Segunda, 06 de junho de 2016

Parto no sertão

“Antigamente, muié buchuda era tudo saudia, tomando conta de casa, varrendo terreiro, cuidando de roça”

Marcos Guião * redacao@revistaecologico.com.br



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“Antigamente, muié buchuda era tudo saudia, tomando conta de casa, varrendo terreiro, cuidando de roça” - Imagem: Marcos Guião

“Antigamente, muié buchuda era tudo saudia, tomando conta de casa, varrendo terreiro, cuidando de roça” - Imagem: Marcos Guião

Num gastou nem bater palmas pra Maria do Céu apontar na porta da frente de sua casa, enxugando as mãos nas alvuras de seu avental protegendo o vestido multicolorido. Depois dos primeiros cumprimentos, cacei jeito de assentar num banco antigo, disposto no avarandado da casa simples e fresca. Maria também se acomodou na outra ponta e deu de me contar sobre o casamento da filha de sua vizinha de roçado. E daí a se lembrar dos antigos, foi um tim.

“Pois é, seu Marcos, quando tinha casamento por aqui, as muierada se ajuntava formando um rodeiro lá no meio do mato, fechado em derredor da noiva, pra ela se trocar da roupa de poeira que vinha se ajuntando indesde a roça. E os home tamém fazia a merma coisa pra dar tratamento no noivo.”

Eu sempre me encanto com suas histórias e quando vejo que ela tá soltando a língua, fico de lado só dando corda enquanto vou anotando tudinho. “E as muié num dilatava tempão iguarmente hoje pra se apresentá prenhe. Antigamente, muié buchuda era tudo saudia, tomando conta de casa, varrendo terreiro, lavando roupa, cuidando de roça. De premeiro, as muié trabaiava muito na roça ajudando os maridos. Buchudas, elas num procuravam nada e nem ninguém. Só mermo é na hora das dores de nascimento que se buscava a parteira.”

Enquanto mirava suas mãos calejadas, ela continuava a contar suas aventuras que eu não ousava interromper: “Já segurei muito minino nessas minhas mão, tirava eles, rezava em riba do bucho pro resto do parto sair e dava de primeiramente cuidar do bebê. Era cortano o umbigo, dano banho nágua morna, e dispois se dava um tiquim de óleo de mamona misturado num chá de funcho, pra tirar a ferragem que fica garrada nas entranha. Se ele já nasce na berração caçando comida, o melhor é buscar uma muié que já tá dando leite, pois os dois ou três primeiros dias vem pouco ou nenhum leite na mãe”.

Maria levava seu olhar para um longe, colorindo as palavras com sua poesia vivida no simples. “A muié parida ficava quieta, apartada de fazimentos, só tomando chá de raiz de salsa e mentrasto. Por três dias, ela num arribava da cama. Se o parto se desse cedo, era servido um pirão de frango novo sem os pés, com uma dose de garrafada. Mas se fosse do meio-dia pra tarde, ela só vinha bulir em comida dia seguinte cedo. Por seis mês ela num podia comer fava e nem repolho, nem dobradinha, nem pequi ou quiabo.

Dispois de sete dias é que o minino dava de sair pra fora da casa. Curava umbigo com azeite de mamona misturado com rapé de fumo, molhando em derredor do pé do umbigo. As veiz num tinha fumo e a gente usava pena de galinha torrada para se misturar no azeite e aplicar. Um paninho alvinho era furado no meio e vestido o umbigo, amarrando uma faixa para proteger.”

Daí em diante, ela me arrastou pra cozinha enquanto passava um café servido com os enfeitos de suas quitadas. Pois é minha gente, vida na roça tem tempo de ouvir e contar. Ontem escutei e hoje conto. Inté a próxima lua!

 


(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.

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