Terça, 19 de julho de 2016

Somos todos médicos?

Nossa necessidade vai criando a inovação

Roberto Francisco de Souza * redacao@revistaecologico.com.br



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Computador é bicho metido a besta e não é de hoje. Quem ouve falar do Dr. Google mal sabe que, lá pelos idos de 1970, um cara em Stanford deu de ensinar máquina a pensar. Chamava seu sistema de Mycin. Se fosse português, talvez virasse micina, tanto que antibiótico termina desse jeito. Mycin era meio lerdinho. Em 1984 eu estudei demais sua construção. Queria fazê-lo pensar engenharia e cheguei muito perto.

Quarenta e seis anos depois, computadores pensam. Computadores são médicos. Em 2011, embalada pelas leis que tentam reformar o sistema de saúde americano, a revista Consumer Reports publicou um artigo que chamou de “O que os médicos gostariam que seus pacientes soubessem”. Está escrito lá: 61% das pessoas declaravam que consultavam sobre sua condição de saúde na internet. Ooops! 2011, meu caro, 2011!

Se tiver a pachorra de terminar de ler aquele texto, o nobre leitor vai descobrir que outra pergunta ronda a cabeça dos pacientes: meu médico está antenado? Isso mesmo: an-te-na-do! Significa que o paciente quer saber se ele estuda na internet, se ele tem o cuidado de saber se existe algum tratamento recente para o mal que lhe acomete. E, por recente, aqui, não falamos de congressos de dois anos atrás, mas da semana passada. Aff!

Entrementes, Dr. IBM Watson e Dr. Google se digladiam para estar um à frente do outro na tarefa de cuidar de nossa saúde. O primeiro é capaz de recomendar o melhor tratamento de câncer disponível para o perfil exato do paciente.

Isso quer dizer que ele pesquisa os tratamentos publicados até ontem e recomenda o caminho. O Dr. Google é mais conhecido, menos preciso, mas vai andando na mesma direção. Acrescente-se aí a Dra. Microsoft e vamos fazendo uma junta médica de gente estranha que nem gente é.

Outro dia me disseram que o Uber transformou os transportes por imposição. Criou um fato para que a lei definisse, só depois, o que fazer com ele. Absurdo, disseram! Respondi que não, que as leis não inovam. E sim tentam regular a inovação.

Dizem que uma consulta pela web ou por WhatsApp é ilegal. Dizem que o ato médico é restrito ao médico e ponto. Dizem que a gente não pode, a gente não deve, mas se esquecem da verdade de que, num país sem assistência decente à população, ninguém quer saber de leis que lhe impeçam sobreviver com dignidade e ser bem atendido. Vai acontecer e pronto!

Quando? Recomendo consultar Moore, Lei de Moore. Ela responde.

Enquanto isso, vamos tocando a vida, cheios de pressa e carentes de saúde. Eu não posso reclamar, sabe... Tenho uma rinite alérgica que me mata nesta época do ano, mas consultei aqui uns conhecidos digitais e descobri que o Jala Neti, sabedoria milenar da Índia, é deezzz nessa matéria. Melhorou demais!

Falando nisso, estou confuso. Eu havia dito que somos todos taxistas, arregalados com o crescimento do Uber. Agora acho diferente: que nossa necessidade vai criando a inovação. Talvez já sejamos todos médicos...


Tech Notes

O que foi o Mycin? http://goo.gl/B6FLGp

O que os médicos gostariam que seus pacientes soubessem? http://goo.gl/3jNKMF

Conheça a Lei de Moore! http://goo.gl/LYZ8r0


(*) Diretor-geral da Plansis, vice-presidente do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) e diretor do Arbórea Instituto.

 

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