Quinta, 18 de agosto de 2016

A comunicação sustentável

Em palestra que marcou o lançamento do VII Prêmio Hugo Werneck, a empreendedora e ambientalista Christina Carvalho Pinto apontou o novo papel dos profissionais de mídia, empresários e gestores em tempos de mudanças climáticas

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Christina Carvalho:

Christina Carvalho: "Nas empresas, não somos treinados para entender a interrelação que a sustentabilidade propõe. Se eu estou desplugado de mim, como posso estar interligado ao outro, à vida, ao todo que nos cerca?” - Imagem: Alessandro Carvalho

Se você perguntar a Christina Carvalho Pinto qual é a sua profissão, não espere que ela afirme ser publicitária. Ainda que sua trajetória profissional de quase três décadas a tenha consagrado no universo da propaganda, do marketing e da publicidade, hoje ela prefere ser chamada de “empreendedora e ambientalista”. E tal definição não surgiu da noite para o dia.

Diariamente trabalhando com sustentabilidade, marcas, inovação e comunicação criativa, Christina, paulista de Dois Córregos (mas mineira de coração), percebeu que o mundo corporativo precisava de uma reinvenção. E isso só aconteceria, defende ela, com uma mudança de mentalidade e comportamento tanto das empresas quanto dos consumidores, face ao estado insustentável e climático do mundo.

Em um mercado dominado pela essência do lucro pelo lucro, ela decidiu, de forma visionária, liderar uma revolução sustentável. E, com isso, vem disseminando uma visão mais integrada do ser humano e da natureza que ainda resta à nossa volta.

Essa foi a lição que fez com que mais de 120 jornalistas, publicitários, empresários e políticos fossem ao auditório da nova sede da Fiemg, na capital mineira, para assistir à sua palestra. Presidente e sócia do Grupo Full Jazz, de São Paulo, considerado pela Fundação Dom Cabral como o melhor exemplo de inovação empresarial do país, Christina é vencedora de grandes prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, o de “Profissional da Década”, concedido pela Abracomp, e o Leão de Cannes. 

Considerada em votação aberta pela internet “a Profissional com maior significado para a Criação Publicitária no Brasil nos últimos 20 anos”, ela foi a primeira a abraçar e promover a causa da sustentabilidade em agências de publicidade e empresas, o que lhe rendeu o título de “Dama da Comunicação”. No evento em BH, promovido pela Revista Ecológico com o apoio do Sindiextra, ela abordou o papel dos profissionais de mídia, políticos, empresários e gestores ambientais em tempos de aquecimento global e mudanças climáticas.

“Se a crise é geral, em vez de entrarmos em depressão, devemos perceber que há uma convergência de fatores em que o próximo passo é a mudança positiva. O mundo corporativo só pensa em ‘o quê’, que é bater a meta no fim do mês. Acontece que, entre 'aqui' e o 'ali', tem o ‘como’. E sustentabilidade é isso”, disse ela.

Christina destacou a necessidade dos novos líderes se sentirem integrados ao todo para entenderem que cada passo, cada tomada de decisão, constrói e preserva a natureza ou destrói o meio ambiente à sua volta. Praticante de ioga, meditação e artes marciais há 40 anos, ela ressaltou que o grande segredo é adotar a sustentabilidade como missão.

“A nossa alma precisa se alimentar diariamente do bom e do belo, das flores e das cores da natureza. Sustentabilidade é o resultado de um sentimento de apreciação. Grandes líderes são grandes guerreiros. São aqueles que se expressam em qualquer monte”, pontua a empreendedora.

Modelo falido

Com sua força para regar qualquer deserto, Christina defende que o sistema produtivo humano é um bolo com camadas, em que a base inferior, e vital, é a natureza que sustenta tudo. “O atual modelo econômico e financeiro está falido. Ele contribuiu para a destruição do meio ambiente e agora teremos de atravessar o caminho do sofrimento de forma construtiva. O ser humano criou esse caminho. Agora é preciso transformá-lo. Estamos imersos em um sistema que comanda cenários de alta destruição, que contribui para o aquecimento global e as mudanças climáticas. Mas há uma coisa que comanda todos os sistemas, que é nosso nível de consciência. E já existe uma nova humanidade consciente mostrando que a integração com a vida natural que preserva é o caminho para reconstruirmos um novo e comum futuro.”

A seguir, a Ecológico separou mais trechos da palestra de Christina Carvalho Pinto. São pílulas de sabedoria que devem ser refletidas, sentidas e replicadas, na medida em que estamos todos num mesmo e frágil barco, sobre uma água que vem esquentando cada vez mais com as mudanças do clima. Boa leitura!

 

Sustentabilidade

“Sustentabilidade é amor, é o resultado de um sentimento de apreciação. Não só pela vida, pela família, os amigos. Mas de consideração pela vida de cada um – de todos e do todo. Se eu sentir isso dentro de mim, naturalmente não preciso ir a palestra nenhuma. Vou me sensibilizar naturalmente e encontrar maneiras de viver que não firam esse sentimento.”

 

 Ser afetivo

“O filósofo Alfeu Trancoso afirmou, em um texto publicado na Revista Ecológico, que ‘o homem não é apenas racional, mas relacional e dialogal’. Concordo. Para mim, tudo está interligado. Toda e qualquer forma de vida interfere nas outras. Sustentabilidade também é entender que o ser humano vai muito além do cognitivo, que é ser afetivo e cooperativo.”

 

Marcas

“À medida que as marcas forem aprendendo que devem ser afetivas, elas serão verdadeiras vacinas contra a destruição ambiental. Farão questão de representar empresas que prestam atenção na sua cadeia produtiva, com o que elas fazem com o meio ambiente e, inclusive, com a ecologia interior humana.”

 

Natureza

“A delícia de fazer parte da natureza, perceber o quanto somos natureza, pode mudar muita coisa dentro de nós. Quando isso acontecer, nossos problemas estarão resolvidos. A nossa alma precisa diariamente se alimentar do bom e do belo, das flores, das cores da natureza. Sem esse caldo, a nossa alma adoece.”

A comunicadora foi capa da Ecológico em abril de 2012

Crises

“Toda crise vem dessa desvinculação do que de fato somos a natureza. O planeta está crítico, o sistema político também. O corporativo idem. Se a crise é geral, em vez de entrarmos em depressão, devemos perceber que há uma convergência de fatores em que o próximo passo é a mudança positiva. O mundo corporativo só pensa em ‘o quê’, que é bater a meta no fim do mês. Acontece que, entre o 'aqui' e o 'ali', tem o ‘como’. E sustentabilidade é isso.”

 

Autodomínio

“Pratico artes marciais há 40 anos e, para isso, também é preciso ficar em silêncio, meditar. Quando se faz isso, você passa a conhecer a sua própria natureza. Ao respirar, nos concentramos e conseguimos até mapear os pensamentos, ter controle sobre eles. Aí percebemos que 80% deles não servem para nada: é mágoa de alguém, raiva, dor, tensão... Se não controlarmos nossa mente, ela estará na mão de outra pessoa. A mente é um cavalo, mas nós somos os cavaleiros. Sem rédea e controle, ela sai tresloucada por aí.”

 

Lucro x crenças

“Há seis anos, uma pesquisa realizada com presidentes de empresa revelou que 90% deles acreditavam que as questões de sustentabilidade deveriam estar integradas às estratégias das operações de suas empresas. Hoje, o que se percebe é que, quando a crise vem, os profissionais de sustentabilidade, meio ambiente e comunicação são os primeiros demitidos.”

 

“Quando ficamos mais velhos, jogar pedra é a parte mais fácil de se fazer. Mudar é muito difícil. A Fundação Dom Cabral fez um estudo anos atrás e isso gerou um livro, ‘A (in)felicidade dos executivos’. Nessa pesquisa, foi constatado que 87% deles estavam infelizes e, 13%, felizes no mundo corporativo. Mas, ao fazer uma análise mais aprofundada, descobriu-se que esses 13% estavam muito mais infelizes do que os 87%. Além da infelicidade crescente, eles tinham a sensação de que as coisas estavam desalinhadas dos seus valores mais íntimos, das crenças. E ainda havia outro agravante: CEOs sobre isso. São pagos para disseminar o que é a missão, a visão e a proposta tão somente da empresa. Não há espaço para expor os seus verdadeiros sentimentos diante do que acabam fazendo, direta e indiretamente, com a natureza que os provê de matéria-prima. Eles são muito bem remunerados para não fazerem isso.”

Logo após a palestra de Christina Carvalho e o lançamento do prêmio, mudas de maracujá-doce (Passiflora edulis Sims) foram distribuídas ao público - Imagem: Alessandro Carvalho

Propaganda

“A velha propaganda está morta. Ela não conversa mais com os seres humanos. Não está interessada em ser um mecanismo para a ampliação da nossa consciência e mudança de visão de mundo.”

 

Mídia

“A mídia estimula o descolamento, a de que cada um é único e não tem nada a ver com o outro. Desde que eu tenha o carro da moda, a loira da vez e o cara de barriga tanquinho, estou resolvida. Essa mediocridade é permanentemente regada com duas palavras: tragédia e vulgaridade.”

 

“A mídia está nos alienando. Está tirando o nosso direito de entender que há uma nova humanidade, uma nova era, com empreendedores e tecnologias. Eu não aceito que me tornem alienada. Tragédias acontecem, mas maravilhas também.”

 

“A mídia sustentável, que promove valores e crenças, que enxergam o ser humano e a natureza de forma positiva, reconstrói e resgata a autoestima, as nossas raízes culturais. Traz acesso ao conhecimento, expansão da consciência e vivência da cidadania. O que a mídia deve fazer é criar novas imagens de esperança, para que as pessoas sejam protagonistas. Para isso, também devemos parar de assistir, ler e compartilhar conteúdos que violam nossa essência e valores como pessoas.”

Somos todos responsáveis pelos horrores com que a mídia lambuza, todos os dias, nossos olhos, nossos ouvidos, nossa alma. Temos que sair do papel passivo de audiência para o papel ativo de cidadãos que, de fato, escolhem conscientemente o que querem ver e ouvir. E contribuirmos, enfim, para a criação de uma mídia mais criativa, inspiradora e elevada.”


Depoimento verde

“Sou uma grande admiradora da Revista Ecológico. Sou leitora e colecionadora da revista há anos. É um conteúdo único e tem uma característica particular que todos nós conhecemos na linguagem da comunicação. Ao mesmo tempo em que é muito sofisticada na sua abordagem, porque traz informações com urgência e relevância grande, ao mesmo tempo é palatável. Todo mundo pode ler a Ecológico. E isso mostra que os temas mais complexos, quando na mão de gente com qualidade, se simplificam. É com simplicidade que teremos de encarar esse desafio tremendo que são as mudanças climáticas. E com o qual teremos de conviver e deveremos ser coautores em termos de solução.”


Compromisso mútuo

"Mais uma vez nos reunimos, com muita alegria e esperança, para fazermos o lançamento do 'Prêmio Hugo Werneck', cujo objetivo é homenagear aqueles que destacam na luta em prol do bem e da vida. Podemos resumir essas duas palavras, de significados tão vastos, em uma só: 'sustentabilidade'!

Hugo Werneck muito amou e praticou a sustentabilidade em seu viver e, com todos os méritos e honra, empresta seu nome ao prêmio.

Já em sua sétima edição, a iniciativa do jornalista Hiram Firmino conta com a nossa coparticipação e integral apoio.

As causas ambientais nos movem e nos envolvem. Por esse motivo é que integramos os conselhos Curador da Fundação Biodiversitas e Editorial da Revista Ecológico.

Sustentabilidade e mineração guardam conceitos distintos mas não podem caminhar isoladamente. E é a luta que travamos a cada dia para que elas não se dissociem, mas se unam para que haja o desenvolvimento, o progresso, o bem estar, a segurança, o crescimento pessoal e o de toda a sociedade.

Desejando sucesso à sétima edição do prêmio e asseguro a todos a nossa proposta de firmarmos uma parceria porque estou ciente do compromisso que têm com a causa ambiental.

É nosso propósito sempre ajudar e apoiá-los na concretização desses objetivos porque eles também são os nossos."

José Fernando Coura, presidente do Ibram e do Sindiextra


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Lançamento Ecológico

 

 

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