Quinta, 09 de junho de 2016

2019: a data limite de Chico Xavier

Próximo homenageado na sétima edição do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade”, o líder espírita já alertava para a urgência de como evitar o aquecimento global

Luciano Lopes * - redacao@revistaecologico.com.br



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Chico Xavier: “Sem Deus no coração, as futuras gerações colocarão em risco o futuro do planeta

Chico Xavier: “Sem Deus no coração, as futuras gerações colocarão em risco o futuro do planeta" - Imagem: Reprodução

O médium Francisco Cândido Xavier nasceu em Pedro Leopoldo, há pouco mais de 30 km da capital mineira, em 02 de abril de 1910. Naquela época, a cidade tinha pouco menos de 10 mil habitantes e vivia essencialmente da agricultura e da pecuária. Sua natureza era exuberante. E grandes momentos da vida de Chico e da história do Espiritismo têm as paisagens naturais de lá como cenário.   

Foi assim quando, aos cinco anos de idade, ele conversava com o espírito de sua mãe entre as árvores frutíferas do quintal de casa. Quando, aos 20, regava a horta de alhos de seu patrão e ao mesmo tempo conversava com espíritos de poetas brasileiros, como Augusto dos Anjos e Casimiro de Abreu. Quando, nas margens do Açude do Capão, em Pedro Leopoldo, orava em silêncio na companhia da mata verde e da água límpida. Foi lá, inclusive, que aceitou a missão como divulgador da Doutrina Espírita em diálogo com seu mentor espiritual, Emmanuel. E, por fim, esteve cercado da natureza, quando já estabelecido em Uberaba, a partir de 1959, Chico proferia palestras em encontros de evangelização sob a copa de uma árvore.

“Como Francisco de Assis, Chico nutre pela natureza um amor que só é comum às almas que se espiritualizam”, conta o médium e amigo Carlos Baccelli no livro “À Sombra do Abacateiro”, que apresenta o conteúdo de algumas dessas reuniões. Semelhante ao santo católico, “Chico ama os animais, conversa com eles, parece entendê-los. Chora quando um deles adoece. Ama as flores, a chuva, os pássaros. Neste mundo materialista, em que o homem cada vez mais se afoga nas conquistas da tecnologia, Chico ensina-nos também a cultivar a vida natural, estudando o Evangelho de Jesus junto aos filhos do calvário, no templo da Mãe Natureza”, completa Baccelli, que é dirigente do Lar Espírita Pedro e Paulo em Uberaba.

Por que Chico Xavier realizava reuniões espíritas ao pé de uma árvore? Porque o primeiro templo do homem foi e continua sendo a natureza. É o que o próprio Baccelli explica: “Em todas as antigas narrativas históricas, observamos que a criatura procurava dialogar com o Criador sob a paz das estrelas. Moisés subiu ao Monte Sinai para receber o Decálogo. João Batista clamava, em pleno deserto, preparando as veredas daquele que nos ensinaria a amar a Deus em Espírito e Verdade. Nas Gálias, os druidas se colocavam em comunicação com os mortos no silêncio das florestas. A sós, no colo da natureza, o homem sente uma maior integração com a vida”.

Mudança interior

Chico Xavier, eleito “Mineiro do Século XX” e o “Maior Brasileiro de Todos os Tempos” em votação popular aberta realizada, respectivamente, pela TV Globo Minas e pelo SBT, será um dos homenageados da sétima edição do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza”, cujos vencedores serão anunciados em novembro próximo. Plenamente convicto da importância do médium de Pedro Leopoldo como guia espiritual para milhões de pessoas mundo afora, a Ecológico saiu em busca de mais conhecimento sobre a sua relação com a natureza para apresentar a sua visão sobre o meio ambiente e a ação humana sobre ele. Bem como compreender o impacto positivo da espiritualidade na transformação de hábitos e costumes da humanidade, principalmente para a resolução dos problemas socioambientais que ela mesmo criou. Nesse caso, especialmente, provocando o aquecimento global e as mudanças climáticas, que vêm trazendo graves consequências para a biodiversidade planetária, da qual dependemos e estamos inseridos, e que será tema da premiação de 2016.

Para encontrarmos o “Chico ecológico”, era preciso visitar o berço de tudo: Pedro Leopoldo. Hoje com quase 60 mil habitantes, a cidade pouco se parece com aquela do tempo em que Chico nasceu. Ele mesmo, o médium, teve papel essencial para o desenvolvimento socioeconômico do município. No tempo em que morou lá, o aumento do número de turistas e caravaneiros que o visitavam em busca de auxílio espiritual e participavam das reuniões nos centros espíritas da cidade fez nascer hotéis, pousadas e restaurantes, gerando centenas de empregos.

Ao chegarmos ao Centro Espírita Luiz Gonzaga, fundado por Chico Xavier em 1927, fomos ao encontro de Célia Diniz, atual presidente da instituição. Ela guarda muitas impressões da convivência com o médium: “Chico sempre amou profundamente os animais, as plantas. Todo o amor que ele tinha por Deus se transformou em respeito à natureza. Qualquer pessoa, com um pingo de senso e gratidão ao Criador sente esse respeito pela Criação. E acredito que é uma atitude natural da pessoa realmente evangelizada transferir o amor a Deus também à natureza e às criaturas”, diz.

Ela cita uma frase de Chico que aponta como a religiosidade pode reverter nossa ignorância frente às questões naturais: “Sem Deus no coração, as futuras gerações colocarão em risco o futuro do planeta. Por maior que seja o avanço tecnológico da humanidade, é impossível que o homem viva em paz sem que a ideia de Deus espelhe suas decisões”.

Isso explica a necessidade de mudança de hábitos, que precisa fluir em cada individualidade. Não se pode, por exemplo, brigar para se ter coleta seletiva em uma cidade se seus moradores não a fazem em casa, separando corretamente o lixo. O mesmo vale para o alto consumo de energia e água. É preciso economizar. Se não queremos aquecimento global ou mudança climática, não se pode poluir. E há tempos a sociedade, empresas e governos sabem disso.

Valores do espírito

“Se nós, cristãos, estivéssemos atentos à preservação dos valores do espírito, segundo nos ensinou Jesus Cristo em sua divina revelação, a poluição da natureza, nas cidades e nos campos, não seria hoje esse flagelo que está tomando vulto no seio metropolitano. Se nos respeitássemos segundo a lei áurea – ‘não deseje para o seu vizinho aquilo que você não deseja para si mesmo’ -, a poluição talvez nem chegasse a existir”, disse Chico certa vez. Completou, ainda, que “se todo o mundo industrial, todo o campo da educação, todos os grupos sociais e valores que presidem o progresso humano estivessem, quem sabe, condicionados à regra áurea, estaríamos em paz”.

Para Célia Diniz, esta mensagem de Chico, que desencarnou em 30 de junho de 2002, também diz respeito às escolhas que a humanidade faz. “O animal tem uma pureza que o homem não tem. Ele age sobre o determinismo divino, que é o instinto. Isso é a pureza. Nós, humanos, detemos o determinismo divino até desenvolvermos o livre-arbítrio. É nas nossas escolhas que deixamos nosso lado puro. Quando se lê no Livro dos Espíritos (Questão 705) que a Terra produz o necessário para as nossas necessidades, pensamos: por que então há tanta escassez de recursos naturais? Porque não nos contentamos com o necessário. Queremos mais, daí o desequilíbrio. Estamos destruindo o planeta em nome da ambição”, alerta Célia. Ou seja, não é possível preservarmos o planeta se a nossa própria alma e nossos pensamentos estão “desmatados”.

O jornalista ambiental André Trigueiro, em seu livro “Espiritismo e Ecologia”, também compartilha dessa reflexão. “Neste momento em que experimentamos uma crise ambiental sem precedentes na história da humanidade, é importante reconhecer a nossa responsabilidade, como espécie ‘mais evoluída’, na destruição dos recursos naturais não renováveis à vida. Mudanças climáticas, escassez de recursos hídricos, produção monumental de lixo, destruição sistemática e veloz da biodiversidade, crescimento caótico e desordenado das cidades em que vive a maior parte da população mundial, transgenia irresponsável, são problemas causados por nós, pelo nosso estilo de vida, hábitos, comportamentos e padrões de consumo. É o nosso livre-arbítrio em ação, determinando escolhas que têm pressionado a resiliência do planeta e o conforto ambiental da espécie que se considera no ‘topo da cadeia evolutiva’”, afirma ele, que também é espírita.

Nesse contexto, antevendo o desequilíbrio ambiental e espiritual do ser humano, Chico Xavier já preconizava que o respeito ao meio ambiente era mais que uma necessidade. “Antes de o homem surgir na superfície do planeta, o vegetal, há muito, seguia as leis existentes. Como usufrutuários do Universo, saibamos, assim, que toda ação humana contrária à natureza constitui caminho ao sofrimento. Retiremos dos cenários naturais as lições indispensáveis à nossa vida. Somos interdependentes.”

Está aí a contribuição de alguém que, por exemplo, mesmo antes da instituição do Ministério do Meio Ambiente no Brasil, na década de 1970, já defendia a sua criação para punir quem derrubasse “uma árvore sequer”.

Efeitos da ignorância

A conversa com Célia nos proporcionou avançar muito ao encontro do Chico Xavier ecológico que se abria nas nossas mentes e corações. A cada livro, entrevista ou vídeo a que assistíamos sobre ele, uma nova descoberta, uma frase de impacto para refletirmos sobre como tratamos o meio ambiente. E que, incrivelmente, também se alinhava ao tema proposto para o “VII Prêmio Hugo Werneck”. Que cidadão brasileiro melhor poderia apontar a contribuição que devemos dispender para reduzir o avanço e os efeitos das mudanças climáticas, que já estamos sofrendo, do que Chico? Ele, diferentemente dos alarmistas, nos apontou uma direção espiritual, da renovação interior primeira, para a resolução desse impasse.

“A destruição dos recursos da natureza, mesmo a título de progresso, é uma triste tendência dos homens da atualidade. E cremos que semelhante agressão à vida natural se fará seguida por amargas consequências de que o tempo trará notícias à humanidade terrestre”, argumentou ele durante participação no programa televisivo Pinga Fogo, da extinta Rede Tupi, mais de quatro décadas atrás. Como constatamos diariamente, essas notícias infelizmente já inundam a mídia.

Segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, entre 2000 e 2010 a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera foi a mais alta desde os últimos 800 mil anos. Se nada for feito, a previsão é de que a temperatura média global possa chegar a 5oC até 2100, com consequências drásticas para a biodiversidade. Isso inclui secas e crises hídricas intensas, tempestades, além de possível extinção de espécies da fauna e da flora.

Só para se ter ideia, a ONU afirmou recentemente que os três primeiros meses de 2016 já quebraram todos os recordes de temperatura para o período. Em março, os termômetros registraram 1,07oC mais alto do que a média global calculada para este mês ao longo do século passado. Outra preocupação registrada foi o degelo no Ártico: mais de 10% da calota de gelo da Groenlândia derreteu em apenas 30 dias.

A Data Limite

O sentido de urgência na reversão desse cenário se fez ainda mais forte quando revimos o documentário “A Data Limite”, lançado há dois anos e dirigido por Fábio Medeiros, com produção executiva de Juliano Pozati e Rebeca Casagrande. Segundo Chico Xavier, o ano de 2019 representará grandes mudanças para a humanidade e o planeta. Essa transição marcaria a passagem da Terra de mundo de expiação para o de regeneração, trazendo novos avanços para a ciência e, principalmente, para a evolução moral e espiritual do ser humano. Despertando, inclusive, uma nova consciência e atitudes mais efetivas em prol da preservação da natureza e do amor ao próximo.

Mas por que 2019?

Em depoimento aos médiuns e amigos Marlene Nobre (já desencarnada) e Geraldo Lemos Neto, Chico confidenciou que em julho de 1969, logo após a chegada do homem à lua, as potências angélicas do Sistema Solar se reuniram com Jesus Cristo para decidir os rumos da Terra. “Nosso Senhor”, informou Chico, “deliberou conceder uma moratória de 50 anos à sociedade terrena, a iniciar-se em 20 de julho de 1969 e findar-se em julho de 2019”. Nesse período, “as nações mais desenvolvidas e responsáveis da Terra deveriam aprender a se suportarem umas às outras, respeitando as diferenças entre si, abstendo-se de se lançarem a uma guerra de extermínio nuclear. A face da Terra deveria evitar a todo custo a chamada III Guerra Mundial”.

Chico disse mais: “Caso a humanidade encarnada decida seguir o infeliz caminho da III Guerra, uma guerra nuclear de consequências imprevisíveis e desastrosas, aí então a própria Mãe Terra, sob os auspícios da Vida Maior, reagirá com violência imprevista. O homem começaria a III Guerra, mas quem iria terminá-la seriam as forças telúricas da natureza, da própria Terra cansada dos desmandos humanos. E seríamos defrontados então com terremotos gigantescos; maremotos e ondas (tsunamis) consequentes. Veríamos a explosão de vulcões há muito tempo extintos; enfrentaríamos degelos arrasadores que avassalariam os polos do globo com trágicos resultados para as zonas costeiras, devido à elevação dos mares. E, neste caso, as cinzas vulcânicas associadas às irradiações nucleares nefastas acabariam por tornar totalmente inabitável o Hemisfério Norte de nosso globo terrestre”.

Ao contrário, se todas as nações aprendessem, nesse período, a arte do bom convívio e da fraternidade, o mundo entraria em tal evolução  que seriam solucionados os problemas de ordem social e ambiental, descobertas as curas de doenças e a humanidade teria acesso total à informação e ao conhecimento, além do contato com seres extraterrestres que nos ofereceriam tecnologias novas.

A contribuição de cada um

“Não haverá a III Guerra Mundial”, acredita Célia Diniz. “Os países sabem que com uma guerra se destrói o que se ganhou também. O dinheiro fala mais alto, e nisso eles ainda são ignorantes. Mas Chico acreditava em uma saída pra a humanidade, porque somos seres em constante processo evolutivo. E a pedagogia divina para a Terra é o erro. Estamos vendo as consequências de nossas ações e isso é muito forte. Vamos nos conscientizar de que precisamos consertar o que estragamos. Não é fatalidade, nem castigo divino. O que vivemos hoje, devido à destruição da natureza, é consequência de nossas escolhas.”

Como podemos mudar isso? Invoquemos mais uma lição do próprio Chico: “Através da busca da espiritualização, superação das dores e construção de uma nova sociedade, a humanidade caminha para a regeneração das consciências”.

“Não estamos entregues à fatalidade e nem predeterminados ao sofrimento. Estamos diante de uma encruzilhada do destino coletivo que nos une à nossa casa planetária aqui da Terra”, disse Chico em depoimento registrado no livro “Não Será em 2012”.

“Temos diante de nós dois caminhos a seguir e o caminho do amor e da sabedoria nos levará à mais rápida ascensão espiritual coletiva.”

É essa a reflexão que deixamos para você, caros leitores. Qual caminho você quer seguir? O que temos feito para transformar o mundo em um lugar melhor e mais preservado? Qual é a nossa contribuição?


Literatura sustentável

Os livros e psicografias recebidos por Chico Xavier se tornaram um instrumento forte de evangelização. Desde o primeiro livro “Parnaso de Além Túmulo” (1932), foram lançadas mais de 470 obras, que venderam 50 milhões de exemplares. Vários deles abordam a questão ambiental, mas dois merecem destaque: a “Cartilha da Natureza”, um tratado poético de amor aos recursos naturais; e “Nosso Lar”, seu livro mais vendido, e que este ano completa 70 anos de lançamento. Publicado em 1946, o livro apresenta as observações e descobertas do espírito André Luiz sobre a vida no mundo espiritual – inclusive sobre o poder da natureza na cura e renovação interior.

Sabedoria ecológica

“Para nós os religiosos, natureza é sinônimo de manifestação de Deus. Nós nos encontramos no limiar de uma era extraordinária, se nos mostrarmos capacitados coletivamente a recebê-la com a dignidade devida. Se os países mais cultos do globo puderem suportar a pressão dos seus próprios problemas, sem entrar em choques destrutivos, como, por exemplo, guerra de extermínio, que deixará consequências imprevisíveis para nós todos no planeta, então veremos uma era extraordinariamente maravilhosa para o homem. Porque a própria automação nos está dizendo que vamos ser aliviados ou quase que aposentados do trabalho mais rude no trato com o planeta, para a educação da nossa vida mental, através de informações sobre o Universo com proveito enorme e incalculável para benefício da humanidade. Mas isso terá um preço. Será o preço da paz.”

Chico Xavier, no programa “Pinga Fogo”, da extinta Rede Tupi

“A natureza é a fazenda vasta que o Pai entregou a todas as criaturas. Cada pormenor do valioso patrimônio apresenta significação particular. A árvore, o caminho, a nuvem, o pó, o rio, revelam mensagens silenciosas e especiais. É preciso, contudo, que o homem aprenda a recolher-se para escutar as grandes vozes que lhe falam ao coração. A Natureza é sempre o celeiro abençoado de lições maternais. Em seus círculos de serviço, coisa alguma permanece sem propósito, sem finalidade justa.”

“Recordemos Aquele que veio à Terra, começando pela manjedoura; que recebeu pastores e animais como visita primeira; que foi anunciado por uma estrela brilhante; que ensinou sobre as águas, orou sobre os montes, escreveu na terra, transformou a água simples em vinho do júbilo familiar; que aceitou a cooperação de um burrico para receber homenagens do mundo; que meditou num horto, agonizou numa colina pedregosa, partiu em busca do Pai através dos braços de um lenho ríspido e ressuscitou num jardim. Relembremos semelhantes ensinos e recebamos a fazenda do Senhor, não como o filho pródigo que lhe desbaratou os bens, mas como filhos previdentes que procuram aprender sempre, enriquecendo-se de tesouros imortais.”

Emmanuel, em psicografia recebida pelo médium Chico Xavier, que estampa a introdução do livro “Cartilha da Natureza”


*Colaboração de Cristiane Mendonça

 

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