Terça, 07 de junho de 2016

A volta da água no Grande Sertão

Projeto vencedor do “VI Prêmio Hugo Werneck” na categoria “Melhor Exemplo em Água”, comprova que a união entre iniciativa privada, ONG, governo e produtores rurais tem o poder de construir um futuro mais hídrico e sustentável para todos

Bia Fonte Nova e J. Sabiá redacao@revistaecologico.com.br



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Evaldo Barbosa mostra uma das nascentes em seu terreno:  em vez de secar, a água aumentou - Imagem: Nau Melo

Evaldo Barbosa mostra uma das nascentes em seu terreno: em vez de secar, a água aumentou - Imagem: Nau Melo

O mestre Guimarães Rosa há tempos nos ensinou: “Perto de muita água tudo é feliz”. E no Brasil de agora, enquanto inúmeras cidades vivem o pesadelo da falta d’água, Paracatu, no Noroeste de Minas, tem histórias preciosas para contar. E dá um valioso exemplo de como a conservação e o cuidado ambiental podem não só revitalizar a paisagem do sertão, mas sobretudo transformar mentalidades e comportamentos.

Lá, no coração do Cerrado, em terras onde há séculos brota ouro – o metal mais valioso e um dos esteios da economia local – a água, tesouro líquido da vida, também está voltando a borbulhar. Com o apoio e a conscientização de pequenos produtores rurais, nascentes e veredas antes ameaçadas pelo uso inadequado do solo, soterradas pelo pisoteio do gado e pelo desmatamento, estão aos poucos sendo resgatadas, irrigando e esverdeando sítios e fazendas localizadas na Bacia Hidrográfica do Rio Paracatu.

O fio condutor das ações é o “Projeto de Recuperação de Nascentes do Município de Paracatu”. Iniciado em 2009, ele é fruto de uma parceria entre a Kinross Brasil Mineração, a ONG Movimento Verde de Paracatu (Mover), o Instituto Estadual de Florestas (IEF) e proprietários rurais. No total, já são 150 nascentes cercadas e recuperadas, com mais de 60 quilômetros de cercas construídas. O total de áreas protegidas chega a 890 hectares – o equivalente a cerca de 1.200 campos de futebol. A meta para este ano é cercar mais 30 nascentes em todo o município.

Novos planos

As terras do seu Walter Ferreira Gomes, agricultor de subsistência de 72 anos, ficam no Assentamento 15 de Novembro. Ele é um dos 73 proprietários apoiados pelo projeto. A poucos metros de casa, seguindo pelo quintal, já dá para ver a água clarinha e fresca aflorando no terreno que, tempos atrás, era tão seco que parecia cimento.

“Chegamos aqui tem 19 anos com o ‘Movimento dos Sem Terra’. Ficamos um ano e meio acampados debaixo de lonas. Só depois é que conseguimos o assentamento pelo Incra. Tenho 36 hectares e meio. Antes, essa parte aqui, que tem as minas d’água, era toda seca, revirada por gado e outras criações. Agora, a gente até atola o pé em certas partes, de tanta água”, comemora seu Walter, ao lado da mulher, Antônia de Souza Oliveira, de 61.

Com o cercamento, a água das nascentes já enche um reservatório e, puxada por bombas, garante o abastecimento de mais quatro propriedades vizinhas. No sossego da roça, em meio ao piado dos pintinhos, o produtor conta que compra pouca coisa de comer na cidade. Boa parte do sustento da casa é ele mesmo quem planta e colhe: arroz, milho, mandioca e cana.

Junto com a água que ressurge do chão também brotam novos planos. Este ano, seu Walter quer aumentar a lavoura e plantar um pouco de feijão e hortaliças. No futuro, a ideia é formar uma pequena área irrigada e, assim, poder cultivar a terra o ano inteiro. “Hoje a gente planta é no sequeiro – no tempo das chuvas, que vai de novembro até meados de janeiro. Deus ajudando que a água aumente mais, a gente pensa em irrigar um pedaço de mais ou menos um hectare para poder plantar o ano todo. Seria bom demais.”

Seu Walter e dona Antônia: os buritis que eles plantaram cresceram e agora protegem a nascente - Imagem: Nau Melo

Vereda particular

Força de vontade e fé num futuro com mais água, verde e vida seu Walter já demonstrou ter de sobra. Prova disso é a vereda que está se formando em seu terreno. Há seis anos, ele recolheu coquinhos de buriti numa fazenda próxima. Colocou as sementes em saquinhos com terra e, meses depois, conseguiu uma porção de mudas. Oito delas vingaram e hoje estão crescidas.

Verdes e viçosos, os buritis ajudam a proteger a nascente e ainda fazem sombra para as piabinhas que se multiplicam por lá. Ariscas, elas são um indicador natural de que a água está limpa e pura.

“Eles falam que buriti leva de 10 a 15 anos pra crescer, mas resolvi plantar assim mesmo. Pensei: se eu não ver tudo crescido, meus filhos, meus netos e todo mundo que vier aqui depois vai ver. Sinto que estou fazendo a minha parte, deixando os buritis aqui para segurar a água.”

Ao falar como se sente diante desse reencontro com a água e a natureza, o agricultor se emociona. “Dá uma felicidade muito grande dentro do peito, de saber que tem água pra gente, pros vizinhos e pros bichos. Antes, com tudo seco e revirado pela criação, era triste. Tendo água perto tudo muda. A gente vive é melhor, com mais esperança.”

Ganhos coletivos

Para a Kinross, o grande diferencial do projeto é a proximidade mantida com os proprietários rurais beneficiados. A empresa não doa os materiais para cercar as nascentes e depois vai embora. O apoio e o acompanhamento das ações são permanentes. Também levam dicas e orientações sobre práticas de conservação do solo e legislação ambiental, estimulando o desenvolvimento local, uma proximidade que faz toda a diferença.

À frente de uma das ONGs mais antigas do Brasil, a Mover, criada em 1987, o ambientalista Antônio Eustáquio Vieira, o Tonhão – vencedor do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza 2013”, na categoria “Mobilização Social” – também se orgulha dos resultados alcançados.

Ao cercar e preservar nascentes e veredas, ele explica, o projeto diminui os efeitos negativos da compactação do solo pelo pisoteio de animais e do desmatamento, facilitando a infiltração da água da chuva no solo e, consequentemente, aumentando a recarga dos aquíferos e a vazão de cursos d’água que alimentam o Rio Paracatu.

A resposta da natureza à proteção recebida salta aos olhos. Tanto que, mesmo em períodos de seca, as nascentes seguem vivas. E permitem tanto a manutenção da produção agrícola e da pecuária, quanto o abastecimento de inúmeras famílias da região. Para Tonhão, o mais importante de tudo é o envolvimento da comunidade, a mudança de comportamento das pessoas.

“Muitos falam em educação ambiental, mas é muito mais do que isso. O que fazemos aqui é convencimento ambiental. No começo, alguns proprietários ficavam ressabiados, com medo de receber ajuda para cercar as nascentes e perder suas terras. Hoje, entendem que o trabalho é sério e constatam na prática os benefícios tanto para a natureza quanto para os envolvidos.”

Barulhinho bom

Na visita ao sítio do produtor rural Evaldo Barbosa Nascimento, de 60 anos, fica fácil entender a satisfação estampada nos rostos de Tonhão, seu Walter e Tobias. Mesmo sem ter caído quase nada de chuva nos últimos meses, a água corre cristalina entre a vegetação e chega a formar uma cascatinha. Dá para ouvir o barulhinho bom da água de longe. Em parte dos 37 hectares do terreno, seu Evaldo planta soja, milho e sorgo.

 Tonhão, seu Walter, e Tobias: unidos pela água e a volta dos buritis - Imagem: Nauh Melo

Cria também umas 20 cabeças de gado e vende, em média, 150 litros de leite por dia para uma cooperativa de Paracatu. Na casa só moram ele, a mulher e um filho. Mas a água das nascentes que ele protege já é suficiente para abastecer outros três vizinhos. Enquanto caminha pela mata, o agricultor espanta a timidez. Aos poucos, vai falando sobre a transformação ocorrida nos últimos tempos.

“Moro aqui há cinco anos. Depois que cercamos as minas a água voltou com força. Lá pra baixo, a uns 200 metros, tem até mais água que aqui. Quando vier a chuva, ela aumenta ainda mais”, explica o produtor, mostrando um dos vertedouros usados pela equipe do projeto para monitorar o nível e a vazão da água nas nascentes protegidas, a cada 15 dias.

No começo, a água custava a alcançar o vertedouro. “De uns dois anos pra cá, ela aumentou tanto que chega até a transbordar, mesmo com pouca chuva”, afirma seu Evaldo. Respeitada, a natureza retribui e também serve de abrigo para espécies da fauna. “Aqui tem muito bicho,  passarinho. É macaco, quati, caititu (porco-do-mato), tatu-canastra, jacu e mutum. Tem época que aparece anta. Uma vez, vi uma oncinha daquelas pequenas, a jaguatirica. Cobra tem também: jararacuçu, cascavel e coral”, enumera, sem demonstrar o menor sinal de medo.

Nova visão

Engenheiro ambiental, Tobias Tiago Vieira, da empresa Refloreste, é o responsável pelo levantamento das áreas a serem cercadas. Faz o mapeamento dos terrenos por georreferenciamento, supervisiona a construção das cercas e também monitora a vazão da água em todos os vertedouros construídos.

Os números que Tobias controla refletem exatamente a mesma percepção que seu Evaldo tem no dia a dia, a olho nu: a de que a água está aumentando com o passar dos anos. “Desde 2012, quando iniciamos o monitoramento dos vertedouros, constatamos que a produção de água aumentou entre 12% e 20% em toda essa região, variando conforme as características do solo”, compara Tobias.

Na Fazenda Nova Esperança, próxima ao sítio do seu Evaldo, essa nova visão de respeito e de cuidado com a água também ganha terreno. Na tarde seca e quente de outono, a represa cheia de água surge como um verdadeiro oásis. “Aqui o trabalho e os custos foram otimizados. Em vez de cercar as nove nascentes, uma por uma, decidimos proteger a reserva por inteiro. Deu mais de 70 hectares”, detalha Tonhão, que apresentou os resultados do “Projeto Nascentes” durante a Conferência Rio+20, realizada em 2012, no Rio de Janeiro.

Enquanto todos conversam, comentando sobre escassez e a crise hídrica, Tonhão se inquieta. E, categórico, faz um alerta: “Aqui em Paracatu comprovamos que o que existe mesmo no Brasil é falta de gestão e de carinho com a água. Com cuidados simples, estamos ajudando a proteger esse bem natural, que vale mais do que o ouro. Afinal, a água é essencial para a sobrevivência de todos nós. Hoje e no futuro”, conclui o ambientalista.


Futuro planejado

“Além de apoiar o Projeto Nascentes, também investimos em educação e cultura. A ideia é que até o fechamento da mina, previsto para 2030, a cidade consiga estruturar novos projetos destinados à geração de emprego e renda, tornando-se cada vez menos dependente da mineração. Em parceria com a prefeitura e a comunidade, queremos definir um uso futuro planejado, estruturado e sustentável em alinhamento com as vocações do município. Há opções de uso que serão discutidas com a comunidade. Uma delas é transformar toda a área minerada em um parque aberto ao público, ajudando a fomentar o turismo ecológico, cultural e gastronômico, que crescem de forma expressiva em Paracatu.”

 Alessandro Nepomuceno, Diretor de Sustentabilidade e Licenciamento da Kinross - Imagem: Divulgação


Entenda melhor

As ações do “Projeto de Recuperação de Nascentes do Município de Paracatu” contemplam o cadastramento dos proprietários, o mapeamento das áreas, a aquisição, o transporte dos materiais, o cercamento e o monitoramento da vazão das nascentes.

Paralelamente, é realizado um amplo trabalho de educação ambiental, envolvendo todos os proprietários rurais beneficiados.

Funcionários do Departamento de Desenvolvimento Sustentável da Kinross visitam as propriedades, levando informações e materiais educativos sobre: práticas de conservação do solo, a importância da preservação das áreas de nascentes e os seus benefícios, bem como orientações sobre legislação ambiental.

Em 2012, a Kinross contratou uma empresa especializada para a instalação de nove vertedouros, em nove das nascentes protegidas. Os dados de vazão e qualidade são coletados e analisados quinzenalmente, comprovando a eficácia dos cuidados adotados.

A maior parte do investimento financeiro no projeto foi feito pela Kinross, totalizando mais de R$ 300 mil.

Algumas fases de execução foram custeadas pela ONG Mover e também pelo IEF, que cedeu estacas de madeira para os cercamentos. Os comitês de bacia hidrográfica dos rios São Francisco e Paracatu também são parceiros do projeto.

A Bacia do Rio Paracatu abrange: Bonfinópolis de Minas, Brasilândia de Minas, Buritizeiro, Cabeceira Grande, Dom Bosco, Guarda-Mor, João Pinheiro, Lagamar, Lagoa Grande, Natalândia, Paracatu, Patos de Minas, Presidente Olegário, Santa Fé de Minas, São Romão, Unaí e Vazante.


Saiba mais

www.kinross.com.br

 

 

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