Quarta, 08 de junho de 2016

Consumo responsável é a chave do equilíbrio

Extração responsável de madeira e de outros produtos de origem florestal, respeitando a capacidade de reposição da natureza, cria incentivo para a sua sobrevivência. Consumidor pode fazer a sua parte, optando por produtos certificados

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Reprodução

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Presentes em 31% da superfície terrestre, as florestas abrigam grande parte da biodiversidade e dos recursos vitais do planeta. No Brasil, mais da metade do território é coberto por florestas, com 60% desse total sendo formado pela Amazônia, totalizando cerca de 350 milhões de hectares.

Além de essenciais ao equilíbrio climático, as florestas também fornecem matéria-prima para inúmeros produtos e alimentos de amplo uso no dia a dia de toda a humanidade. Em nossas casas, seus produtos estão presentes no telhado, portas, janelas, móveis, papéis, lápis, embalagens, utensílios de decoração e ainda sob a forma de alimentos, tais como a castanha-do-pará e outros frutos amazônicos, além da erva-mate, espécie típica da Mata Atlântica.

Mas, infelizmente, o valor das florestas está longe de ser reconhecido e protegido na mesma proporção de sua importância para a manutenção da vida humana – em equilíbrio com a conservação do planeta. Uma das principais “contribuições” brasileiras para o aumento da temperatura da Terra é exatamente a destruição das florestas.

Entre as atividades humanas que provocam o aquecimento global – e consequentemente as mudanças climáticas –, estão o desmatamento, a queima de combustíveis fósseis (derivados do petróleo, carvão mineral e gás natural) para geração de energia, as atividades industriais e os transportes. A elas se somam a conversão e as mudanças na forma de uso do solo, a agropecuária e o descarte de lixo.

Conforme dados da ONG WWF-Brasil, as mudanças no uso do solo e o desmatamento nas diferentes regiões são responsáveis pela maior parte das emissões brasileiras e fazem do Brasil um dos líderes mundiais em emissões de gases de efeito estufa (GEE), especialmente de gás carbônico (CO²).

Isso acontece porque as áreas de florestas e os ecossistemas naturais são grandes reservatórios e sumidouros de carbono, por sua capacidade de absorver e estocar CO². Mas quando ocorre um incêndio florestal ou uma área é desmatada, esse carbono é liberado para a atmosfera, contribuindo para o efeito estufa. Vale ressaltar, ainda, que as emissões de GEE por outras atividades, tais como agropecuária e geração de energia, vêm aumentando consideravelmente ao longo das últimas décadas.

Matéria-prima renovável

Portanto, quando se fala em iniciativas para conter as avanços das mudanças climáticas, é essencial considerar as ações voltadas para o uso de madeira certificada. Com a missão de difundir e facilitar o manejo sustentável e seguro das florestas ao redor do mundo, o FSC – Forest Stewardship Council® (em português, Conselho de Manejo Florestal), com sede em Bonn, na Alemanha, está presente em mais de 80 países e é considerada uma das entidades mais atuantes do Brasil.

Sob o ponto de vista ambiental e social, a madeira nativa ou plantada com o selo FSC é mais vantajosa do que outros materiais de construção civil, como aço, cimento e plástico. Ao contrário desses materiais, a matéria-prima florestal é renovável e também contribui para a geração de renda e a valorização da floresta, fazendo com que se mantenha de pé e conservada.

Pilha de madeira certificada, na Mil Madeiras, Amazônia - © Greenpeace / Isabelle Rouvillois

É importante destacar, ainda, que toda madeira certificada é legal, mas nem toda madeira legal é certificada. Madeira nativa legal é aquela extraída da floresta mediante um plano de manejo aprovado pelo órgão ambiental competente. No transporte até o comprador, o produto precisa ter a documentação emitida pelo sistema de controle do governo.

Já a madeira certificada pelo FSC é obtida a partir de critérios ambientais, sociais e econômicos que são mais rígidos e abrangentes do que os exigidos pela lei, além de ser submetida a auditorias independentes periódicas. Na prática, compradores optam pela certificação também como garantia de legalidade, porque nem sempre a madeira vendida como “legal” teve a sua exploração autorizada. Em muitos casos, ela é extraída de maneira predatória de áreas proibidas, como terras indígenas e reservas ecológicas. O produto irregular chega ao mercado, porque o sistema de controle do governo que emite a documentação para o transporte é precário e sujeito a fraudes.

Panorama preocupante

Segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), entre fevereiro e março deste ano foram registrados alertas de desmatamento em 213 km² de floresta, o equivalente a um aumento de 113% em relação ao mesmo período de 2015.

Já a degradação teve um aumento ainda mais assustador – de 339% –, com alertas encontrados em 281 km². A degradação florestal, explicam os especialistas do Imazon, é causada pelo corte seletivo de árvores de interesse comercial de maneira exploratória e ilegal e também por queimadas intencionais. Esse processo enfraquece a floresta, diminuindo a sua capacidade de estocar carbono e conservar a biodiversidade, comprometendo assim as suas funções originais.

Entenda melhor

Ao diferenciar produtos florestais que respeitam o meio ambiente, os trabalhadores e o bem-estar das comunidades, o selo FSC subsidia decisões de compra por consumidores e empresas que buscam novas referências, além do preço, prazo e qualidade. Isso é essencial. Afinal, a força do consumo nunca esteve tão atrelada às questões ambientais como hoje.

É necessário obter matéria-prima para indústrias, produzir alimentos, construir moradias e gerar energia com redução de impactos ao equilíbrio do planeta e menor desigualdade no acesso aos recursos naturais.

Nesse contexto, o aumento da população mundial impõe novos e sérios desafios. Em todo o mundo, cerca de três bilhões de novos consumidores de classe média pressionarão os recursos naturais, nos próximos 25 anos, exigindo soluções e produtos sustentáveis.

Segundo a ONU, em 20 anos o crescimento econômico global elevou em 36% as emissões de gases de efeito estufa, ocasionando a perda de 12% da biodiversidade.

A preferência por madeira nativa certificada gera renda para as populações da Amazônia e evita que se derrubem árvores indiscriminadamente para implantação de pastagens e estabelecimento de outras atividades econômicas.

No Brasil, além do sistema FSC, há ainda a certificação do Programa Brasileiro de Certificação Florestal (Cerflor). Criado em 2002, ele segue critérios e indicadores nacionais prescritos nas normas elaboradas pela ABNT e integradas ao Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade e ao Inmetro.


O que é a FSC?

É um sistema de certificação florestal internacionalmente reconhecido, que identifica, por meio de sua marca, produtos originados do bom manejo florestal. Reconhecido mundialmente, o selo FSC atesta que a madeira e outros produtos não madeireiros têm como origem a produção responsável na floresta, dentro de regras que reduzem danos e permitem a regeneração do que foi explorado.

 

Quais as modalidades de certificação?

Manejo florestal: atesta que as empresas manejam a floresta de maneira responsável, de acordo com os princípios e critérios do FSC.

Cadeia de custódia: atesta a rastreabilidade da matéria-prima que sai da floresta até chegar ao consumidor final (ou seja, os produtos que levam o selo de cadeia de custódia foram de fato produzidos a partir de matérias-primas florestais certificadas pela modalidade manejo florestal).

Madeira controlada: atesta que produtos florestais provenientes de florestas não certificadas evitam fontes controversas. A madeira controlada FSC somente pode ser associada a produtos florestais certificados FSC, que são etiquetados como de fontes mistas.

 

Quais são as suas vantagens?

Para os produtores florestais

Preços melhores: a procura por madeira certificada é grande e aumenta a acessibilidade ao mercado internacional, especialmente europeu. Hoje, países como Holanda preferem importar madeiras certificadas FSC do que de outras fontes.

Aumento da produtividade: trabalhadores treinados em técnicas de manejo florestal reduzem o desperdício na floresta, já que não esquecem árvores cortadas em campo, não permitem que as árvores rachem no momento do corte e reduzem o desgaste de máquinas e equipamentos.

Melhoria de imagem: para empresas que trabalham com o setor madeireiro, o certificado FSC traduz a responsabilidade socioambiental com o manejo da floresta.

Para os beneficiadores e revendedores

Garantia de origem: ao comprar produtos certificados, a empresa sabe que a madeira que está consumindo provém de uma floresta bem manejada e, portanto, não está contribuindo para a exploração predatória dos recursos florestais.

Reconhecimento do mercado: um número crescente de consumidores conscientes estão dando preferência aos produtos que têm selo: seja piso, papel, lápis, porta, móvel ou até casa pré-fabricada. Para as empresas exportadoras, o selo pode aumentar a acessibilidade ao mercado mundial.

Responsabilidade social: empresas certificadas e aquelas que compram produtos com o selo estão traduzindo em ações o seu comprometimento com a responsabilidade social.

 

Para os consumidores

Garantia de origem: ao comprar produtos certificados, o consumidor consciente sabe que aquela matéria-prima florestal foi explorada através de técnicas de manejo, nas quais foram aplicadas localmente as leis ambientais e trabalhistas.

Contribuição para a causa: ao escolher um produto certificado, o consumidor está “premiando” as empresas responsáveis que respeitam a legislação, o direito dos trabalhadores e da comunidade, além de respeitar todos os padrões estabelecidos para um bom manejo da floresta.


Saiba mais

www.br.fsc.org

Assista ao vídeo “Procure o selo” https://goo.gl/eEKV8Z

Fontes/Pesquisa bibliográfica

Sites e cartilhas FSC Brasil / WWF Brasil e Ministério do Meio Ambiente.


Continue lendo:

Três perguntas para Aline Tristão Bernardes, diretora-executiva do FSC-Brasil

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