Quarta, 08 de junho de 2016

Inovação e crise de recursos

Como o investimento em soluções tecnológicas nacionais pode minimizar o impacto da crise hídrica e energética brasileira

Iaçanã Woyames - redacao@revistaecologico.com.br



font_add font_delete printer
Imagem: Domínio Público

Imagem: Domínio Público

Há alguns anos o Brasil sofre com a ameaça da crise hídrica e energética que acabou se concretizando de forma expressiva ano passado em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2016, o cenário geral apresentou melhoras, mas continua sendo alvo de preocupações. Afinal, os dados mostram que as torneiras secas não são resultado apenas da falta de chuva. O esgotamento dos reservatórios tem origem também no descuido com as nascentes, no desperdício e na gestão inadequada desse precioso recurso. Muito se fala sobre as causas da escassez de água e, consequentemente, os altos custos da energia. Mas o que pode ser feito para solucionar e minimizar seus efeitos? 

Entre as várias respostas, um caminho apontado por especialistas nos últimos anos é a inovação ambiental. O professor Cláudio Valladares Pádua, reitor da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade e vice-presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), afirma que “o Brasil é um ‘case’ que deve ser examinado de perto no campo da ciência e da tecnologia. Inúmeras vezes em que tentou de forma ordenada e bem planejada avançar nesse campo, o país mostrou sua grande capacidade de encontrar boas soluções. Estamos vivendo uma crise hídrica e energética associadas a um desafio climático e de perda de biodiversidade globais, que requer a busca de mais um desses momentos de sucesso nacional. A superação de nossos desafios deve, sempre que possível, se dar com soluções científicas e tecnológicas nacionais. Precisamos arregaçar as mangas e mostrar mais uma vez nossa competência”.

João Pirola, gerente de Prospecção da INSEED Investimentos, empresa responsável pela gestão do Fundo de Inovação em Meio Ambiente (FIP INSEED FIMA), criado pelo BNDES, e que está em busca de empresas com tecnologias que promovam a redução do impacto ambiental, complementa reforçando que hoje no Brasil existem diversas tecnologias com alto grau de inovação.

“Elas surgem tímidas, a partir de pesquisas científicas realizadas em universidades e laboratórios. São desenvolvidas a partir da perseverança de empreendedores em criar algo realmente novo, que resolva uma demanda do mercado e da sociedade. E, dado o desafio da escassez de recursos naturais, essas tecnologias já nascem com grande potencial para resolver não apenas um problema brasileiro emergencial, como a crise hídrica e energética, mas para gerar impacto de longo prazo, em dimensões globais”, explica.

A área de Prospecção da INSEED tem como papel buscar, analisar e efetivar o aporte de recursos do Fundo em empresas que atendam ao perfil procurado. João atua no planejamento e suporte de ações que atraiam empresas com esse perfil e na negociação das condições do investimento do Fundo junto aos empreendedores. Devido à atuação nacional, viaja constantemente pelo Brasil para conhecer empreendedores com muita vontade e capacidade de construir empresas de sucesso por meio da inovação. A seguir, ele relata vários cases de empresas que podem contribuir para solucionar algumas dessas questões. Confira: 

Minimizar o desperdício de água

Analisando os problemas relacionados à crise de recursos versus respostas inovadoras encontradas no mercado brasileiro, o desperdício de água é um dos grandes gargalos. Para se ter uma ideia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera aceitáveis níveis de perdas de até 15% de água, causadas por vazamento. Na Alemanha e Japão, o desperdício é de aproximadamente 8%, nos EUA, 15%. O índice mais baixo é em Tóquio, com 2%. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), ligado ao Ministério das Cidades, revelam que 37% de toda a água tratada e distribuída no Brasil se perde antes de chegar às torneiras dos consumidores. Mas como a inovação ambiental poderia contribuir para evitar isso?

João Pirola cita empresas com soluções ligadas à área de inteligência artificial e reaproveitamento de água. “Criada pela Optimale, a ferramenta LeakNow utiliza inteligência artificial para detectar vazamentos e desvios em tempo real em adutoras, redes, ramais, conexões e reservatórios. Trabalha de forma integrada com os sistemas das concessionárias. A Águas Guariroba, concessionária do Grupo Aegea em Campo Grande (MS), adota a solução e conseguiu reduzir o índice de desperdício de água de 56%, em 2006, para 20%, em 2013.”

Redução do consumo de água na agropecuária

Outro problema que está na mira do FIMA em sua busca constante por soluções inovadoras é o alto consumo de água na agropecuária. Segundo a Agência Nacional das Águas (ANA), no Brasil 72% da água captada para uso humano é destinada para irrigação, sendo 7% para uso industrial, 9% urbano e 12% na pecuária. “E no caso do agronegócio, as inovações no sistema de irrigação ajudariam a evitar uma grande dor de cabeça aos donos das lavouras e um alívio ao bolso dos consumidores na hora de pagar a conta no mercado”, lembra João.

Entre as empresas que estão saindo na frente e podem contribuir nisso destaca-se a Irriger, de Viçosa (MG), que oferece sistemas inteligentes de gerenciamento da irrigação, que racionalizam o uso de água e energia, enquanto aumentam a produtividade. “Eles ajudam a planejar a decisão de irrigação, definir metas de desempenho de suprimento de água às culturas, gasto de energia e eficiência de funcionamento dos equipamentos de irrigação. Junto ao sistema informatizado é associado um conjunto de serviços de inteligência para ajudar os gestores a tomarem decisões mais assertivas sobre a irrigação, além de treinamento para as equipes que atuam diretamente nele”, reforça João.

Fontes energéticas de menor impacto

De um lado está a estiagem, que atinge a Região Sudeste há pelo menos três verões e afeta, por consequência, o potencial de geração hidrelétrica. Do outro, o alto custo financeiro e ambiental das termelétricas, já que essa foi a alternativa encontrada pelo governo atual para a geração de energia. Com isso, a eletricidade alcançou o custo médio mais caro da sua história, além de embutir o uso recorde de fontes campeãs em poluição atmosférica, como o óleo diesel e o carvão mineral.

Para os caçadores de inovação ambiental do FIMA, parte da solução deste problema poderia vir da geração própria, ou da geração distribuída, que é quando consumidores industriais, comerciais e residenciais podem gerar pelo menos parte da energia de que necessitam. “Produzida de forma descentralizada, esse tipo de solução geraria melhoria na segurança do abastecimento (qualidade e constância) e maior previsibilidade dos custos”, explica João. O gás natural, por exemplo, é uma alternativa bastante viável para a geração distribuída em estados onde gás é barato e a energia, cara.

Mas em um gerador eficiente, apenas 40% da energia total do combustível usado é efetivamente transformada em eletricidade. Os outros 60% representam energia perdida para o meio ambiente, principalmente em forma de calor. Atualmente, projetos combinam o processo de gerar energia elétrica, com o aproveitamento da energia térmica desperdiçada pelo gerador.

A CPH Brasil, no Rio de Janeiro, é um exemplo de que a cogeração de energia tem potencial para alcançar até 90% de eficiência energética. Por causa disso, ela foi uma das empresas selecionadas pelo FIMA para receber investimento do Fundo. O aporte será de R$ 7,5 milhões e o objetivo do investimento é estruturar a CPH produtiva e comercialmente e permitir que reforce sua estrutura de pesquisa e desenvolvimento para incrementar seu pipeline de produtos.

Como viabilizar essas soluções?

Após conhecer tantas alternativas que poderiam solucionar, ou ao menos minimizar o impacto da crise hídrica e energética brasileira, uma questão permanece: o que falta para elas serem conhecidas, propagadas e adotadas de forma ampla? “Para a equipe do FIMA, um dos fatores que mais dificultam ou inviabilizam a contratação de soluções inovadoras por grandes empresas e poder público é o desconhecimento de que elas existem e o receio de contratar soluções de empresas pequenas e ainda sem nome no mercado. Já o empreendedor dos pequenos negócios inovadores desconhece ou tem dificuldade de acesso às fontes de financiamento que poderiam ajudá-lo a alcançar outro patamar de negócios e, assim, acessar governos e grandes empresas”, explica Alexandre Alves, diretor da Inseed Investimentos.

“Felizmente há um movimento crescente de abertura de grandes empresas para acolher propostas de pequenas companhias inovadoras, seja por meio de políticas internas que facilitam, ou ao menos viabilizam esse tipo de relação comercial, seja por outras formas mais estruturadas, que visam à criação de parcerias mais profundas e duradouras. As mais conhecidas são os concursos e a organização de rodadas de negócio para ouvir os empreendedores e suas novas propostas”, destaca.

De forma geral, as empresas inovadoras em fase inicial precisam de recursos financeiros e muita gestão estratégica para crescer e alcançar todo o seu potencial em mercados mundiais. Entre as fontes de recursos disponíveis, a que melhor se encaixa ao perfil de empresas com soluções tecnológicas inovadoras de alto impacto e grande potencial de crescimento em nível global é o Venture Capital, também chamado de Capital Empreendedor. “É uma das formas de captação de recursos na qual investidores, em troca de participação acionária, tornam-se sócios dos empreendedores. O Capital Empreendedor se aplica a todo empreendedor que tenha um negócio com diferencial competitivo forte, baseado em inovação, e esteja em busca de um crescimento acelerado”, diz Alexandre.

Geradores da CPH Brasil alcançam até 90% de eficiência energética  - Imagem: CHBrasil Divulgação

Como funciona o Capital Empreendedor?

Pode parecer complicado, mas não é. “Os investidores aportam seus recursos em fundos de investimentos com a expectativa de obter retornos financeiros posteriores. Esses fundos, por sua vez, otimizam a relação entre o risco e o retorno do capital dos investidores. Fazem isso aportando não apenas capital, mas também governança e gestão nas empresas investidas.

Em troca, as empresas “vendem” uma participação societária minoritária ao fundo de investimento. Essa transação permite que a empresa tenha recursos financeiros e gerenciais para desenvolver-se e implementar um processo em grande escala dentro de um período de tempo definido. A participação dos fundos de investimento no processo é a garantia de que os investidores terão retornos esperados”, explica João Pirola.

E é assim que funciona o Fundo de Inovação em Meio Ambiente (FIMA), criado pelo BNDES e gerido pela Inseed Investimentos. Ele possui R$ 165 milhões de capital para ser investido em até 20 empresas até o fim de 2016. O perfil das empresas procuradas pelo FIP INSEED FIMA são: instituições estabelecidas no Brasil, que desenvolvam tecnologias inovadoras e que tenham alto potencial de crescimento. Negócios relacionados à promoção da sustentabilidade e à redução de impacto ambiental nas cadeias de valor. E empreendimentos que incorporem inovação em suas tecnologias, produtos ou processos para favorecer o desenvolvimento de ciclos produtivos sustentáveis.

Desde 2012, a Inseed Investimentos, gestora do Fundo, prospectou 1.271 empresas, das quais 496 passaram do crivo inicial, 84 foram analisadas em profundidade e 12 desenvolveram seu projeto de investimento. Já foram investidos cerca de R$ 30 milhões em seis empresas. Os recursos são destinados a ampliar a capacidade produtiva, desenvolver recursos humanos e expandir mercados.


Reúso de águas das chuvas

Durante uma chuva intensa, um telhado de 100 m² recebe cerca de 15 m³ de água, que normalmente caem diretamente no solo, podendo gerar erosão e desperdício. O “ChoveChuva” é uma solução da empresa Hidrologia, de Nova Lima (MG). Eles criaram um dispositivo que não precisa ser conectado a fontes de energia e é instalado diretamente na calha da residência. Os resíduos são separados da água por turbilhonamento. A água ainda passa por pedras de calcário, por um clorador e por um filtro que retém partículas menores que um grão de talco. Ao fim do processo, a água pode ser armazenada em cisternas e aproveitada para diversos fins domésticos ou industriais, exceto para o consumo humano.

 

 

 


Aproveitamento

Imagem: Solar Energy / Divulgação

Outro exemplo é o uso de painéis de silício para a captura de energia solar e transformação dessa em energia elétrica própria. A Solar Energy, empresa criada em Curitiba (PR), já desenvolveu uma solução completa para residências e empresas. Em seu sistema (foto), o excesso de energia solar gerado durante o dia é injetado na rede da concessionária em horários sem luz solar. Isso gera créditos para serem consumidos pelo usuário posteriormente, o que reduz a necessidade de consumir energia da concessionária.

E que tal transformar resíduos em energia? As principais soluções encontradas no mercado com esse objetivo envolvem a maximização da geração de metano, gás com bom poder energético, produzido a partir de dejetos da produção de suínos e aves, resíduo sólido urbano, vinhaça de cana-de-açúcar e resíduos de indústria de alimentos.

A Methanum, empresa de Nova Lima (MG), desenvolve tecnologias e soluções que associam o tratamento de efluentes e resíduos orgânicos à geração de energia, oferecendo soluções customizadas, de acordo com a demanda do cliente.


Saiba mais:
Para conhecer o FIP INSEED FIMA e submeter seu negócio para receber investimento, acesse: 
www.inseedinvestimentos.com.br/fima

 

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário