Terça, 19 de julho de 2016

“Temos de descarbonizar a economia”

Entrevista com Ricardo Abramovay, economista e escritor

Paulo Coutinho - Colaboração de Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Abramovay: “Negar as mudanças climáticas não é um ponto de vista inocente e sim fomentado por empresas fósseis”

Abramovay: “Negar as mudanças climáticas não é um ponto de vista inocente e sim fomentado por empresas fósseis”

Na avaliação do filósofo, mestre em Ciência Política e doutor em Sociologia Ricardo Abramovay, repensar o sistema econômico atual é o grande desafio do Brasil e do mundo para atingir a sustentabilidade. Nesta fase de transição para uma economia de baixo carbono, ainda falta para ambos integrar este sistema de forma mais orgânica à qualidade de vida e à ética, por meio de uma nova revolução sustentável ao se produzir bens e oferecer serviços. Ele reforça que apenas reconhecer a importância das inovações tecnológicas na economia verde não resolverá os problemas socioambientais que assolam o século XXI. Para isso, propõe a descarbonização da economia e também lança uma reflexão sobre a chamada “psicologia climática”, que impede as pessoas de perceberem as evidências científicas para, de fato, atuar propositivamente contra as alterações do clima e o aquecimento global. “Se os gases de efeito estufa tivessem cor ou cheiro, nunca teríamos chegado onde estamos, porque a indignação contra eles seria mais rápida. E os resultados também”, ressalta.

Nesta entrevista exclusiva à Revista Ecológico, o autor dos livros “Muito Além da Economia Verde” e “Lixo Zero: Gestão de Resíduos Sólidos”, prefere ser realista em relação ao futuro que nos aguarda. “Vamos viver em um mundo mais quente e teremos de nos adaptar ao que está vindo. Não antevejo uma vida miserável, mas sim uma em que as virtudes comuns terão de ser mais cultivadas.”

Confira:

Quais os impactos que o quinto relatório do IPCC provocou na comunidade científica e que influência ele trouxe para sociedade, principalmente para os céticos?

Na verdade, os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) não trazem nada de novo com relação àquilo que a comunidade científica faz e sabe, mas são uma síntese mais didática possível. Dos artigos publicados de 1990 para cá, pouco mais de 2% negam a existência do aquecimento global ou a sua natureza antrópica. Isso significa que a maioria da comunidade científica converge no sentido de mostrar que o mundo que estamos está passando por uma mudança climática. Que ela é causada pelo homem e representa riscos imensos para o futuro da civilização e do meio ambiente.

Há como reverter isso?

Mesmo que as emissões de gases de efeito estufa, por um milagre, fossem interrompidas hoje, aquilo que está acumulado na atmosfera é suficiente para provocar mudanças durante séculos, ou até milênios, em todo o planeta. Somos uma espécie que exerce influência biológica sobre a Terra, pela própria relação que temos com o mundo natural. Desde a revolução neolítica, há dez mil anos, a humanidade tem desmatado florestas. Agora, também representa uma força geológica. Nunca anteriormente as ações humanas tinham sido capazes de alterar não só o clima mas a era geológica que estamos passando.

Qual é o grande paradoxo que vivemos hoje?

O contraste e o acúmulo de evidências no sentido de que existem mudanças climáticas e elas são de origem antrópica. Esse contraste “ciência-opinião pública” é um dos temas de pesquisa mais fascinantes. As pessoas não se dobram às evidências científicas.

 

Esse contraste é interessante para a sociedade?

Sim. E ele é chamado de “psicologia climática”. Há uma série de estudos que vêm sendo feitos tentando listar e compreender os fatores psicológicos que impedem as pessoas de aceitar essas evidências científicas. Alguns deles são intuitivos: se os gases de efeito estufa tivessem cor ou cheiro, nunca teríamos chegado onde estamos porque a indignação contra eles seria mais rápida. Em segundo lugar, é a mente humana.

 

Como assim?

O Banco Mundial divulgou recentemente um relatório chamado “Mente, Comportamento e Sociedade”. Por que ele se voltou para um estudo da mente? Porque a maneira que os economistas habitualmente concebem o comportamento humano é irrealista: faz abstração da sociedade e da psicologia. O relatório mostra a nossa capacidade de compreender o mundo, a nossa mente, que se caracteriza por uma espécie de “curto-prazismo” e um conjunto de reações automáticas em que a compreensão de fenômenos complexos como as mudanças climáticas é muito difícil. Além disso, tem uma dimensão cultural. Os estudos mostram que aceitar a existência das mudanças climáticas é ter de mudar o modo de vida. Isso nos EUA atenta contra a liberdade individual. Ou seja, quem tem de decidir meu modo de vida sou eu, não nenhuma autoridade. Há uma parcela da população e da opinião pública que adere às teses negacionistas mostrando que é muito mais sacrificado continuar do jeito que estamos do que enveredar pelo caminho de mudança que vem sendo proposto. Do ponto de vista da psicologia humana, você sempre prefere o conhecido, principalmente quando fica mais velho.

“O Brasil vive entorpecido pela ideia de que fazer hidrelétrica na Amazônia e furar milhares de metros para descobrir petróleo é o suprassumo da modernidade.” - Imagem: Regina Santos

Os negacionistas aproveitam disso para conspirar contra a comunidade científica?

Eles não publicam artigos porque as suas ideias não passam pelo crivo da comunidade científica. Alguns dizem que existe uma conspiração porque ela está sendo financiada para desprestigiar os EUA, o que é uma ideia descabida. Os negacionistas publicam muitos livros e a maioria deles são patrocinados por interesses. Negar as mudanças climáticas não é um ponto de vista inocente e sim fomentado por empresas fósseis, da mesma forma que as de tabaco afirmavam que o vínculo entre o cigarro e a ocorrência de câncer era uma ideia estapafúrdia durante muitos anos.

 

 A descarbonização significa o fim da era do petróleo?

A base da sociedade moderna é o petróleo. Ele tem um poder energético imenso, é difícil encontrar algo com tanta força assim. Para se ter ideia, uma colher de petróleo tem energia correspondente a oito horas de trabalho humano! Graças a essa fonte de energia foi possível transformar a agricultura contemporânea, massificar a produção, do qual teria sido impossível passar dos 800 milhões de habitantes, que éramos na época da Revolução Industrial, para os mais de sete bilhões de seres humanos que somos agora.

 

O carvão também não foi fundamental para a produção de energia?

Sim. Os países desenvolvidos se desenvolveram com base na energia oferecida por esses dois “escravos baratos”. Além da produção de energia, ainda há uma produção adicional que é a de gasolina para movimentar os automóveis a partir dos anos 1920. Foi o que permitiu a revolução completa no próprio conceito de mobilidade baseado no automóvel individual. Então, nesse sentido, emissão de gases de efeito estufa é a contrapartida de um conjunto de comodidades básicas da vida moderna das quais é perfeitamente natural que as pessoas não queiram abrir mão.

 

É um contraste danoso, não?

Até alguns anos atrás, esse contraste entre os efeitos danosos daqueima de combustíveis fósseis e o conforto que o seu uso traz para as pessoas era incontornável. As alternativas eram muito poucas. E o discurso ambientalista tinha de acentuar muito mais o lado negativo das mudanças climáticas do que o das perspectivas. Isso mudou muito por conta da pesquisa científica e de suas aplicações tecnológicas. A era digital e a economia da informação em rede permitiram as nanotecnologias e um avanço sobretudo em energias solar e eólica, que abrem caminho para descarbonizar a matriz energética. O carro elétrico é um exemplo.

 

E no que se refere à matriz de transporte?

O automóvel tradicional levou a sociedade a um estrangulamento insuportável. Hoje, sobretudo nos países em desenvolvimento, é o contrário da finalidade de função ao qual é oferecido, que é a mobilidade. Os carros representam uma força para as pessoas. As cidades passam a se organizar em função deles, que é uma grande operação de enxugar gelo. É preciso dispor de meios de transporte públicos de boa qualidade. Ainda bem que a aspiração dos jovens por bens como um automóvel, quando entram na vida adulta, não é mais como antes.

 

As tragédias ambientais são próprias do mundo capitalista?

Não. Os grandes desastres ambientais contemporâneos ocorrem também, por exemplo, no mundo socialista. A ideia de que o não capitalismo pudesse ser menos predatório não bate com os fatos. É o caso da China, que cresceu economicamente de forma ambientalmente predatória. A questão é que nas sociedades contemporâneas os interesses consolidados em torno não só da economia fóssil, mas da maneira de produzir e distribuir energia, são tão fortes que há dificuldade em combatê-los. O mundo continua subsidiando de maneira pesada os combustíveis fósseis, produz de 70 a 80 milhões de carros por ano e os sistemas elétricos contemporâneos continuam obedecendo as mesmas leis.

 

Que esperança devemos ter então?

Não é dizer “vamos mudar de regime capitalista para socialista, desapropriar ou nacionalizar essas grandes empresas para elas obedecerem ao interesse social”. Não adianta fazer isso se o modo de operar continua o mesmo. Às vezes, as pessoas dizem que quando se afirma que existem tecnologias renováveis ou formas descentralizadas de se produzir energia, se está dando ênfase em uma solução técnica. Isso não é verdade. Para essa solução se massificar, ela vai exigir uma mudança tão importante na maneira de organizar bens e serviços que corresponderá a uma espécie de revolução. Isso já está começando a ser vivido no campo da eletricidade, onde as grandes centrais elétricas começam a se sentir ameaçadas pelo processo de descentralização decorrente da autoprodução de energia.

 

O que essas empresas terão de fazer?

Se reinventar ou, então, estarão fadadas a desaparecer. O mais importante é localizar o tipo de demanda social e o que ela pode representar de avanço em relação à democracia e à justiça. Um exemplo é o que acontece hoje com os gigantes da internet. O mundo nunca teve condições tão propícias quanto agora para estimular a colaboração social, em que cada um de nós dispõe de um objeto cujo poder computacional é totalmente descentralizado. As empresas precisam se perguntar se estão realmente cumprindo uma função social. Elas não podem ser mais apenas instrumentos de obtenção de lucros privados. Hoje existem movimentos que dizem o que as empresas devem aberta e voluntariamente fazer para que a sustentabilidade seja o elemento decisivo para o seu próprio lucro.

 

Os mercados já perceberam a necessidade dessa mudança de pensamento?

Sim. E estão temerosos em relação aos investimentos petrolíferos, por exemplo, porque é perfeitamente possível que haja uma recuperação ou um ganho de bom senso por parte de todos nós. Explorar o conjunto dos recursos fósseis que está na mão dessas empresas significa a destruição do sistema climático, que é o bem mais importante da espécie humana.

 

Há como minimizar os estragos?

Mesmo se todos os países do mundo cumprirem o que prometeram nas últimas conferências do clima, continuaremos no patamar de elevação de temperatura superior a dois graus, que já terá consequências muito graves para a vida na Terra. É muito mais difícil do ponto de vista ético atribuir responsabilidades por um fenômeno desta natureza. Os responsáveis são os que emitem gases de efeito estufa, mas é preciso ter cuidado ao afirmar isso, porque eles emitem para criar produtos que todos nós compramos. Vai dizer que somos assassinos da espécie humana e de outras porque usamos carros? É intuitivo que há exagero nisso. Supor que as mudanças climáticas, para que elas sejam combatidas, implicam transformações nos comportamentos humanos de natureza puramente altruísta é dar um tiro no pé. As chances de que esses comportamentos sejam transformados em um prazo minimamente razoável são muito pequenas. Até porque há uma parte da população que sequer consegue suprir suas necessidades básicas, um problema sério de desigualdade.

“O Cerrado é uma floresta de cabeça para baixo e responde por parte importante do nosso abastecimento de água. Mas ninguém dá bola para ele” - Imagem: Roberto Murta

Qual é o nosso grande desafio então?

Não é imaginar que precisamos convencer as pessoas a renunciar às comodidades que elas desfrutam hoje, e que querem almejar, para poder promover as transformações necessárias a esse novo paradigma civilizacional. Acredito que o nosso desafio é mostrar que a vida sob uma inspiração de combate às mudanças climáticas é melhor do que a vida com mudanças climáticas.

 

Qual é o segredo para que isso aconteça?

A capacidade de oferecer bens públicos e serviços coletivos que são fundamentais para uma melhor qualidade de vida e que as economias contemporâneas não vêm sendo capazes de fazer por várias razões. A primeira delas é que nos países desenvolvidos o resultado dos grandes avanços tecnológicos é o aumento das desigualdades sociais. Nos EUA, o índice de desigualdade é maior do que o da crise de 1929. Isso é muito grave! Exatamente os países que estiveram na vanguarda da construção democrática do século XX são os que passam por uma deterioração de seu tecido social em função da desigualdade. Se não houver um horizonte para enxergar que é possível ter uma vida melhor desfrutando da conivência com os outros e questionando a ideia de que as jornadas de  trabalho têm de ser imensas para você comprar o que precisa, se esse tipo de colocação exacerbar as polaridades inclusive culturais do confronto, dificilmente sairá alguma coisa de construtivo. Se não formos capazes de demonstrar que a vida pode ser melhor com a descarbonização da economia, não ganharemos essa batalha.

 

Você disse recentemente que o Brasil investe 72% em petróleo, 3% em novas fontes e 5% em biocombustível.

Esses dados são anteriores à Operação Lava Jato. Agora eu não sei. Provavelmente devem 2/3 dos investimentos ainda deve ser no petróleo.

 

Qual é a tendência desse tipo de investimento no Brasil?

Se depender das lideranças políticas, governamentais, empresariais e sindicais, vamos continuar neste caminho. O Brasil vive entorpecido pela ideia de que fazer hidrelétrica na Amazônia e furar milhares de metros para descobrir petróleo é o suprassumo da modernidade. Não é. É um atraso. Estamos mergulhados nisso e as reações da sociedade civil e do empresariado começam a ganhar algum vulto com os escândalos da Operação Lava Jato. A sociedade já percebeu o vínculo entre grandes obras de infraestrutura e a corrupção. A concentração de tanto poder em poucas empresas e do Estado é um convite à ineficiência.

 

A ausência de um projeto de Brasil moderno que supere as grandes barragens, a descentralização da produção de energia, é estrutural ou circunstancial dos governos?

É uma característica deles. Durante a última campanha eleitoral não houve ninguém levantando dúvidas a respeito do pré-sal. Mesmo no que se refere ao processo de desindustrialização da economia, fica parecendo que isso não tem nada a ver com a característica estrutural do Brasil e da América Latina, que é o processo de desprimarização pelo qual os países passam. Um dos grandes problemas que temos é o sentimento de que grandes ONGs e movimentos sociais estão voltados a temas centrais como violência, discriminação, injustiça, desigualdade. A sociedade não entendeu, ou entendeu de maneira abstrata, o quanto inovação é algo estratégico para que o desenvolvimento possa emergir no Brasil. Os nossos dados de educação são de uma precariedade impressionante, grosseira.

 

A Amazônia será preservada a tempo ou transformada em savana?

É possível preservá-la. O desmatamento no bioma já é imenso, chega a 19%, mas a parte preservada é maior. Cada vez mais, a legitimidade social e política do desmatamento cai. Contrário ao que acontece no Cerrado, que é onde nossa preocupação deve estar. O Cerrado é uma floresta de cabeça para baixo e responde por parte importante do nosso abastecimento de água. Ninguém dá bola para ele. A Amazônia não, ela tem atenção internacional.

 

O que falta para esses biomas existirem de forma equilibrada?

Empreendedorismo inovador, exploração sustentável da floresta em pé. Isso não se traduziu em negócios em uma escala minimamente apreciável. Mas sou mais otimista com o futuro da Amazônia do que com o do Cerrado, que as pessoas acham que é fronteira agrícola. E não é. É uma questão de legitimidade.

 

Que futuro você vê para o Brasil e a humanidade?

Vamos viver em um mundo mais quente mesmo se as emissões fossem interrompidas hoje. Não sabemos se o grau de destruição vai ser imenso ou pequeno, depende de sermos capazes de reduzir, nos próximos 15 anos, as emissões de gases poluentes. Se isso não acontecer, teremos consequências piores que as de hoje. Vamos ter de nos preparar para uma adaptação a este mundo que está vindo. Se houver a elevação de três graus até o fim do século, haverá uma intensificação dos fenômenos climáticos. Muitas áreas litorâneas hoje habitadas serão sacrificadas. Terão de deslocar pessoas para as áreas em que não haja risco. Não antevejo uma vida miserável, mas sim uma em que as virtudes comuns terão de ser mais cultivadas.

 

 

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