os sobreviventes fossem recuperados e os corpos daqueles que infelizmente faleceram, resgatados.

A segunda ação é cuidar das pessoas que perderam seus bens materiais, primeiro dando a elas um local para ficarem. Isso foi feito por meio da ocupação de hotéis, imóveis alugados. Depois, uma nova moradia em local definitivo e escolhido com a participação dos que sofreram as consequências do acidente. Isso também foi feito.

Em seguida, a questão que fica é: o que provocou o acidente? Isso é fundamental de se entender até como forma de prevenir outras tragédias. Para isso fazemos um paralelo com os acidentes de aviação, que normalmente têm maior impacto para as vidas humanas. Em tragédias aéreas, as causas identificadas induzem a mudanças tecnológicas replicáveis inclusive nas aeronaves em operação, tornando o ato de voar ainda mais seguro. No caso de Mariana, a investigação do acidente deve levar a um melhor entendimento do que saiu errado para fortalecer a tecnologia de construções semelhantes no futuro e corrigir os problemas das atuais.

Quanto à Samarco, há uma tremenda confusão entre o acidente, que tem causas concorrentes e responsáveis (aos quais devem ser imputadas as penas), com a empresa em si. Ela não é uma personalidade independente, com vontade própria. Ao impedi-la de seguir com suas atividades, está se confundindo o processo de identificação das causas e responsáveis com a necessidade de a empresa continuar a operar. O impacto que isso está provocando já está sendo muito maior do que o acidente em si. Estamos falando, de imediato, de mais de quatro mil empregos, diretos e indiretos. E dos impostos coletados para cidades como Mariana (MG) e Anchieta (ES), que já começam a viver situação de penúria. Tornaram-se importantes polos regionais de educação e saúde, e agora perdem sua capacidade de continuar dando sustentação a esses programas. Perde também o Brasil - pois a mineração compõe uma parte importante da pauta de exportações e do PIB do país, dos dois estados e seus municípios.

A forma como o processo da Samarco vem sendo conduzido está gerando reações descontroladas dos órgãos fiscalizadores, tanto ambientais quanto de mineração, dos quais a sociedade espera um mínimo de adequabilidade e não uma reação para justificar aquilo que não fizeram antes. Seguem aplicando multas por não entenderem que a empresa está catatônica, morta, no sentido de não conseguir gerar renda. Aquele caixa que a empresa tinha antes do acidente está acabando. Com ele termina sua capacidade de manter os empregos, os impostos e a riqueza que gerava.

O objetivo da empresa, com o plantio de 16 espécies diferentes de gramíneas e leguminosas aprovadas pela Semad, é  evitar o carreamento dos sedimentos depositados nas margens dos cursos d´água, como em Barra Longa. Tal como a revegetação emergencial, ao lado, implantada nas margens do Rio Gualaxo do Norte

O Ministério Público, que dá à sociedade esperança de tempos melhores com a resposta e atuação positivas que se esperam dele no caso da Operação Lava Jato, é a mesma instituição que nos traz desesperança ao obstruir o avanço de acordos que foram bem discutidos e têm o aval de governos e da sociedade, e que já haviam sido homologados na Justiça. Os acordos urgem e a sociedade depende da atividade da empresa.

O que está sendo impedida, na verdade, é uma atividade econômica nobre, absolutamente legalizada, de uma empresa que sempre foi uma referência em tudo que fez, principalmente na relação com a sociedade e o meio ambiente, mas que cometeu um erro. Com sua ação, o MP condena, literalmente e sem possibilidade de julgamento, uma sociedade inteira ao redor da empresa a simplesmente viver em condições muito piores que viviam antes.

O Ministério Público tem uma responsabilidade decisiva, pois sua atuação inibe a ação dos técnicos dos órgãos fiscalizadores, que se mostram amedrontados e inoperantes. A repercussão nacional e internacional desse tipo de acontecimento faz com que a instituição tenha muito mais responsabilidade no trato da questão, ao ter que diferenciar entre os agentes responsabilizáveis e a preservação dos interesses da comunidade que depende da atividade da empresa.

A questão é que o processo todo virou um show de irresponsabilidades por parte de todos os atores intervenientes. E a maior delas é impedir que uma empresa saudável, lucrativa, com um mercado conquistado a duras penas ao longo de 40 anos, simplesmente morra, comprometendo a própria competitividade do país, que já não anda lá essas coisas.

Quem gerou o problema foi a própria Samarco. E ela tem condições de quitar essa dívida se voltar a operar, pois é uma empresa séria. Isso é essencial para que haja geração de recursos para pagar as reparações que estão sendo exigidas.

O que todos esperamos é que haja um aprendizado e não a fuga de responsabilidades ou a busca de holofotes. Parar a Samarco não vai resolver o problema. Com isso, se cria outro maior. No momento econômico crítico, ético e moral que o país atravessa, é preciso ter serenidade.

(*) Presidente do Conselho de Administração da AGB Peixe Vivo.


Confira abaixo a reportagem completa:

1. O fim (ou salvação) das Minas Geraes?

2. Para compensar o maior acidente do mundo...

3. “A Samarco voltará a ser referência”

4. “É preciso ter serenidade”

5. “A Samarco está fragilizada”

6. "Antes que a tragédia se esvaneça"

7. Minerodutos: o debate continua

 

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário
Outras matérias desta edição