Quinta, 09 de junho de 2016

A loucura no palco

Baseado no livro homônimo de Hiram Firmino, espetáculo resgata,em montagem sensível e intensa, a trajetória do holocausto ocorrido no ex-maior hospício do Brasil

redacao@revistaecologico.com.br



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Desecologia humana: os loucos se abraçam para não morrer de frio - Imagem: Divulgação

Desecologia humana: os loucos se abraçam para não morrer de frio - Imagem: Divulgação

Sucesso de público, comoção e esperança na luta antimanicomial, iniciada há 37 anos com a vinda ao Brasil do psiquiatra italiano Franco Basaglia, que liderou o fim dos hospícios em seu país. Foi assim a estreia e contribuição, em Belo Horizonte, da peça “Nos Porões da Loucura”, lotando, durante quatro dias de apresentação, o Grande Teatro do Sesc Palladium, integrando o Festival Internacional de Teatro (FIT 2016).

Adaptada da série de reportagens publicadas pelo Estado de Minas em 1979 e reunidas em livro pelo autor, a montagem teatral resgata o horror - que não existe mais - vivido pelos pacientes portadores de sofrimento mental ou simplesmente indesejados pela sociedade na época.  Com dramaturgia e direção de Luiz Paixão, e produção de Ana Gusmão, o espetáculo relembra o extermínio cruel de 60 mil pessoas desde a fundação, em 1903, do ex-Hospital Colônia de Barbacena. Com inúmeros casos de negligência, abandono e indiferença, sua trajetória foi retratada pioneiramente na imprensa pelo então repórter Hiram Firmino, o que foi decisivo para a reforma psiquiátrica que se seguiu. Seu trabalho, depois lançado em forma de livro pela Editora Codecri, de “O Pasquim”, foi vencedor do “Prêmio Esso de Jornalismo” de 1980.

Como destaca Luiz Paixão,  “essas reportagens em série devem sempre ser lembradas pela sua importância histórica. E, sobretudo, de como colocar o jornalismo a serviço da 

dignidade humana. Foi a partir delas que surgiram outras obras que aprofundaram a discussão, hoje irreversível na área de saúde mental, abordando outros aspectos muito importantes também na luta antimanicomial”.

Sobre a colaboração da diretoria e funcionários do Instituto Raul Soares, Luiz também comentou: “Todos ali abraçaram o projeto, compreendendo a importância de se discutir, 

no âmbito do teatro, um dos mais graves e terríveis eventos da nossa história. Barbacena, como o Raul, é um ponto de partida para se discutir não só o tratamento de portadores, mas também os cruéis métodos de degradação do ser humano”.

Para a construção das personagens, o diretor propôs uma pesquisa das fotos de pacientes do Hospital de Barbacena presentes em livros. Cada um dos nove atores do elenco escolheu uma imagem e, a partir de uma postura corporal, elaborou sua personagem. Os figurinos da montagem foram desenhados pelo estilista Ronaldo Fraga, a partir de uma pesquisa estética e também histórica.

A trilha sonora é assinada por Marcus Viana, responsável pelas trilhas de novelas como “Pantanal”, “O Clone” e o filme “Olga”.

Na esfera da interpretação, tomou-se um grande cuidado para não cair na emoção melodramática ou na crítica leviana e irresponsável, facilmente permitidas pelo tema. O diretor optou, assim, por duas instâncias de abordagem e concepção cênica, em uma relação dialética de aproximação e distanciamento, que pretende equilibrar e conduzir o público à emoção. Mas, também, a ter uma visão crítica da história do Hospital de Barbacena.

Sobre isso, Paixão conclui: “Discutir um tema tão delicado como esse nos exigiu bastante cuidado. E, sobretudo, respeito absoluto com a memória dos que ali morreram e com os que estão vivos. Nos meus 40 anos de teatro, nunca me cobrei tanto quanto agora, fazendo ‘Nos Porões da Loucura’. Cobrança estética, política e ideológica. Não se pode ser irresponsável quando se trata da degradação, desumanização e da verdadeira animalização de pessoas que foram jogadas, sem nenhum cuidado e respeito humano, num hospital que deveria cuidar delas. E, simplesmente, as maltratou. O Estado não cumpriu sua responsabilidade para com essas pessoas. Agora, cabe a nós, artistas, cuidar para que essa história não seja esquecida nem se repita jamais. Nossa responsabilidade é enorme, e dela não fugimos”.

Saiba mais

O espetáculo “Nos Porões da Loucura” foi viabilizado com recursos das Leis Municipal e Federal de Incentivo à Cultura, com o patrocínio da CBMM, Unimed-BH e Cera Ingleza, em correalização com o SESC Palladium e apoio da Revista Ecológico.

www.poroesdaloucura.com.br

 

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