Terça, 19 de julho de 2016

Matas do Rio Doce: pintando a esperança

Artista convoca, pelo exemplo, a obrigação pátria de recuperar as matas ciliares do Rio Doce levadas pela lama

Hiram Firmino - hiram@souecologico.com



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“É uma pena as políticas econômicas sociais não contemplarem, na mesma dimensão, a necessidade intrínseca da natureza que trazemos na alma.” Yara Tupynambá

“É uma pena as políticas econômicas sociais não contemplarem, na mesma dimensão, a necessidade intrínseca da natureza que trazemos na alma.” Yara Tupynambá

Sempre engajada na luta ambiental por meio do amor que sabe expressar, e com uma energia singular e impressionante pelo verde que nos resta, Yara Tupynambá, a artista natural de Montes Claros, Norte de Minas, se superou. Ou melhor, se completou, mais uma vez. O palco dessa superação, em homenagem aos seus 84 anos de idade e 60 de carreira, com a inédita exposição de pinturas da natureza, foi a Casa Fiat de Cultura, na capital mineira, de 14 de junho a 24 de julho.

Com entrada gratuita, o público pôde se extasiar com quatro séries significativas de suas obras recentes, abordando os principais, frágeis e ameaçados ecossistemas que caracterizam a paisagem das Minas Gerais:  “A Serra do Cipó”, “O Vale do Tripuí” e “Rio Doce”, passando também pela “Flora de Inhotim”.

Mas foi na sua mostra retratando a beleza exuberante das matas atlânticas ao longo das margens do Rio Doce, cuja tragédia ambiental na região de Mariana já completa nove meses de aniversário e indignação pública, que Yara impressionou seus convidados. Seus pincéis registram, antes de atingida pelo acidente, a maravilha florística do Parque Estadual do Rio Doce, distante 248 km de BH, com área de 35.970 hectares situada na região do Vale do Aço  (que já foi chamado de “a Cubatão mineira”, tamanho o grau de poluição de suas indústrias, antes do advento da consciência ecológica e legislação ambiental).

Esta Unidade de Conservação, que interliga e protege os municípios de Marliéria, Dionísio e Timóteo, abriga a maior floresta tropical de Minas, também chamada de a “Amazônia Mineira” graças à existência de um notável sistema lacustre composto por 40 lagoas naturais, formadas pelo extravazamento do Rio Doce, ao longo de suas cheias históricas.

Um espetáculo de rara beleza, que também seduziu a artista, impressionada pelas suas árvores centenárias e madeiras nobres de grande porte, compondo um dos poucos e maiores remanescentes de Mata Atlântica no país. É o que a Revista Ecológico, também maravilhada, registra nesta edição. Confira!


Como Guimarães Rosa*

“Yara Tupynambá é uma artista, uma estudiosa, mestra, trabalhadora. Aluna de grandes mestres, transcendeu o aprendizado, metabolizando-o em nova beleza; a eles pagou sua dívida com juros e luz própria.

Yara consegue conciliar a genuína simplicidade pessoal com o extremo rigor técnico. Generosa para com os outros, é duramente severa consigo mesma; mas é visceralmente intransigente com o desconhecimento dos saberes fundamentais ao exercício da arte.

Estudiosa incansável, conhece profundamente a história dos fazeres de seu ofício e não se nega à partilha bondosa de seu saber.

Uma grande, enorme pessoa.

Muito nos alegramos de poder trazê-la ao público, no momento exato da celebração dos 10 anos da nossa instituição, pois gostamos de pensar que temos algo em comum: brasileira e universal, Yara é mineira no mesmo sentido em que o é Guimarães Rosa. Olha o mundo com o mesmo olhar de quem sabe que o rio que corre por sua aldeia é maior que qualquer outro rio.”

*José Eduardo de Lima Pereira, presidente da Casa Fiat de Cultura.


Como dádiva divina

“Conviver diretamente com a beleza e a grandiosidade da natureza, que nos fazem sentir mais pertencentes ao mundo, é a grande experiência que me foi oferecida, ao trabalhar com afinco e paixão sobre esta minha exposição. Fascinada pelo que já havia visto no Vale do Tripuí, a luz filtrada entre galhos, a exuberância da vegetação que cobria o solo, o silêncio profundo só cortado pelo pio das aves, busquei entrar na floresta do Vale do Rio Doce. Entrar onde a beleza se fazia em dobro, na grandiosidade das imensas árvores e na presença das águas nas enormes lagoas cobertas de nenúfares, margeadas por altas plantas aquáticas com delicados pendões brancos.

Todos os sentimentos e sensações que vivi, no tempo em que trabalhei sobre o tema, foram cristalizados nesta minha mostra, lembrando a todos que a natureza, esta dádiva divina que nos foi dada, precisa ser amada, cuidada e preservada.”

Considerada a “Primeira Dama” da arte mineira, Yara é neta de europeu e bisneta de índia da tribo dos Tupynambá. Aos 17 anos, foi aluna do mestre Guinard, em BH; e, depois, do grande gravurista Goeldi. Foi, ainda, bolsista do Pratt Institute, em Nova York. Sua figuração poética a fez produtora de centenas de quadros e murais arquitetônicos instalados no Brasil e no Mundo.


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