Segunda, 02 de maio de 2016

Pela sustentabilidade amorosa

Confira, na íntegra, o depoimento proferido pelo idealizador do "Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza", Hiram Firmino

Hiram Firmino* redacao@revistaecologico.com.br



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Hiram Firmino:

Hiram Firmino: "A receita da esperança também inclui sermos humildes frente a grandeza e a autossustentabilidade da natureza" - Imagem: Gláucia Rodrigues

Obrigado a São Francisco de Assis, que povoa os corações e as almas de todos nós. O nosso padroeiro da ecologia sabe por que, excepcionalmente, estamos realizando essa premiação falando do Velho Chico e não do Rio Doce, recém-ferido de morte.

Parece que foi ontem o pesadelo ocorrido. Cinco dias antes do nosso primeiro encontro marcado, mais precisamente no dia 05 de novembro, quando Mariana, Minas, o Brasil e o mundo viram romper a barragem de Fundão, da Samarco. Testemunharam, atônitos, a maior tragédia socioambiental já ocorrida na história do país.

Foi por ela, em respeito e solidariedade às vítimas, aos sobreviventes e ao meio ambiente degradado Bacia do Rio Doce abaixo, rumo ao mar do Espírito Santo, que adiamos essa nossa confraternização ecológica.

É por isso que recorremos em pensamento, mais uma vez, ao dr. Hugo Werneck e ao amor incomum que ele pregava na luta ambiental e no enfrentamento dessas tragédias: não ao ódio paralisante. Mas ao amor subversivo, que educa e corrige mais que todas as leis, fiscalizações, multas, comandos e controles juntos. Segundo ele nos dizia, somente por meio do contato, da reaproximação e do respeito do homem pela natureza, que é a face natural de Deus, o ser humano conseguirá percebê-la, valorizá-la e preservá-la. Até evitar acidentes como esse.

Se o dr. Hugo estivesse aqui no meu lugar, ele não teria dúvida em afirmar que toda a crise atual e desastrosa que estamos vivendo é fruto do desamor que ainda temos conosco e com o ambiente à nossa volta, seja ele econômico, ambiental, social, político ou ideológico. ‘Quem não ama não é amado e pode ser expulso do paraíso a qualquer momento’, lembraria ele, dessa lei universal.

E em Minas Gerais – que carrega no próprio nome – a questão é ambiental e mineral ao mesmo tempo. Não há mais como negarmos a mineração que existe em nós, como já poetizou Drummond. Temos, sim, 90% de minério de ferro nas calçadas e 80% nas nossas almas. Como também sempre nos faz lembrar nosso conselheiro Fernando Coura, presidente do Sindiextra e do Ibram: ‘Cada aparelho de celular teclado hoje no planeta por mais da metade da população contém 41 elementos minerais’.

Vamos desligá-los?

Quem atira o primeiro chip?

Impossível!

Vamos continuar, então, aceitando todos os produtos advindos da atividade da mineração e, ao mesmo tempo, condenar e proibir a sua produção? E assim evitar novos acidentes? Como, enfim, resolver esse dilema?

É simples, responderia Hugo Werneck, com a sua receita: tornar a mineração não apenas sustentável, via os pilares do ‘economicamente viável, ambientalmente correto e socialmente mais justo’. Mas acrescentar-lhes, de maneira revolucionária e subversiva, a dimensão maior do amor à natureza, que dá título a essa nossa premiação.

Transformar a mineração em uma atividade superlativamente amorosa com o ambiente natural e, consequentemente, com as pessoas à sua volta. Essa é a visão werneckiana, inovadora e construtiva em sua essência. Mais que sustentável, tornar a atividade compreendida e aceita. E não mais temida pela população. Fazer mais do que deve ser feito. E não por obrigação, mas por merecimento. Ambas, mineração e sociedade, se merecerem.

Como o dr. Hugo pregava, se a mineração vive 100% da exploração da natureza, ela e seus acionistas deveriam ver a questão ambiental não somente como um estorvo, obrigação e despesa. Mas, agradecidamente, como seu cartão de visitas maior. Como a oportunidade de também conseguir 100% de aprovação de sua imagem perante a opinião pública. Fazer do que faz, pela natureza e mesmo por força da lei, o seu estandarte de aceitação e querência.

A falta disso talvez explique um pouco o ressentimento recente da opinião pública nacional e mundial sobre a tragédia de Mariana. A revolta generalizada que ressuscitou no seio da sociedade não foi pontual apenas contra a Samarco. Mas contra todo o segmento, por sua história antiga de não amar a natureza ‘até doer’, como dizia Madre Teresa de Calcutá, até o advento feliz e cada dia mais irreversível da consciência ecológica.

Segundo já cantou o mais subversivo e amado conjunto de rock da humanidade, no fundo do fundo do fundo da gente, ‘o amor é mesmo tudo o que precisamos’. E, sejamos minerados ou não, conforme São Paulo escreveu aos Coríntios:

Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

Nessa receita de esperança para resolvermos a questão ambiental, além de amor, temos de acrescentar outro ingrediente estratégico e infalível: o sentimento da humildade. A humildade óbvia de aceitarmos, nem que seja na marra e diante do que a natureza já está nos devolvendo em forma de secas e enchentes nunca vistas, que ela é maior que nós. Maior que toda nossa autocracia, prepotência e arrogância juntas. A campanha ‘A Natureza Está Falando’, da Conservação Internacional, nos faz lembrar de uma verdade irrefutável: ‘A natureza não precisa de nós’, nem se sensibiliza com a crise hídrica que nos ameaça. Várias vezes ela já cobriu de água todo o planeta, fazendo o sertão virar mar e o mar virar sertão. E pode fazê-lo de novo. ‘Somos nós que precisamos dela’.”

Detalhe: É este o recado oceânico personificado pelo ator Rodrigo Santoro - o coronel Afrânio, da novela, não por acaso, chamada “Velho Chico”- que você confere a seguir na mensagem da campanha “A Natureza está Falando” (www.anaturezaestafalando.org.br).


Continue lendo a reportagem completa sobre o VI Prêmio Hugo Werneck:

Pelas águas do planeta

Por que o rio São Francisco? Por que o amor?

Pela sustentabilidade do planeta

Acolhida sustentável

Conheça os vencedores do VI Prêmio Hugo Werneck

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