> Edições Anteriores > Pelo verde do Rio Doce > AS PEGADAS DE LUND (4)

Terça, 19 de julho de 2016

A extinção

O que aconteceu há 11 mil anos é um aviso profético: formas de vida magníficas foram dizimadas em consequência das mudanças climáticas provocadas pela atividade humana. É o que você confere neste último capítulo da série

Cástor Cartelle - redacao@revistaecologico.com.br



font_add font_delete printer
Crânio infantil com traços australo-africanos

Crânio infantil com traços australo-africanos

Ao longo da história da vida, espécies sem conta se extinguiram, gota a gota, como depósito esvaziado por torneira mal fechada. Em algumas ocasiões é como se o cano arrebentasse e a água saísse aos borbotões: numerosas espécies, quase que poderíamos dizer repentinamente, desapareceram.

Nesses casos haveria um denominador comum àquelas que abandonam o palco da vida: a incapacidade adaptativa a novas circunstâncias. O desaparecimento e o surgimento de espécies parcimoniosamente (gota a gota) são como que lei biológica, acontecimento continuado.

Na maioria das vezes, elas surgem, chegam ao máximo, atingem o ocaso e alguém surge ocupando o espaço deixado. Nessas ocasiões, o surgir ou desaparecer é sem alardes, natural e imperceptível. O fenômeno ocorre em sequência: sucessão de mudanças. Como o dia no qual o amanhecer, imperceptivelmente, se torna Sol radiante, depois entardece para, finalmente, mergulhar na noite. Mas enquanto deslizam as horas, minuto a minuto, não se percebem as mudanças sutis. Só comparando horários distantes.

O desaparecimento abrupto de espécies (água aos borbotões), sem reposição, foi constatado não poucas vezes na história da vida. No Permiano (há 250 milhões de anos, aproximadamente) a vida na Terra esteve por um fio: há quem calcule que em volta de 96% das espécies se extinguiram. A causa principal seriam flutuações no nível dos mares? Há 70 milhões de anos (Cretáceo) lá se foram os dinossauros. Foi indicado como principal culpado um meteorito.

A catástrofe levou juntos, também, os pterossauros, répteis marinhos, invertebrados... Mas o meteorito não teve competência para eliminar outros répteis, aves e mamíferos... Por que estes teriam sobrevivido à catástrofe? Se é que ela foi a causa do desaparecimento de todos os dinossauros (gigantes, médios e pequenos). Nesse período temporal ocorreram mudanças como a substituição da flora predominante de gimnospermas pelas angiospermas e nos mares o predomínio dos peixes teleósteos. As espécies que desapareceram eram muito especializadas. E quando isso ocorre... elas tornam-se frágeis diante das variações.

Na América do Sul, enquanto se manteve como ilha, grande quantidade de espécies de mamíferos desapareceu e outras as substituíram: a vida expandiu-se em enorme variação sempre renovada. Mas há 11 mil anos deu-se uma extinção, poderíamos dizer, maciça, aos borbotões: só na área que hoje corresponde ao Brasil sabemos que em volta de 60 espécies de mamíferos se extinguiram. O que aconteceu? Sendo um fenômeno mais próximo de nós do que os anteriormente citados, é possível obter-se, com mais segurança, uma interpretação ou a procura de causas que provocaram tamanha catástrofe biológica. Três são as principais causas apontadas para esse fenômeno: o homem exterminador, doenças ou fenômenos climáticos.

Uma das hipóteses para a extinção de espécies no Pleistoceno é a climática - Imagem: Reprodução

Fogo e novo mundo

A primeira causa tem os humanos como protagonistas. A extinção teria acontecido quando o homem chegou à América, seja pela sua atuação direta como caçador ou indireta, pela chegada de novos predadores ou pelas modificações introduzidas no meio em que habitava, incluindo o fogo.

O que teria levado o homem primitivo a ser tão seletivo que se dedicou a eliminar preferencialmente animais de grande porte? A hipótese do “homem pré-histórico exterminador” carece de fundamentação no nosso continente. Os sítios arqueológicos mais antigos da América do Sul mostram que os habitantes primitivos tiveram como estratégia alimentar a caça generalizada de mamíferos de pequeno e médio porte, que ainda sobrevivem, assim como vegetais, que eram fartos. O cardápio animal era completado principalmente com aves, peixes, tartarugas, lagartos e moluscos.

Por outra parte, na época do descobrimento há quem calcule que o número de habitantes na Terra Brasilis estaria por volta dos dois milhões. Certamente, muito mais do que quando o homem descobriu e se estabeleceu nesse território há mais de 11 mil anos. Admitamos esse número. Não há nenhum registro que permita atribuir a extinção de qualquer espécie animal a populações indígenas desde o descobrimento até a atualidade.

Como poderia, em menos de mil anos, um punhado de habitantes espalhado por imenso território, sem armas nem tecnologia apropriadas, modificar ambientes e extinguir pela caça indiscriminada mais de meia centena de espécies? E nelas encontravam-se, precisamente, as de maior porte. Infelizmente, a modificação de ambientes e a caça indiscriminada são uma característica do homem moderno e até hoje, miraculosamente, mesmo com perseguição desenfreada à fauna e transformações ambientais às vezes absurdas, poucas são as espécies extintas em nosso território no período histórico.

Protopithecus brasiliensis - Imagem: Reprodução

A peste medieval

Quanto à modificação do meio que poderia ter sido realizada pelo homem primitivo, a principal intervenção teria acontecido pelo fogo. No Cerrado brasileiro, a existência desse fenômeno tornou-se natural, pois constata-se que não poucas espécies vegetais desse ecossistema estão adaptadas a essas circunstâncias. Os incêndios provocados pelo homem no passado, certamente, foram menores do que os que surgiram naturalmente e do que os provocados na atualidade. Há mais de 100 anos que o Brasil arde sistemática e desenfreadamente. E nessas brasas insensatas nenhuma espécie de mamífero foi consumida. Até hoje.

Uma outra hipótese que explicaria a extinção pleistocênica é a de epidemias que dizimaram a fauna. Teriam sua origem no continente norte- americano e sua introdução poderia dever-se tanto aos humanos quanto aos animais migrantes que participaram do grande intercâmbio faunístico americano. Nem a peste medieval conseguiu eliminar uma única espécie como o homem. Qual a zoonose sem fronteiras que poderia ter atacado grande quantidade de espécies até levá-las à extinção?

A amplidão territorial, as barreiras naturais e a quantidade de espécies diferentes desaparecidas não tornam plausível tal hipótese. Além disso, no final do Pleistoceno, os imigrantes foram quantitativamente insignificantes. Quais possíveis doenças poderia o homem transportar para atingir tão grande número de espécies animais?

Resta uma terceira hipótese como causa principal para explicar a extinção do Pleistoceno final: a climática. Na análise das espécies pleistocênicas extintas do Brasil, até há pouco tempo, eram identificadas aquelas encontradas no nosso território como sendo idênticas às da Argentina. Os achados de fósseis de mamíferos brasileiros, em maior quantidade, realizados ultimamente permitem identificações mais precisas. O que levou a várias conclusões. Uma delas: as espécies de grande porte que se extinguiram pastavam em campo aberto ou habitavam na periferia de mata. Os predadores que desapareceram eram, também, de campo aberto e teriam suas presas preferenciais nos animais extintos.

Uma segunda conclusão foi a de perceber-se que ocorreram em simpatria, isto é, no mesmo território, espécies austrais, típicas de regiões com climas frios, e espécies intertropicais afins. Essas espécies teriam hábitos similares ou idênticas necessidades alimentares. Também foram identificadas espécies que não deveriam estar em latitudes tropicais, uma vez que seu hábitat é, ainda hoje, em territórios onde o clima é mais frio. Finalmente, as espécies herbívoras ou predadoras sobreviventes eram preferencialmente de periferia de mata ou estritamente de mata. Não há nenhuma exceção.

A ocorrência de um fenômeno climático “especial” no final do Pleistoceno acreditamos estar registrada em mudanças que até hoje persistem. A fauna fóssil pleistocênica encontrada ao longo do Brasil intertropical, em latitudes que abrangem da Amazônia a São Paulo, é muito homogênea e indica existência de matas e de amplo cerrado onde hoje ocorre a caatinga e até em grande parte da região amazônica.

Nas regiões onde se registram achados fossilíferos em grutas calcárias, como nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Goiás, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso de Sul e São Paulo, percebe-se que ocorreu fenômeno climático continuado, uma vez que farta quantidade de ossadas e sedimentos foi introduzida nelas em dado momento histórico. Anteriormente defendemos o ponto de vista de que o principal “fornecedor” de carcaças de futuros fósseis para as grutas foi o regime fluvial, que as inundava e carreava, vez por outra, animais mortos.

É nas inundações que as águas, traiçoeiramente, podem surpreender animais localizados nas margens de rios. Lund e outros pensaram que carnívoros introduzissem suas vítimas no interior das cavernas. Se carnívoros ou animais penetrassem nas grutas levando seus despojos ou nelas se perdendo, não haveria razão para que elas não conservassem um registro completo da fauna desde, pelo menos, o Pleistoceno até hoje. O que não ocorreu. Acidentalmente, e na região de penumbra, poderia acontecer a presença de animais, assim como alguns adentrarem e não conseguirem fazer o caminho de volta.

Turismo fortuito

O homem moderno é a única espécie capaz de modificar o hábitat que ocupa - Imagem: Reprodução

A explicação que surge como a mais provável para interpretar as anomalias biogeográficas relatadas é a climática: o território intertropical brasileiro foi, na realidade, o refúgio de numerosas espécies que até ele chegaram, expulsas das regiões originais devido às temperaturas muito baixas e que se tornaram inabitáveis. A diminuição de temperatura teria provocado o aumento da pluviosidade responsável pelas inundações do final do Pleistoceno. Uma espécie isolada fora de contexto não é, por si só, argumento seguro. Outra coisa é constatar-se exceções na quantidade relatada. Há 11 mil anos ocorreu algo mais do que turismo fortuito.

A mudança climática teve uma grande influência na composição florística. Seria causa indireta da extinção. Houve um decréscimo de pastagens que tornou inviáveis espécies pastadoras, as quais consumiam grande quantidade de alimento. A escassez deste deveu-se à diminuição das áreas de pastagens, com o aumento da Caatinga e das matas Atlântica e Amazônica, ou/e à diminuição de produtividade, causada pelas mudanças no regime de pluviosidade.

As chuvas ter-se-iam concentrado em certos períodos anuais, como hoje ocorre, em vez de se prolongarem por períodos mais dilatados. Essa diminuição de pastagens teria levado à extinção numerosas espécies que pastavam em campo aberto e seus predadores. De fato, somente sobreviveram as espécies de periferia de mata, com dependência da água e as de floresta.

A morfologia de muitas das espécies que se extinguiram manifesta que elas eram privilegiadas para enfrentar predadores e sobreviverem. A não sobrevivência delas ocorreu por outros motivos e não por eliminação provocada pelo aumento de carnívoros que migraram do Norte no grande intercâmbio faunístico americano. Nem pelo homem caçador ou por zoonoses.

O que aconteceu há 11 mil anos é como que um aviso profético vindo do tempo passado. Naturalmente houve acontecimentos concatenados e iniciados, provavelmente, por evento climático como foi referido, que dizimaram com virulência formas de vida magníficas. O homem moderno é a única espécie capaz de modificar o hábitat que ocupa. Ele semeia ventos de tempestade que podem levar a mudanças no meio não mais por causas naturais.

Elas ocorreriam em consequência da atividade humana: poluição crescente do ar; desequilíbrio da mistura de gases na atmosfera. Rios drasticamente modificados seja no percurso ou no conteúdo; florestas arrancadas; mares esvaziados de vida pelo excesso de pesca. Exagero absurdo das monoculturas, quase sempre exóticas; incêndios virulentos sem conta provocados por Neros ressuscitados. Criação de espécies para consumo humano que ultrapassam em número de espécimes qualquer limite natural. Extração de matérias-primas que acabarão por modificar a superfície do planeta. Contaminação e consumo descontrolados de água potável; desequilíbrios na temperatura. Montanhas de dejetos imprestáveis que provocam inveja ao Everest...

Um resumo de tudo isso é o sádico estoque de armas nucleares com capacidade sobrada de destruir, num piscar de olhos, o planeta Terra. Muitas vezes. Riqueza absurda. Uma segunda aniquilação seria impossível. Tudo, até o excesso de bombas, teria acabado.

Qual o limite de tolerância-resistência da paciente e, até agora tolerante, Mãe Terra? Como doloridamente testemunhamos no livro “Das Grutas à Luz” e nas quatro partes desta série publicada na Revista Ecológico, a extinção é irreversível. A vida extinta não tem videotape: vida que se foi, retorno não tem. Tragédia irônica, kafkiana seria aquela na qual o único ser pensante, entre os 30 milhões de espécies diferentes que compartilham o planeta, fosse o responsável pelo apocalipse. Final.

 

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário
Outras matérias desta edição