Segunda, 02 de maio de 2016

Conheça os vencedores do VI Prêmio Hugo Werneck

Saiba mais sobre a história e as conquistas dos ganhadores do Prêmio Hugo 2015

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Melhor Exemplo em Comércio de Bens e Serviços

Projeto Alambique Escola

O projeto vencedor desta categoria tem abrangência nacional. E, cada vez mais, vem contribuindo para melhorar a qualidade da cachaça artesanal brasileira e difundir sua produção autossustentável. Ao ensinar os cidadãos e o próprio setor como seguir os princípios básicos dessa produção, a empresa idealizadora deste projeto mantém a tradição de transmitir conhecimento sobre como se fazer cachaça artesanal. E ajuda a estimular o reflorestamento, por meio do plantio de mudas de árvores utilizadas na produção dos tonéis.

Há também o uso zero de fungicidas na produção de cana, a queima do bagaço, que produz energia térmica e elétrica a partir de biomassa. E o baixíssimo uso de água. As necessidades hídricas na fase agrícola são sanadas naturalmente pelo regime de chuvas. Desde 2004, este projeto, que está sediado na cidade mineira de Itaverava, já formou mais de dois mil mestres ecoalambiqueiros de vários estados do país.

“O Prêmio Hugo Werneck é um incentivo e um fomento para as empresas como a nossa, que estão sempre batalhando pela preservação ambiental. Nós conscientizamos toda nossa equipe de colaboradores para aplicar a prática autossustentável na empresa. Esse prêmio veio coroar um trabalho que vem sendo desenvolvido há quatro anos”, pondera Paulo César Rodrigues, diretor-executivo da Taverna de Minas.

Bruno Lourenço e Paulo César Rodrigues, diretores da Taverna de Minas, com Sérgio Frade (ADCE) e Afonso Maria Rocha (Sebrae)

Melhor Exemplo em Educação Ambiental

Projeto Navegando com o Theo

A Lei Federal 9.795, de abril de 1999, instituiu a educação ambiental como parte integrante e necessária para a boa formação dos cidadãos brasileiros. E a iniciativa reconhecida nesta categoria deixou uma semente de esperança no coração e na mente das comunidades por onde passou. Trata-se do programa “Navegando com o Theo pelo Rio das Velhas”, uma expedição itinerante criada desde 2013 para conscientizar pessoas e entidades públicas pela revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas.

“Acredito que a iniciativa deu muito certo porque a empresa e o Estado não compraram um projeto, mas uma ideia. Ele começou muito pequeno e surgiu quando uma pessoa chegou até nós e disse: ‘Por que vocês não levam essas informações para as populações ribeirinhas?’. Aí a semente foi plantada. Agora a gente vê o fruto e é muito bom!”, agradeceu Luisa Marilac, coordenadora do “Navegando com o Theo pelo Rio das Velhas” na Semad.

Com atividades lúdico-pedagógicas junto a alunos do ensino público e comunidades, o programa, executado em conjunto com a TantoExpresso, contemplou 41 localidades da bacia hidrográfica. Desde a sua nascente, no Parque das Andorinhas, em Ouro Preto, até o seu encontro com o Velho Chico. Mais de 63 mil pessoas participaram das ações de educação ambiental. Em 120 dias de expedição, foram realizados 117 eventos e distribuídos mais de trinta mil kits educativos.

Paulo e Pedro Vilela (TantoExpresso), Luisa Marilac, coordenadora do projeto na Semad, acompanhada de Rodrigo Deangelis (TantoExpresso), Elisa e Marina Werneck, bisnetas de dr. Hugo, e Eduardo Costa (Record)

Melhor Exemplo em Fauna

Projeto Pirarucu

Por uma questão de segurança alimentar e equilíbrio ecológico do bioma amazônico, o “Projeto Pirarucu” vem sendo desenvolvido de forma permanente há mais de 15 anos. O motivo? Garantir a conservação e a manutenção sustentável de uma espécie muito popular de peixe que povoa e reina nos rios amazônicos. Apenas na Reserva Mamirauá, na região do Médio Solimões, Amazonas, a população desta espécie aumentou 25% e a renda média anual dos pescadores cresceu 29%. Desde o início do seu manejo sustentável, o número de participantes do projeto também subiu: de 42, no ano 2000, para 1.351 em 2014.

O êxito da iniciativa, idealizada e coordenada por Mário Lúcio Reis, superintendente do Ibama no Amazonas, também pôde ser conferido no aumento da produção: foram quase 485 mil kg no ano passado, 1.500% a mais em relação a 1999. O projeto, que nasceu na década de 1970, por meio de uma ação do Movimento Eclesiástico de Base (MEB), da Igreja Católica, é dirigido a comunidades ribeirinhas da Amazônia onde ocorre manejo da espécie, a populações indígenas, transportadores e comerciantes.

“Esse é um prêmio altamente inspirador, motivador, e o nosso objetivo é divulgá-lo o máximo possível, tanto dentro quanto fora do Ibama, para que outros bons exemplos de conservação ambiental se multipliquem Brasil afora. Saímos daqui motivados a trabalhar cada vez melhor e ainda mais conscientes de que é preciso valorizar o amor e o respeito em nossa relação com a natureza e, principalmente, entre nós, humanos. Com amor, respeito e união estaremos sempre fortalecidos e prontos para superar os desafios que surgirem”, afirmou Marcelo Campos, superintendente-regional do Ibama em Minas Gerais e no Espírito Santo, que recebeu o prêmio em nome de Mário Lúcio.

Marcelo Campos (Ibama-MG e ES), Roberto Messias (Ecológico) e o jornalista Antônio Carlos Lago (MMA): esperança amazônica

Melhor Exemplo em Mobilização Social

André D’Elia

Por meio do documentário “A Lei da Água”, que já foi assistido por mais de 100 mil pessoas nos cinemas brasileiros e explica a relação entre o novo Código Florestal e a crise hídrica que assolou o país, André D'Elia usou a sua arte para ressaltar a importância da conservação das florestas e a manutenção dos nossos recursos hídricos. O seu documentário dá voz a agricultores e especialistas, apresenta técnicas agrícolas sustentáveis bem-sucedidas e conta ainda com a colaboração de cientistas e parlamentares que apoiam a Ação Direta de Inconstitucionalidade do novo Código Florestal no Supremo Tribunal Federal. Ainda assume um compromisso com a sociedade brasileira ao mostrar como a legislação ambiental influencia a qualidade de vida de cada cidadão.

Ele também é a mente por trás do filme ‘Belo Monte: Anúncio de Uma Guerra’, lançado em 2012, que mostra como a obra da hidrelétrica vem sendo imposta à sociedade sem dialogar com os índios da região. “A Lei da Água” conta com produção executiva do cineasta, e agora ambientalista, Fernando Meirelles e também já foi visto na internet por mais de três milhões de pessoas.

André D’Elia infelizmente não pôde estar presente na cerimônia. Mas enviou seu recado em vídeo: “A mobilização social é um tipo de atividade que depende de diversos outros coletivos. Ela pressupõe que as pessoas acreditem na ideia e a levem adiante. ‘A Lei da Água’ questiona uma legislação federal e aborda aspectos técnicos específicos da ocupação do solo, que são importantes para a nossa sociedade em âmbito local. Então, proteger aquele riozinho, aquela nascente, evitar a ocupação irregular de encostas, em lugares de alto risco, é essencial à nossa realidade. Eu sentia que havia um buraco, em termos de discussão desse assunto. E de, realmente, levá-lo a sério. Muito obrigado!”.

Maria Dalce Ricas (Amda) e Roberto Fonseca (Oncomed): em nome da legalidade hídrica no país

Melhor Exemplo em Água

Projeto Nascentes/Kinross

O projeto sui generis da Kinross Mineração de identificação, cercamento e recuperação de 47 nascentes na região de Paracatu, Minas Gerais, integrante da bacia hidrográfica do São Francisco, chamou a atenção dos jurados do “Prêmio Hugo Werneck” também em 2015. Isso mesmo. Ao espalhar sementes de buritis no entorno das nascentes recuperadas, os agricultores assistidos pela empresa trouxeram de volta não apenas a beleza típica dessa vegetação característica do Cerrado brasileiro. Mas também a fixação natural da água no solo. Lembrando a famosa frase de Guimarães Rosa, de que “perto da água tudo é feliz”, integrantes da Comissão Julgadora e da Revista Ecológico foram à região conferir a iniciativa e não tiveram dúvida. Os resultados exitosos do projeto serão mostrados em uma reportagem especial na próxima edição da Ecológico.

“Ganhar o Prêmio Hugo Werneck é motivo de orgulho para a Kinross, principalmente quando consideramos aspectos essenciais do nosso projeto, como o envolvimento da comunidade e a mudança de cultura que ele está promovendo em toda a região. Desde 2009, estamos atuando junto aos produtores rurais que preservam e usam a água no campo. E, quando percebemos que eles e suas famílias estão cada dia mais conscientes de que ela é um recurso precioso – que deve ser preservado agora e sempre –, sentimos que o Projeto de Recuperação de Nascentes está atingindo o seu principal objetivo”, afirma Alessandro Nepomuceno, diretor de Sustentabilidade e Licenciamento da Kinross.

E completa: “Iniciativas como a do Prêmio Hugo Werneck, de valorizar e divulgar bons exemplos de gestão, são indispensáveis para a evolução da consciência ambiental em todos os segmentos sociais”. O projeto tem a parceria da ONG Movimento Verde de Paracatu (MOVER) e o apoio do Instituto Estadual de Florestas (IEF).

Alessandro Nepomuceno (Kinross), Antônio Vieira (MOVER), o agricultor local Walter Gomes e Delano Wagner Laine (Copasa): "Perto da água tudo é feliz"

Melhor Exemplo do Terceiro Setor

Fundação Amazonas Sustentável (Fas)

Uma organização de utilidade pública estadual e federal, 100% brasileira e sem fins lucrativos, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) trabalha já há sete anos com as comunidades ribeirinhas do Amazonas. Age de maneira participativa e com apoio do Governo do Estado, via Bolsa Floresta, em soluções locais para o desenvolvimento sustentável do maior estado da Amazônia Legal brasileira, com o seu bioma exuberante e hídrico preservado, ainda não atingido mortalmente pela devastação e degradação ambiental à sua volta.

Com 85 colaboradores compromissados e motivados, as ações somadas desta ONG já estão presentes em 16 Unidades de Conservação do Estado do Amazonas. Elas ocupam uma área superior a 10,8 milhões de hectares, preservando florestas, rios, igarapés e gente também: índios e caboclos, que moram nelas. Duas excelências de sustentabilidade e amor à natureza chamaram a atenção para a sua indicação à sexta edição do prêmio. Primeiro: o fato de as comunidades, através do “Programa Bolsa Floresta”, valorizarem e manterem todo o bioma de pé. Ou seja, através de pagamento por serviços ambientais prestados, as comunidades se tornaram guardiãs das suas águas e florestas. E não mais a sua ameaça, comum e suicida. E, segundo, por meio do envolvimento e apoderamento dessas comunidades na causa ecológica, não por acaso, o desmatamento nas unidades de conservação estaduais em que essa ONG atua é hoje, comprovadamente, 50% menor que as demais unidades desassistidas no estado.

“Este prêmio é muito simbólico para todos que atuam na FAS e para mim, que deixei as Minas Gerais e me radiquei no Amazonas depois de comer um jaraqui. Os amazonenses dizem que quem come esse peixe não sai mais de lá. Estou no estado desde 2012, cuidando, de uma certa forma, para fazer com que a bomba d’água, que são os rios voadores, que mandam chuva para Minas e outros lugares, continuem funcionando”, afirmou Virgílio Viana, superintendente-geral da Fundação.

Gláucia Drummond (Fundação Biodiversitas), Virgílio Viana (FAS) e Tarcísio Caixeta (Câmara Municipal de BH): um prêmio pela preservação da maior floresta do planeta

Destaque Municipal (1)

Projeto Ipiranga Sustentável

Com o objetivo de promover a educação ambiental entre crianças e jovens, o projeto começou a ser desenvolvido em uma pequena escola rural no sudeste do Paraná, em 2009. A partir de 2013, a iniciativa, que conta com o apoio da Associação dos Revendedores de Insumos Agropecuários dos Campos Gerais (Assocampos), passou a acontecer no âmbito do município de Ipiranga, abrangendo hoje todas as suas escolas.

“Acreditamos que todas as pessoas podem, com pequenas atitudes, mudarem o lugar onde vivem. Somos um município pequeno, não temos uma grande estrutura nem muitos recursos financeiros. Sabemos que o país passa por uma crise, mas acreditamos que as crianças podem mudá-lo. Se precisamos investir em algo, tem de ser nelas, que farão alguma coisa no futuro. E é isso que estamos fazendo em nossa cidade”, garante Danielle Costa Oliveira, coordenadora de Projetos Ambientais da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

Entre os temas abordados nas palestras, visitas técnicas, atividades em classes e mutirões que o projeto promove, estão a coleta e o descarte correto de embalagens de agrotóxicos, reciclagem, economia de água e de energia. Mais de 1.600 crianças e familiares participam atualmente do projeto, mesmo depois de a cidade ter sido arrasada por tempestades de granizo que assolaram o sul do país.

Danielle Oliveira e Cíntia Baldissera (Prefeitura de Ipiranga), acompanhadas da vereadora de BH, Elaine Matozinhos, e Eduardo Bandeira (Rede Catedral)

Destaque Municipal (2)

Duarte Gonçalves Júnior

Como na canção de Chico Buarque, o homenageado nesta categoria não chegou “como quem vem do florista”. Mas, sim,  diferente na cena midiática. Trouxe um urso de pelúcia enlameado e o coração em choque diante do que viu acontecer de trágico em seu município. Ele teve um infarto de pequena escala, mas se recuperou tão determinado e veloz como as águas cheias de rejeitos que desceram distritos bucólicos rio abaixo, rumo ao Doce, virando sal.

Ao mesmo tempo em que ajudou a socorrer as vítimas e chorar seus mortos, também deu as mãos à empresa mineradora que causara a maior tragédia socioambiental na história do país.

Com a mão esquerda, sem ódio nem demagogia, preferiu afagar e orientar os seus munícipes, no tocante aos seus direitos e reconstrução do que perderam. Com a direita, firme e solidária, voltou-se igual para a empresa. Optou por apoiá-la a recuperar de maneira sustentável sua capacidade de operação e produção, visualizando os empregos, salários, impostos e qualidade de vida que escorreram juntos.

E com as duas mãos postas, antes que 2015 chegasse ao fim, ele tomou Mariana no colo e foi até a Conferência Mundial do Clima, em Paris. Não para denunciar e chorar a tragédia. Mas, muito além do jardim da natureza degradada, pedir ajuda à comunidade internacional. Mostrar, enfim, que a esperança e a reconstrução existem. E não há nada mais sustentável e subversivo que acreditar e lutar por isso.

Ao receber o Prêmio Hugo Werneck, Duarte Júnior arrancou suspiros da plateia ao agradecer a esposa, Regiane. “Hoje é uma data duplamente simbólica para mim. Primeiro, por estar recebendo o Prêmio Hugo Werneck. E, segundo, por estar comemorando 15 anos de casamento com a minha esposa. Queria dedicar este prêmio a ela. Casei com 21 anos e queria dizer que me arrependi. Deveria ter casado com 18, porque eu encontrei a pessoa certa para a minha vida.”

Mas foi seu pedido igualmente amoroso de reconstrução dos distritos e do meio ambiente, devastados na tragédia de Mariana, que marcou a cerimônia:

Duarte Júnior, prefeito de Mariana, Délio Malheiros, vice-prefeito de BH, e Diogo Franco, presidente da Feam

Respeito pela vida

Duarte Júnior (*)

“A gente precisava ter a sabedoria das decisões. 90% da arrecadação do município vem da mineração. E de outro lado, o que mais importa, é a preocupação com o ser humano, com a vida, e também com o meio ambiente. Não podíamos deixar de abrir mão de nenhum desses dois lados que coloquei.

Temos deixado claro à Samarco que o que queremos agora é uma cidade recuperada, em relação ao meio ambiente; a reconstrução de Bento Rodrigues de forma resiliente, com placas solares, calçamento com blocos intertravados, e assim ser referência para todo o país como um distrito autossustentável.

Queremos um memorial em Bento, em Paracatu de Baixo, que também foi totalmente devastado, para que isso sirva de exemplo para todo o país.

Queremos muito a recuperação do nosso Ribeirão do Carmo, do nosso Rio Doce, mas sempre com a consciência de que, antes da tragédia, não vínhamos fazendo a nossa parte. Principalmente em Mariana, onde todo o esgoto é depositado sem tratamento neste rio, que precisa ser recuperado.

Recebendo este prêmio, aumenta muito a minha responsabilidade de trabalhar ainda mais pela recuperação da nossa cidade e principalmente do meio ambiente. Há espaço para a mineração, desde que ela saiba respeitar a vida humana e a natureza.”

 

Destaque Estadual

Projeto Reciclar / Emater

Realizado com simplicidade em Glaucilândia, no norte de Minas, o grande vencedor desta categoria nasceu a partir de demandas dos agricultores familiares do município. Iniciado há um ano, o projeto tem números que já impressionam: são 128 agricultores atendidos, sendo que metade deles já reutiliza garrafas PET para armazenar feijão, evitando o uso de inseticidas para combater o caruncho. Mais de cinco toneladas de ferro velho, alumínio, papelão e plástico foram recolhidas na zona rural da cidade, contribuindo para diminuir os focos de dengue em 90% com relação ao ano anterior. Além disso, 120 kits de sementes de hortaliças já foram distribuídos aos agricultores para esverdear o meio ambiente local e trazer a água e os bichos de volta.

“Em nome da Emater do município de Glaucilândia, dos agricultores que acreditaram nesta proposta e aceitaram limpar seus quintais, agradecemos à Revista Ecológico pelo reconhecimento. O projeto agora é chamado de ‘Reciclar – Menos Lixo e Mais Segurança Alimentar’, porque conseguimos, através da limpeza dos quintais, distribuir mais de 1.500 mudas frutíferas aos agricultores, implantamos pequenas hortas, num total de 150, e distribuímos mais de 1.200 pintinhos. Com isso, também estamos conseguindo melhorar a alimentação dessas famílias”, completou Antônio Dumont Machado, extensionista agropecuário da Emater em Glaucilândia.

 

Ricardo Demicheli e Marcelo Franco (Emater-MG), Willer Pós (Erecicla), Antônio Dumont, extensionista agropecuário em Glaucilândia, e Evandro Alvarenga (Sete Soluções): reciclando o campo

Destaque Nacional

Conservador das Águas / Extrema

Em 2014, o grande vencedor na categoria “Destaque Nacional” foi o Programa Fantástico, da TV Globo, que explicou por que o fantasma hídrico que assolou o Sudeste brasileiro, particu-larmente em São Paulo, tem a ver com cada árvore que ainda permitimos ser jogada ao chão na Floresta Amazônica.

Foi uma verdadeira aula de educação ambiental, enfatizando uma velha receita da natureza: onde tem árvore, tem água. E onde tem água, tem árvore, tem a natureza e a vida de todos nós melhoradas e preservadas. Em 2015, a Globo abriu espaço em pleno Jornal Nacional para mostrar o vencedor dessa categoria: o projeto “Conservador das Águas”, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Extrema (MG). Ele envolve 170 produtores rurais, já plantou um milhão de árvores e conseguiu, assim, restaurar 30% das áreas de mananciais do município, na divisa de Minas com São Paulo.

“Em 2003, recebi das mãos do próprio dr. Hugo o ‘Prêmio Minas Ecologia’, realizado pelo ‘Estado Ecológico’, precursor da Revista Ecológico. E agora, ganhar um prêmio que leva o nome dele é duplamente gratificante”, ressaltou Paulo Henrique Pereira, secretário municipal de Meio Ambiente.

Juliano Toledo, João Batista e Paulo Henrique Pereira (Prefeitura de Extrema),recebem o Prêmio Hugo Werneck de Maria Elvira Salles (ACER)

Saiba mais:

Assista ao vídeo de Extrema no link https://youtu.be/uFyXAiM9698.  Saiba mais em reportagem especial na próxima Ecológico.

Melhor Empresa

Fiat Chrysler Automobiles

Uma das primeiras empresas do país a conquistar a certificação ambiental ISO 14.001, a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) foi também pioneira em deflagrar e compartilhar a causa da sus-tentabilidade. Ao tomar conhecimento, pela imprensa, de que uma de suas fornecedoras con-tratadas não dava a destinação ecologicamente correta do lixo que gerava na sua fábrica, jogando-o na natureza, o que esta empresa fez? Estendeu à toda sua cadeia de parceiros a obrigação de também se certificarem perante a legislação ambiental brasileira. Na época, isso foi uma revolução. Hoje, esta empresa do ramo automotivo também colhe os frutos de 10 anos de seu programa social exemplar que já atendeu mais de 21 mil moradores de um bairro vizinho à sua fábrica, até então famoso pelo baixo índice de desenvolvimento humano e altís-simo grau de violência e criminalidade. O programa, cuja logomarca é ilustrada por uma árvo-re, o símbolo da vida, fez a comunidade local apoderar-se de seu próprio destino, com diver-sos projetos de capacitação, geração de trabalho e renda, mais o seu fortalecimento com ações socioeducativas. Detalhe: a FCA já consegue recircular 99% de toda a água que utiliza no seu processo industrial. Só não atinge os 100% porque o 1% restante a própria natureza faz evaporar.

“Temos a responsabilidade, como cidadãos, de pensar nas próximas gerações. Como indús-tria montadora e automobilística, trabalhamos muito para fazer essa convergência entre  pro-dução, sustentabilidade econômica e a ambiental, tão importante para o planeta. Também estamos pensando na água, nos resíduos, nas pessoas, no ambiente urbano e em projetos para transformar os carros em algo cada vez mais amigável ao meio ambiente. Finalmente, levamos esse troféu, que tem o nome de amor à natureza. Que tem o nome de Hugo Werneck, uma referência e um orgulho para todos nós mineiros pelas práticas e valores que ele sempre pregou e praticou. No momento em que o país vive essa crise ética sem precedentes, a gente falar de amor é muito importante. Amor à natureza, à vida e ao nosso país”, disse Marco Antô-nio Lage, diretor de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da FCA.

Roberto Baraldi, Luciana Costa e Marco Antônio Lage (Fiat), Nestor Sant'Anna (Ecológico) e Henrique César de Renault Baeta, primeiro vice-presidente do SICEPOT-MG

Saiba mais:

www.fiat.com.br

 

Melhor Empresário

Luiz Otávio Pôssas Gonçalves

Visionário. Determinado. Bom de prosa. De bem com a vida e dono de uma impressionante trajetória pessoal e profissional. O vencedor desta categoria foi o idealizador da cerveja Kaiser, da água de coco Kero Coco e da cachaça Vale Verde, eleita uma das melhores e mais ecológicas aguardentes artesanais do Brasil. É o criador do Vale Verde Alambique e Parque Ecológico, um complexo ambiental e turístico construído em 2012 e localizado a 42 km de Belo Horizonte. Abriga e preserva mais de 1.200 espécies de animais, muitos deles ameaçados de extinção, e combina cenários marcados por muito verde e água, incentivando o encontro dos visitantes com a natureza. Lá também funciona a sua outra empresa, Jiboias Brasil, especializada na criação e manejo de serpentes. E a Megazoo, fábrica de ração animal, que introduz a proteína de insetos na composição das rações para peixes, aves, répteis e mamíferos.

“A gente vem a esse mundo para deixá-lo um pouquinho melhor. Para produzir algo de bom e gerar riquezas num sentido bem mais amplo do que aquelas que se guarda no bolso”, disse o empresário em entrevista exclusiva à Revista Ecológico, publicada na edição 70.

Ele não pôde estar presente no evento. Mas foi representado por Jacqueline Pereira, gerente de Marketing da Vale Verde, que lembrou a sua filosofia ecológica: “Sabemos da importância que é cuidar da natureza e nosso presidente proporciona isso no nosso dia a dia. Ele transforma a vida das pessoas através desse cuidado que a gente tem com o nosso parque, seja a fauna seja a flora que preservamos e ali se multiplica. O que fazemos, perante a grandeza e o estado atual da natureza é uma gota no oceano do que precisamos cuidar. E tentamos fazer o melhor possível”.

Antônio Batista (Fundação Dom Cabral), Jacqueline Pereira (Vale Verde) e Nívea Freitas (Recóleo)

Saiba mais

www.valeverde.com.br

 

Melhor Projeto de Parceiro Sustentável

Estação Ciência / Anglo American

Enquanto aguardava seu licenciamento ambiental completo, a Anglo American Brasil não descuidou de outro compromisso proposto pela Constituição Brasileira: a implantação da transversalidade da educação ambiental onde atua. Ela inaugurou a Estação Ciência, na forma de um museu interativo, com o acompanhamento e a benção de entidades ambientalistas históricas. Um espaço aberto ao público, com o objetivo de ser parceiro das comunidades e escolas dos municípios na área de sua influência.

“Antes de a Anglo American pensar em operar em Minas Gerais, já havia pessoas preocupadas em defender esse lindo Estado. De maneira alguma conseguiríamos fazer isso se não tivéssemos parceiros. Esperamos que ele continue por muitos anos”, disse Aldo Souza, diretor de Saúde, Segurança e Desenvolvimento Sustentável da Unidade de Negócios Minério de Ferro Brasil da Anglo American. Ele também agradeceu à Associação Mineira de Defesa de Ambiente (Amda) e à PUC Minas, parceiros do projeto.

O resultado maior da Estação Ciência já acontece, que é proporcionar a todo tipo de visitante, e a seus próprios funcionários e familiares, um local de vivência e aprendizagem práticas no que diz respeito à preservação da natureza, cultura, memória e modo de viver das populações locais. A Estação Ciência já foi visitada por mais de cinco mil crianças e jovens educandos de Conceição do Mato Dentro, Dom Joaquim e Alvorada de Minas, no coração ferrífero do Estado, onde se localiza a planta industrial da empresa vencedora.

Ao fim de seu discurso, Aldo também dedicou o prêmio à equipe de biólogos, antropólogos, espeleólogos, arqueólogos e engenheiros que atuam no projeto. E deixou uma mensagem ecológica para o público presente: “Gostaria de fazer um pedido, como brasileiro. Vamos levar nossa atenção também para o Espinhaço, a nossa cordilheira brasileira. Desde o Morro do Pai Inácio até a Cachoeira do Tabuleiro, passando pela Terra de Chica da Silva e o Pico do Itambé”.

Eloah Rodrigues, diretora da Ecológico, Aldo Souza, da Anglo American, e José Cláudio Junqueira, ex-presidente da Feam: um projeto pela cordilheira brasileira

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brasil.angloamerican.com

 

Melhor Parceiro Sustentável

Siamig

Representante de um setor estratégico tanto para o desenvolvimento sustentável do país quanto para a redução das emissões de gases de efeito estufa, a Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig) engloba 400 empresas que produzem energia limpa e renovável. E, num total de 121 cidades mineiras, ainda planta cana-de-açúcar, sua principal matéria-prima, de maneira ecologicamente correta, também chamada de cana verde.

“Não produzimos só o etanol, que todos conhecem, mas também bioeletricidade, energia elétrica que auxilia no Brasil a iluminar as casas da nossa população e as indústrias. Representamos um setor que está em pauta hoje, após a COP-21, dentro das metas que o governo brasileiro corajosamente assumiu até 2030. Temos o desafio de sair de um consumo de 28 bilhões de litros de etanol no Brasil, número do ano passado, para 50 bilhões. Precisaremos de muito esforço e trabalho dos atuais empresários e de novos investidores, sejam nacionais ou estrangeiros, que virão para o país”, ressaltou Mário Campos Filho, presidente da Siamig, durante seu discurso de agradecimento.

Graças à tecnologia limpa, o setor já eliminou o antigo e antiecológico método de queimar os canaviais, escurecer os céus e apagar as estrelas. Ele já reusa quase toda a água utilizada em seu processo industrial. Reaproveita 100% de todos os resíduos que gera, a exemplo do vinhoto que já não polui os nossos rios e virou fertilizante natural. Eliminou os antigos plantios que, tradicionalmente, eram feitos próximos dos cursos d’água. Replantou e recuperou em seus lugares, com espécies nativas, todas as matas ciliares, trazendo de volta os buritizeiros e as veredas de Guimarães Rosa. E hoje assiste, com orgulho e esperança, a volta dos animais silvestres em suas propriedades consorciadas com as áreas naturais que preserva.

Mário Campos Filho (Siamig) e Nalton Moreira (Semad): pela cana ecológica e a volta dos animais

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www.siamig.com.br

 

Personalidade do Ano

André Trigueiro

Midiático, globalizado e altamente formador de opinião, André Trigueiro é jornalista especializado, com pós-graduação em Gestão Ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele é carioca, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ. Autor dos livros “Mundo Sustentável 1 – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” e “Mundo Sustentável 2 – Novos Rumos para um Planeta em Crise”.

Não existe profissional de imprensa no Brasil mais conectado e premiado na área ambiental do que ele. Já são 23 reconhecimentos públicos acumulados até agora. Seu prêmio maior, que ele ainda não ganhou e já divide antecipadamente com seus leitores, reporta um outro ambiente, maior e espiritual. Retrata uma outra ecologia, interna e profunda, onde não existe poluição nem desamor ao próximo. Onde somos todos construtores e colhedores, algozes ou amorosos, degradadores ou ecológicos, do nosso destino comum sobre a Terra e a natureza que nos resta.

Trigueiro é ainda autor do livro “Viver é a melhor Opção”, sobre a desecologia do suicídio no Brasil e no mundo. Também é o editor-chefe do programa “Cidades e Soluções”, da Globo News, comentarista da Rádio CBN e divulgador-voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV).

“Todo jornalista interessado em meio ambiente é, por definição, ecochato e biodesagradável. Entretanto, para cumprir a nossa função social é preciso denunciar, com amor, os crimes de lesa-planeta. Precisamos sinalizar com uma perspectiva, muito rapidamente, no meio dessa avalanche de denúncias e de conflito inimaginável no Brasil”, afirmou ele, ao receber o prêmio.

E destacou aos presentes três fatores que fizeram de 2015 um ano inspirador para todos que militam em favor da vida: “A encíclica Laudato Si, do primeiro Papa Francisco da história da Igreja, que definiu com muita clareza os rumos que a humanidade precisa seguir para ter alguma chance de existir. Quem duvida do poder deste homem não pode esquecer que Obama esteve em Cuba graças a Francisco. Ele é um líder político. Segundo movimento: a ONU chancelando os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em lugar das Oito Metas do Milênio, com prazo até 2030, com o cumprimento de vários objetivos para o setor público e privado. Esta é a régua que vai medir quem está seguindo o caminho da ética e se preocupando com o coletivo. Terceiro movimento: a COP-21, em Paris, que decretou que no século XXI os combustíveis fósseis não terão o mesmo prestígio e importância que tiveram no século passado. Nós vimos no atacado um movimento fecundante de novas ideias e novas atitudes. Mas esta luta se resolve no varejo conosco, pessoas físicas e jurídicas. E aí temos uma questão importante: business as usual (o negócio como de costume), cumprir legislação ambiental e trabalhista é pouco. É sinônimo de ecocídio. O tamanho do desafio que temos pela frente exige atitude na direção da inovação, da coragem e da ousadia. Quem não for capaz de seguir este caminho não merece receber prêmio, pendurar diploma na parede e não merece ficar dizendo por aí que é amigo do meio ambiente. Precisamos fazer mais e melhor, já!”.

André Trigueiro e Sidemberg Rodrigues, da ArcelorMittal: não ao ecocídio mundial

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www.mundosustentavel.com.br

 

Homenagem Especial

Carlos Drummond de Andrade / Léo Santana

O nosso poeta maior nunca poupou versos de denúncia nem de preocupação e amor à natureza e trouxe um novo pensamento na atividade minerária. Seu sentimento de mundo acha-se imortalizado desde 2002 na forma de escultura, no calçadão de Copacabana. O autor da obra, Léo Santana, é mineiro, artista e ambientalista, que se inspirou em uma foto real (veja ao lado) de Drummond. O escultor que fez esta maravilha é a tradução mais ecológica do sentimento do poeta, razão pela qual foi homenageado nesta edição do prêmio.

No início da luta ambiental pós-ECO/92, Léo Santana morava e tinha seu ateliê no distrito de São Sebastião das Águas Claras - Macacos, em Nova Lima. Mas foi no próprio leito do rio assoreado que passava próximo à sua casa que ele montou uma das mais comoventes e denunciadoras exposições ao ar livre.  Essa instalação artística se chamou "Alquimineria", que vem de alquimia + mineração. Não era apenas uma denúncia: ela também propunha, desde aquela época, o diálogo imprescindível entre economia, meio ambiente e sociedade, chamado mineração sustentável. Ou, no seu sentido mais amplo... desenvolvimento sustentável!

“Receber este prêmio é um sinal de que temos dado passos certos. Gostaria de agradecer à Revista Ecológico e também a todas as pessoas que trazem no pensamento e na atitude o amor à natureza e à sustentabilidade”, disse Léo Santana, que recebeu a homenagem em nome de Drummond.

Léo Santana e Evandro Xavier, chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Cultura de Minas: atitude

 

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Homenagem do Ano

Projeto “Cultivando Água Boa”

Vencedor do Prêmio “Água para a Vida 2015”, da ONU, na categoria “Melhores Práticas em Gestão da Água do Planeta”, o programa “Cultivando Água Boa”, de Itaipu Binacional, é um conjunto de 20 subprogramas que acontece em 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Rio Paraná. Abrange um território de 800 mil hectares e um milhão de habitantes situados no entorno do reservatório de Itaipu. Ao todo, são 217 microbacias que contam com diversas ações e técnicas para a proteção e recuperação de suas nascentes e cursos d’água. Além disso, há outras iniciativas voltadas a novos meios de produção agrícola e animal, consumo, conservação da biodiversidade e educação ambiental. E também dá atenção especial a segmentos socialmente vulneráveis como indígenas, agricultores familiares, pescadores e catadores de materiais recicláveis.

Em um discurso emocionado, o diretor de Coordenação e Meio Ambiente de Itaipu Binacional, Nelton Friedrich, falou sobre o êxito e as conquistas do “Cultivando Água Boa”, que está sendo implantado em Minas e, brevemente, em toda a bacia do Rio Doce. Confira:

João Bosco Senra, diretor de Operações Sudoeste da Copasa, Nelton Friedrich (Itaipu)  e Luciano Lopes, editor-executivo da Revista Ecológico: conexão Minas-Paraná

Afetividade e efetividade

Nelton Friedrich*

“Quero compartilhar este prêmio com todos os cuidadores do Planeta Terra. O programa nasceu de uma motivação especial da direção da empresa em 2003, durante a estruturação do seu planejamento estratégico. Percebemos que Itaipu era uma obra feita com muitos corações e mentes envolvidas. Construímos um olhar 20 ou 30 anos à frente, considerando o principal ativo que Itaipu tem, que é a água. Ela gera quase 18% de toda a energia que o Brasil consome, com as bênçãos da Caixa D’água do Brasil, Minas Gerais, ao possibilitar que as águas da Bacia do Rio Grande gerem esta energia. O mais importante é que não ficássemos na água nesse sentido mais estrito, mas na sua essencialidade, na sua sacralidade: a água como vida.

Foi pensando assim que criamos o ‘Cultivando Água Boa’. Ele tem uma abordagem sistêmica. Somos apenas fios da teia da vida. E o que nós fizermos para a teia, estaremos fazendo para nós mesmos. Esta visão implica em romper com determinadas estruturas de gestão ultrapassadas. Era preciso trabalhar com valores como a ética do cuidado. Só cuida quem ama. E, para amar, tem que reaprender a amar, reaprender a amar a nascente, o que se come, o que se bebe, o que se respira, a vizinhança, a comunidade, o sentido existencial, os conceitos, crenças, saberes, sabores. Em outras palavras, são os valores que estão interconectados com a generosidade, a amorosidade, com a cooperação num mundo que acha que só a competitividade funciona. Essas razões nos levaram a criar uma metodologia, que foi decisiva. Ao mesmo tempo em que fazíamos  inclusão social e produtiva, pensávamos: onde poderíamos atuar? Só no reservatório? Não. E sim na bacia hidrográfica, porque essa é a unidade de planejamento da natureza. No dia que os seres humanos entenderem isso, e que não há um ser humano, uma empresa ou um governo que não esteja em outro lugar senão a microbacia, nós vamos revitalizar a esperança. E reconhecer que temos de recuperar os microespaços para recuperar o Planeta Terra.

No ensinamento do nosso diretor-geral, Jorge Samek, é preciso pensar grande e começar pequeno. Mas andar rápido. Começamos por duas microbacias no estado do Paraná. Hoje já são 217 mil recuperadas, incluindo todas as suas nascentes, e conservação de solo. Também já conseguimos recuperar 1.400 quilômetros de mata ciliar, sem nenhuma briga, ação em juízo e pagamento por serviços ambientais. Apenas pelo convencimento, porque a mata ciliar é apenas o produto. O mais importante é o processo. Isso fez com que nós tivéssemos 2.800 quilômetros de estradas readequadas, porque grande parte delas eram erosivas. E para os municípios estamos agregando cada vez mais o conceito de cidades sustentáveis, revendo o uso da água e com amplo processo de compreender a importância do compromisso assumido por todos os prefeitos de zerar o problema de saneamento onde estamos atuando.

Rasgamos o que havia de história de repassar recursos para outros fazerem. Uma empresa cidadã tem de estar junto, ser atriz e ator. Como é que se constrói um conceito de responsabilidade compartilhada? Governança inovadora não é prato feito. Ninguém mais aguenta isso. Não adianta a pessoa ser a mais entendida de água no planeta, se não entender de gente. Se a pessoa não entender de gente não serve para trabalhar no ‘Cultivando Água Boa’ e em programa de recuperação da natureza. A seiva que move o programa está no envolvimento das comunidades. São 2.380 parceiros. Não são pessoas físicas, são organizações, entidades e associações. Estamos falando de mais de 270 mil pessoas que já foram ou estão envolvidas com a recuperação e a preservação da natureza onde vivem. Nós estamos falando de 15.400 protagonistas em educação ambiental, e não apenas dos cinco funcionários que temos nessa área. O fundamento da educomunicação é decisivo para que nós possamos avançar no processo transformador, compreender a democracia de alta densidade. Tocar corações e mentes, reflexão para a ação.

A cultura da água passa por dois componentes: afetividade e efetividade. Afetividade porque se trabalha a ética do cuidado. Nós trabalhamos com aquilo que o dr. Hugo defendeu: ‘Não há instrumento de mudança mais importante do que amor’. Ele tem razão. Há um novo jeito de ser. Um ser mais afetivo. Menos logos e mais pathos. Mais sentimentos e emoções. Menos lógica e razão. E, por essas razões, homenageando Hugo Werneck, esse novo jeito de ser e sentir também passa por um novo jeito de ser e viver, que implica uma nova forma de produzir e consumir. Eu acredito nisso. Chegará um dia em que não teremos mais premiação para a sustentabilidade, porque ela será a própria existência de todos nós.”

(*) Diretor de Coordenação e Meio Ambiente de Itaipu Binacional.

Destaque Internacional

Papa Francisco

Hiram Firmino, Dom Joaquim Mol Guimarães, que recebeu o troféu em nome do Papa, e o Pe. Fernando Lopes, diretor-geral da Rede Catedral de Comunicação: pela ecologia espiritual e planetária

Houve um tempo em que ser de esquerda, lutar pela democracia, pela liberdade e os direitos humanos era ser subversivo. Significava ser preso, torturado e morrer nos porões da ignorância política e do desamor humano. Esse tempo, da forma histórica e heroica como se deu, já não se repete mais. Hoje em dia, não sabemos mais quem é de esquerda, centro ou direita. Em quem e no quê confiar, tamanha a falta de ética na política, na economia e no sistema financeiro mundial.

Perdulária e escravizada, a humanidade insiste em adorar um bezerro de ouro, o do lucro pelo lucro, que não deu certo. Só destruiu o planeta, poluiu as nossas águas e aumentou a distância entre os ricos e os pobres. E não respeita e reverencia ao Deus natural, que criou o paraíso e todas as formas de vida que sustenta a nossa travessia humana. Esse é o grande e mortal pecado da civilização atual.

Por meio da encíclica “Laudato Si” (“Louvado Seja”), um chamado à ação e também uma crítica voraz ao desenvolvimento insustentável, nosso “Destaque Internacional” de 2015 – o Papa Francisco – entendeu isso e tornou-se o mais surpreendente estadista e esperançoso ambientalista formador de opinião que a humanidade já teve.

E foi o bispo-auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, Dom Joaquim Mol Guimarães, também reitor da PUC Minas e membro do Conselho Cultural do Vaticano, que recebeu a estatueta do “VI Prêmio Hugo Werneck” em nome do Papa, fazendo reverberar novamente a mensagem ecológica de Francisco. Confira a seguir:

A ecologia integral

Dom Joaquim Mol*

“Senti-me verdadeiramente honrado de ser o portador desse prêmio ao Papa Francisco. Estive com ele recentemente em Roma, há uns 20 dias, mas não pude abordar esse assunto. No entanto, farei chegar às suas mãos esse troféu com todas as indicações necessárias para que ele compreenda bem o significado desta premiação tão importante para a nossa vida, para o planeta e a humanidade. O Papa Francisco se tornou muito reconhecido neste campo exatamente por causa do texto ‘Laudato Si, Signore mio’, então, ‘Louvado seja, meu Senhor!’, no qual ele faz toda uma reflexão ecológica muito bem assessorada por pessoas do mundo inteiro, inclusive aqui do Brasil. E se tornou uma grande referência não só nesse assunto.

O Papa Francisco talvez seja hoje a principal voz, o principal líder mundial para encaminhar soluções pacíficas e justas em muitas situações da vida. É curioso que essa encíclica, diferentemente de tantas cartas que já foram escritas por outros papas, não mencione o destinatário, já que toda carta tem um. Esta, excepcionalmente, não tem, porque o Papa Francisco quis escrever a toda a humanidade como um alerta à grande comunhão com todos aqueles que têm trabalhado no cuidado da Casa Comum. Esta encíclica, que ganhou o apelido, carinho ou afago de ‘Encíclica Verde’, na realidade, é azul, amarela, branca, de todas as cores. Isso porque o Papa fala de uma ecologia integral, que só se compreende a partir do cuidado do verde, falando simbolicamente. E também da ecologia social, econômica, cultural, mental, que supõe mudanças muito profundas. Com isso, o Papa Francisco assume o seu papel, dá a sua contribuição para que o mundo de fato tenha futuro, para que a vida tenha futuro.

Gostaria, portanto, de expressar esse agradecimento, com toda a liberdade e simplicidade, também pelas instituições às quais eu pertenço: a Arquidiocese de Belo Horizonte e a PUC Minas, que, aliás, tem vários trabalhos nessa linha, inclusive pesquisas.

Quero terminar dizendo as últimas palavras que o Papa coloca na ‘Laudato Si’, uma prece que talvez expresse o compromisso que desejamos para todos. Diz assim:

‘Iluminai os donos do poder e do dinheiro, Senhor, para que não caiam no pecado da indiferença. Amem o bem comum, promovam os fracos e cuidem deste mundo que habitamos. Os pobres e a Terra estão bradando. Senhor, tomai-nos sob o vosso poder e a vossa luz para proteger cada vida, para preparar um futuro melhor para que venha o vosso reino de justiça, paz, amor e beleza. Louvado sejas!’.”

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Continue lendo a reportagem completa sobre o VI Prêmio Hugo Werneck:

Pelas águas do planeta

Por que o rio São Francisco? Por que o amor?

Pela sustentabilidade do planeta

Acolhida sustentável

Conheça os vencedores do VI Prêmio Hugo Werneck

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