Terça, 07 de junho de 2016

A sustentabilidade na gestão

Dirigentes cristãos de vários países publicam trabalho de reflexão sobre a encíclica ecológica do Papa Francisco

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Lançada em 2015, a encíclica “Laudato Si” (“Louvado Seja”), do Papa Francisco, trouxe um sopro de renovação ecológica e espiritual para a humanidade. Endossada por representantes de outras religiões, como também por ambientalistas e políticos, ela recebeu apoio de líderes empresariais que vêm implantando uma nova forma de administrar suas empresas, por meio da gestão focada na espiritualidade – seguindo os valores do ensinamento social de Cristo.

É o caso dos dirigentes cristãos de empresa, reunidos e representados no Brasil pela ADCE-MG (saiba mais no box ao lado), entidade filiada à União Internacional de Associações de Dirigentes Cristãos de Empresa (Uniapac), fundada na Bélgica na década de 1930. Em fevereiro passado, eles publicaram os “Comentários da Uniapac a respeito da Encíclica Laudato Si do Papa Francisco”, um trabalho colaborativo feito com a participação de empresários engajados de países como Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Equador, Itália, México, Paraguai e Uruguai.

“A Uniapac entende também que as condições atuais do mundo requerem um compromisso do setor empresarial ainda maior e mais amplo do que se pratica hoje em dia. E que a sustentabilidade só é possível se garantirmos a existência da cultura de responsabilidade empresarial com foco no ser humano”, afirma Sérgio Cavalieri, presidente da ADCE Uniapac Brasil.

Para ele, segundo a ótica exclusiva dos processos empresariais, do trabalho e da atividade econômica, não é arriscado ou custoso almejar que princípios e valores respeitosos ao próximo e ao meio ambiente sejam aplicados nos procedimentos de empresa e de todos os integrantes da cadeia de valor. “Além de nos completar como seres humanos, garantem, sem nenhuma margem de erros, maior competitividade, perenidade e lucro, tanto para o empresário quanto para seus empregados e partes relacionadas”, defende. E é exatamente esta visão que o Papa Francisco queria despertar no meio empresarial.

“A ‘Laudato Si’ é de fato uma contribuição relevante da Igreja para os dirigentes cristãos tomarem consciência de sua responsabilidade em relação aos problemas que afetam toda a humanidade. Ela convida todos a contribuírem, apontando caminhos e sugestões para a solução dos problemas ambientais e sociais que afetam a todos”, complementa o presidente da ADCE Minas, Sérgio Frade.

A seguir, a Ecológico selecionou alguns trechos da declaração da Uniapac a respeito da encíclica do Papa Francisco, já considerado um dos importantes estadistas que atuam hoje na defesa do meio ambiente. Confira:

Visão integral

“O Papa não só faz referência, corretamente, para as dimensões ambiental, econômica e social da ecologia, mas acrescenta uma quarta dimensão: a ecologia cultural. Ele nos convida a construir lideranças que marquem caminhos, procurando atender às necessidades das gerações atuais, incluindo a todos, sem prejudicar as gerações futuras. Se não nos vemos entre nós como irmãos e se não aplicamos o princípio que salienta a respeito de que aquilo que acontece a um de nós, ocorre para todos nós, então qualquer desenvolvimento, que possamos alcançar, não será integral.”

Clima comum

“Ao definir o clima como ‘um bem comum’, o Papa Francisco faz coincidir o foco da sua Carta totalmente com aquele da tradição quanto à doutrina social. (...) A Uniapac adere plenamente à seguinte proposta: em ‘uma ecologia integral, que não exclua o ser humano, é indispensável incorporar o valor do trabalho’. É fundamental  proteger o meio ambiente se, além do mais, queremos resguardar a dignidade da pessoa humana que necessita de forma ‘mais plena e mais fácil’ do acesso aos recursos naturais como meio para obter a sua própria perfeição.”

Pelos pobres

“O princípio da solidariedade e da opção preferencial pelos pobres chama para dar uma maior atenção ‘às necessidades dos pobres, fracos e vulneráveis’. Sobre este ponto, a Uniapac apoia a chamada do Papa para que ‘se continue procurando, como prioridade, o acesso ao trabalho da parte de todos’ e compartilha as crenças de que ‘ajudar os pobres com dinheiro deve ser uma solução provisória para solucionar urgências’.”

Atividade empresarial como nobre vocação

“A Uniapac considera as palavras do Papa como uma fonte de ânimo quando manifesta: “A atividade empresarial, que é uma nobre vocação orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos, pode ser uma maneira muito fecunda para promover a região onde instala os seus empreendimentos, especialmente se entender que a criação de postos de trabalho é parte ineludível do seu serviço para o Bem Comum.”

Progresso tecnológico é a solução?

“O fenômeno da globalização e do progresso tecnológico causou vários desequilíbrios no mundo: a pobreza e a desigualdade, a transformação do mercado de trabalho e do emprego, a falta de instituições efetivas e a questão da ecologia. Todos eles são graves problemas que a humanidade deve encarar hoje em dia. Nossas sociedades devem administrar os riscos e acelerar as mudanças com a finalidade de promover não só a sustentabilidade social e ambiental, senão também o desenvolvimento integral do ser humano. Como afirmou o Papa acertadamente: ‘um desenvolvimento tecnológico e econômico, que não logra um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não pode se considerar progresso’.”

Ordem econômica

“Os países menos desenvolvidos e de economia mais frágeis, evidentemente, são aqueles que mais serão beneficiados com tais correções feitas no modelo de crescimento e uma economia aberta lhes ajudará a assegurar um crescimento estável. Sob estas condições, a corrupção e o capitalismo clientelista são reduzidos e o efeito do desenvolvimento econômico positivo chega, diretamente, àqueles mais pobres.”

Ordem política

“O Estado de Direito (ao invés da lei do mais forte) é, certamente, a única solução. Não é suficiente apelar para o sentido individual e moral de cada dirigente de empresa. A ética é, ao mesmo tempo, ‘individual’ e ‘institucional’.”

Diálogo aberto

“Para conseguir o exposto acima, um diálogo aberto é imprescindível. O Papa, refletindo isto na ‘Laudato Si’, dirige a sua palavra não só para a Igreja, senão também ‘a cada pessoa que habita este planeta’ e exprime a sua vontade de ‘entrar em diálogo com todos a respeito da nossa casa comum’.”

Parceria cristã ecológica

Doravante, em todas as luas cheias, os empresários e empreendedores que integram a Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE) irão receber a Revista Ecológico fisicamente em seus endereços, além de também poderem acessar, via digital, todo o seu conteúdo editorial, replicando-o entre os seus funcionários, clientes e fornecedores.

Esta ideia de parceria surgiu desde a cobertura jornalística que a Ecológico fez, na edição 85 (veja capa ao lado), do “10º Seminário Internacional de Sustentabilidade” e “XXV Congresso Mundial da Uniapac”, realizados em outubro do ano passado, lotando o Grande Teatro do Palácio das Artes, na capital mineira. Na opinião do mundo político, empresarial e institucional ligado à questão ambiental, tratou-se de um dos mais concorridos, inovadores e aprofundados eventos sobre sustentabilidade já realizado no país, incluindo até espiritualidade na gestão. Justamente uma das pautas defendidas pela revista.


Saiba mais

www.adcemg.org.br


Fique por dentro

A ADCE UNIAPAC Brasil – Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa é uma ONG fundada em São Paulo em 1961, que posteriormente se expandiu para várias regiões do país, estando presente hoje em seis estados do Brasil. Tem como objetivo a formação dos líderes empresariais segundo os valores do ensinamento social cristão para que conduzam seus negócios visando à geração de riqueza de forma sustentável e a distribuição desta riqueza com justiça, tendo como pressupostos básicos a dignidade da pessoa humana e o bem comum.


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A ecologia da sustentabilidade

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