Quinta, 09 de junho de 2016

Brasil em risco

Relatório produzido pelo Centro de Monitoramento de Alerta de Desastres Naturais do MCTI com apoio da Embaixada Britânica alerta para os impactos das mudanças climáticas no Brasil

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Imagem: Antônio Cruz

Imagem: Antônio Cruz

Coordenado pelo climatologista Carlos Nobre, o estudo “Riscos de Mudanças Climáticas no Brasil e Limites à Adaptação” revela uma possibilidade inquietante para o futuro do país: os principais riscos socioambientais caso a elevação de temperatura seja superior a 4oC. Para isso, foram analisados diferentes cenários e projeções do aquecimento global, ao longo de oito décadas (2020-2100), nos setores de agricultura, saúde, energia e biodiversidade.  A pesquisa foi realizada por meio de uma minuciosa revisão de literatura e projeções climáticas, incluindo estimativas dos riscos relativos, e oferece informação para formuladores de políticas de gestão de riscos, de maneira a influenciar de forma urgente a formulação de políticas que priorizem a prevenção e a mitigação desses possíveis impactos.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), em seu 5º Relatório de Avaliação Cientifica (AR5 – Fifth Assessment Report), indica que há uma chance de 40% do aquecimento global ultrapassar o limite de 2oC. Este nível, considerado seguro por especialistas internacionais, foi estabelecido como limite pelo acordo do Clima na COP-21 até 2100. Caso a temperatura seja maior, há grandes riscos de catástrofes mundiais. Porém, como as chances da temperatura ultrapassar os 2oC são relativamente menores em curto prazo, quem tem poder de decisão acaba deixando de lado as projeções mais desfavoráveis ao planeta.

O documento, produzido pelo Centro de Monitoramento de Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com apoio da Embaixada Britânica, mostra que, no Brasil, num cenário de alta emissão de gases de efeito estufa, o país tem probabilidade maior que 70% de sofrer um aquecimento superior a 4oC antes do fim deste século.

Insegurança alimentar

A correta compreensão dos riscos climáticos associados aos potenciais impactos sobre a agricultura e a segurança alimentar (vulnerabilidades e eficácia das opções de adaptação), formam uma evidência sólida para permitir a adaptação às alterações climáticas.

“Além de impactos para a saúde humana, níveis altos de aquecimento podem aumentar o risco de eventos extremos e mesmo catastróficos, como a extinção de espécies; reduzir a disponibilidade de água e eletricidade para a população; e causar impactos sérios sobre a produção de alimentos, limitando a área de cultivo de arroz e feijão”, aponta o estudo.

No caso do arroz, a perda de redução das áreas de baixo risco, em comparação a 1990, chega a 13%. Para o feijão, a previsão é de 57% de perda de áreas, com tendência de que a produção seja confinada aos estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nada se compara, no entanto, com a situação das monoculturas de soja: a perda pode ser de 81%. “Entretanto, cultivares com alta tolerância à seca e deficiência hídrica serão lançadas no mercado e sistemas de produção mais equilibrados em manutenção da água no solo e sequestro de carbono serão adotados”, afirma o documento.

Saúde

Vastas regiões do Brasil poderão se tornar perigosas para a população caso o aquecimento global ultrapasse o limite extremo de 4oC em relação à era pré-industrial. Nessas áreas, a temperatura média pode atingir os 30oC – o dobro da média do planeta hoje –, elevando o risco de mortalidade por calor, especialmente entre crianças e idosos. Haverá também redução da produtividade laboral em diversas frentes de trabalho. O calor poderá reduzir “até 268 horas anuais de trabalho em setores como agricultura, indústria e construção civil”.

Há ainda outro efeito mais grave que as temperaturas podem provocar nos brasileiros: o estresse por calor, uma vez que “temperaturas máximas contínuas acima de 37oC e com alta umidade do ar impedem o organismo humano de perder calor por transpiração, podendo causar a morte em caso de exposição prolongada”.

Imagem: Sérgio Vale/Secom

Biodiversidade

O relatório também aponta riscos de savanização de florestas, extinção de espécies e colapsos de energia elétrica. “Entre as vítimas estariam espécies de grande importância socioeconômica, como as abelhas da Mata Atlântica, as plantas comestíveis do Cerrado e espécies do litoral.” Mais. “Em 2100, o Brasil perderia 200 dias por ano para o crescimento de plantas, causando impactos de grande magnitude tanto para a biodiversidade quando para a produtividade de ecossistemas e economia.”

Recomendações

Duas recomendações são feitas pelos pesquisadores no estudo. A primeira delas trata da necessidade de implementar ações e programas intersetoriais para reduzir as vulnerabilidades sociodemográficas, econômicas e de acesso aos serviços de saúde, que poderão “reduzir também os impactos do aumento extremo da temperatura, especialmente para doenças transmitidas por água e alimentos contaminados”.

E a segunda é desenvolver novas ferramentas de priorização de áreas para conservação (especialmente na Amazônia Ocidental, Pantanal e Cerrado) e restauração (Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa), que “são utilizadas na orientação de políticas públicas como o Sistema Nacional de Unidades de Conservação e do Novo Código Florestal. E que devem ser incorporadas nas suas análises a componente climática, como cenários de aumento de temperatura acima de 4oC”.

Possíveis impactos

Um aquecimento igual ou superior a 4oC pode gerar:

Risco de queda de produtividade entre 20% e 81% em diversas culturas. Para um cenário mais grave, a soja pode chegar a uma perda de até 81%.

No período entre 2071 e 2099, os municípios da região Norte, Nordeste, Sudeste e Sul apresentarão condições térmicas ainda mais favoráveis para a disseminação do Aedes aegypti, vetor de doenças como dengue,
chikungunya e zika.

Aumento no percentual de risco de extinção de espécies de até 15,7%.

Redução nas populações de espécie de abelhas nativas da Mata Atlântica em 2030 e se agravaria até a extinção entre 2050 e 2080.

Risco de savanização e empobrecimento de florestas nas décadas
finais do século.

Em 2100, a perda de biodiversidade nas costas brasileiras será significativa, gerando impactos sobre a alimentação e a economia.

O déficit no atendimento da demanda elétrica no país se torna praticamente inevitável até 2040.

Saiba mais

http://bit.ly/summary_climatechange

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