Quarta, 08 de junho de 2016

A loucura de volta ao museu

Espaço que conta a história dos 60 mil pacientes mortos no antigo Hospital de Barbacena é reinaugurado após denúncia de abandono feita pela Revista Ecológico

Cristiane Mendonça - redacao@revistaecologico.com.br



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Pavilhão Antônio Carlos: o antigo hospício  foi construído na antiga Fazenda da Caveira, que pertenceu a Joaquim Silvério dos Reis, traidor dos Inconfidentes. Hoje, abriga a esperança

Pavilhão Antônio Carlos: o antigo hospício foi construído na antiga Fazenda da Caveira, que pertenceu a Joaquim Silvério dos Reis, traidor dos Inconfidentes. Hoje, abriga a esperança

18 de maio último: “Dia Nacional da Luta Antimanicomial” e “Dia Mundial dos Museus”. A data não poderia ser mais significativa para a reinauguração do “Museu da Loucura”, onde antes funcionou o ex-Hospício de Barbacena (MG). Fechado há dois anos para reformas, o espaço - aberto em 1996 para não apagar da memória da sociedade o verdadeiro holocausto que ali ocorreu - passou por fases que foram do prestígio ao abandono, até a mais recente melhoria.

Localizado na torre central do antigo Hospital Colônia, atualmente intitulado Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), o museu faz parte de um prédio histórico construído em 1903 que foi cenário de um dos períodos mais sombrios na história psiquiátrica brasileira.

Estima-se que, entre os muros do CHPB, desde a sua construção, mais de 60 mil pessoas foram mortas vítimas de maus-tratos e negligência médica. E que apenas 25% dos internos possuíam realmente algum tipo de transtorno mental. Os demais pacientes eram pessoas com problemas de alcoolismo. Filhas que as famílias queriam esconder por terem engravidado fora do casamento. Esposas abandonadas pelos maridos. Jovens cujo comportamento era considerado rebelde pelos pais, entre uma centena de outras histórias que se esvaíram daquele local. Mas que, graças ao Museu da Loucura, serão constantemente rememoradas.

Reinaugurado numa tarde quente de outono, a reabertura do museu contou com a presença de autoridades federais e municipais, o corpo clínico do CHPB, além do Coral Pira Pirou, formado por alguns dos 144 pacientes sobreviventes do antigo hospício. Hoje, eles estão acolhidos em residências terapêuticas e recebem atualmente tratamento médico que nada lembra aqueles outros tempos de abandono e desumanidade.

O presidente da Fhemig, Jorge Nahas (à esq.), cumpriu a sua palavra ao reinaugurar o Museu da Loucura

Tanto que, na ocasião, foi lançado o livro “Uma Falha no Silêncio”, baseado em depoimentos amorosos dados pelos funcionários que lidam diariamente com os pacientes do espaço.

Segundo o presidente do CHPB, Wander Lopes, essas conquistas foram obtidas graças à capacidade que o espaço tem de se transformar. Ele conta que o Museu tem registradas 131.156 visitas desde a sua criação, mas que era preciso ser renovado. “Em junho de 2014 iniciamos um novo projeto de reestruturação do museu, com ampla reestruturação do prédio, adequação da área física e revisitação da área museológica. A nova exposição permanente mostra, além da história do hospital, informações sobre reforma psiquiátrica, a trajetória da luta antimanicomial e os serviços substitutivos em Barbacena, ampliando o conceito histórico e acrescentando os recursos tecnológicos”, relata.

Luz sobre um passado que durante muito tempo incomodou a cidade de Barbacena, segundo o prefeito do município, Antônio Carlos Andrada. Ele conta que os moradores conviveram com o estigma da loucura por longos anos e acredita que a cidade foi injustiçada nesse processo histórico. “Se houve erros e equívocos no tratamento da loucura, durante décadas e décadas, o barbacenense não era culpado disso. Era produto de uma concepção daqueles que concebiam o tratamento da loucura, e por meio dos órgãos estaduais e federais da época, impunham aquela meta, aquele trabalho”, avaliou ele, completando: “Era preciso tratar a loucura de uma maneira transparente, à luz do dia, para que a história fosse contada de forma verdadeira. E que Barbacena fosse colocada nesse processo de uma maneira justa”.

Para o secretário de Estado de Planejamento e Gestão de Minas, Helvécio Magalhães, também presente na reinauguração, o novo Museu da Loucura é um marco significativo para a luta antimanicomial. “Temos que manter viva a memória para que não se repitam os erros do passado”, salientou.


Imagem: Oswaldo Andrade

Uma outra sensibilidade

Jorge Raimundo Nahas, presidente da Fhemig

“O antigo Colônia e atual CHPB são autênticos lugares de memória, cujo valor vai além do patrimônio arquitetônico ou histórico, ou de um acervo valioso. São locais cujas evocações incitam ou impõem o recolhimento, a reflexão, a escolha. O nosso museu, o Museu da Loucura, cumpre com louvor este papel.

Ali, podemos perceber como tem sido longa, complicada e difícil a caminhada pelos direitos humanos, ou melhor, por uma sociedade garantidora de direitos. No terreno do sofrimento mental, da saúde mental, no terreno do Colônia, as marcas dessa caminhada ainda são visíveis, dolorosas e recentes. A minha turma da escola de Medicina dissecava cadáveres vindos, todos sabíamos, de Barbacena. Nem piores nem melhores que ninguém, não questionávamos o porquê daquela fonte farta. Respeitávamos mais o cadáver, aquela carne inerte, do que o ser humano que fora.

No Museu da Loucura e território do Colônia, nesta encruzilhada da razão e da desrazão, vemos como foi demorado esse reconhecer-se no outro, na loucura do outro. Reconhecer que somos todos pedaços da mesma madeira e que, portanto, temos direito, ainda que loucos, à individualidade preservada e cuidada e à dignidade em cada momento de nossas vidas.

O museu nos mostra que o Hospital Colônia não era um mundo clandestino e oculto. Mas foi necessário um outro olhar, um outro momento histórico, o desenvolvimento de uma outra sensibilidade para além da mera compaixão, para que percebêssemos que o que ali se passava era um insulto inaceitável e intolerável à humanidade.

O atual CHPB, herdeiro direto do Colônia, hoje integrante da rede de saúde mental da região, opera um assim chamado Hospital de Agudos. Ele recebe unicamente pacientes encaminhados da rede de Centros de Atenção Psicossociais (CAPS) da região, com média de permanência baixa e pactuada. Acolhe e cuida ainda, com respeito, desvelo e carinho admiráveis, dos internos remanescentes daqueles tempos sombrios. Todos eles, sem exceção, merecem viver em residências terapêuticas, adequadas naturalmente às suas necessidades, que eles conhecem melhor do que ninguém.”


Fique por dentro

O Museu da Loucura é fruto da parceria entre a Prefeitura Municipal de Barbacena e a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). O projeto museológico foi idealizado pelo historiador Edson Brandão. O lugar possui dois andares com salas cujas temáticas estão relacionadas ao passado e ao presente do CHPB. Há dois espaços multifuncionais onde são exibidas peças de artesanatos produzidas pelos pacientes do hospital em oficinas terapêuticas. Existem também salas com exibição dos instrumentos utilizados à época do Hospital Colônia, como algemas e aparelhos de eletrochoque. Em outro ambiente também é possível ler a série de reportagens de denúncia "Nos Porões da Loucura", de Hiram Firmino, publicada no jornal Estado de Minas em 1979 e vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo. Também estão expostas fotografias dos antigos internos do Hospital Colônia, que fazem um convite reflexivo sobre a história do tratamento de sofredores de transtorno mental.  

Saiba mais

www.fhemig.mg.gov.br


Confira a denúncia que a Ecológico fez em agosto de 2014 revelando os motivos pelos quais Barbacena quis acabar com o Museu, abandonando-o, em goo.gl/I00ZVa

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