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Terça, 19 de julho de 2016

“Estamos todos no mesmo barco”

Três perguntas para Lúcia Capanema Álvares, professora da UFF, mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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Lúcia Capanema Álvares, professora da UFF - Imagem: Arquivo Pessoal

Lúcia Capanema Álvares, professora da UFF - Imagem: Arquivo Pessoal

A urbanização em larga escala aumenta os desafios de atender a demanda por serviços de primeira necessidade, tais como fornecimento de água/saneamento, energia, moradia, assistência médica, ensino e transporte. Em sua avaliação, como as prefeituras brasileiras têm, de forma geral, lidado com essa realidade? Há avanços reais e/ou exemplos positivos?

Em primeiro lugar, é preciso situar a demanda por serviços urbanos no nosso quadro social dual e altamente injusto. Nos países de terceiro mundo, e no Brasil de forma contundente, temos uma demanda reprimida por serviços básicos para os mais pobres, que muitas vezes sequer é mapeada, e outra demanda da classe média que faz barulho e se torna preocupação política. Nesse quadro, avançamos muito pouco ou quase nada. Alguns poucos exemplos são as ciclovias de São Paulo, capital, e a implantação de infraestruturas verdes, como no caso da sub-bacia do Córrego Bananal, também em São Paulo.

Considerando essas mesmas demandas urbanas, qual considera ser a chave para uma abordagem holística capaz de tornar as cidades brasileiras mais sustentáveis?

É necessária uma mudança radical no nosso paradigma cultural, uma mudança civilizatória que volte a entender o mundo como physis (do grego: o corpo, a alma, o ambiente são partes de um todo indissociável); estamos todos no mesmo barco e não é mais possível entender desenvolvimento como crescimento do sistema, aliando-o à ideia de aumentar o consumo planetário indefinidamente para manter as bases do capitalismo. Mas isso toca fundo nas questões do consumo e da mídia que nos fazem crer na felicidade do “ter”. Como diz o professor Ignacy Sachs, o ambiente é a base, a economia é o meio e o fim só pode ser o social.

E os cidadãos, como acredita que eles podem interferir positivamente no destino de suas cidades?

Em nenhum lugar do mundo, na história conhecida, uma mudança civilizatória começou de cima para baixo. O povo, a somatória dos cidadãos, é o verdadeiro guardião da cultura e só ele pode inverter a lógica consumista em que vivemos. Teremos todos que nos perguntar a cada dia se precisamos daquele celular novo, se o que escolhemos como fontes de informação realmente condiz com nossos valores e se nossos valores são aqueles que farão nosso mundo melhor. Desde os atos mais cotidianos como o destino do papel de bala e a forma como nos relacionamos com o outro até o nosso interesse pelo planejamento e a gestão das nossas cidades.

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