Sexta, 29 de abril de 2016

A natureza pavimentada

O que aconteceu com a natureza e o meio ambiente impactados pelo rompimento da barragem de rejeitos da Mineração Rio Verde, em São Sebastião das Águas Claras (Macacos), distrito de Nova Lima, há 15 anos?

J.Sabiá - redacao@revistaecologico.com.br



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A estrada de rejeitos que virou o Córrego Taquaras: 
sem condições para reprodução da vida aquática - Imagem: Ecológico

A estrada de rejeitos que virou o Córrego Taquaras: sem condições para reprodução da vida aquática - Imagem: Ecológico

Só a natureza, ajudada pela mão humana, fez a sua parte. Já o meio ambiente, sem ajuda empresarial ou institucional, continua o mesmo: destroçado. A lama de rejeitos, até hoje intacta, transformou seis quilômetros do outrora piscoso Córrego Taquaras, afluente do Fechos, em uma grande e pavimentada avenida. Uma avenida sem vida, artificial e retilínea, sem mais as cachoeiras e poços d’água de outrora.

O percurso bucólico que os moradores vizinhos à mineração faziam pelas águas claras que dão nome ao distrito, dois quilômetros antes do local do rompimento até a entrada da comunidade, durava quase o dia inteiro, tamanha a quantidade de atrações naturais pelo caminho. Hoje, sem mais as matas ciliares levadas pela lama, não se gasta mais que duas horas. Até os peixes, dizem os moradores da região, diminuíram de tamanho, tal como o volume dos cursos d’água hoje igualmente retilíneos, não mais represados, profundos e adequados à reprodução da fauna aquática, segundo as leis da natureza.

Após o trágico acidente, que causou a morte de cinco operários, a empresa mineradora chamou para si a responsabilidade da recuperação ambiental. Foi uma questão de honra que deu certo. Porém, conforme a Ecológico verificou in loco, isso somente aconteceu no tocante à vegetação, flora e fauna que existiam ali. Quem também comprova isso é o comerciante Márcio Rodrigues, de 43 anos, filho do seu João de Macacos, ambos proprietários da Pousada e  Bar do Marcinho, restaurante e point tradicional de motoqueiros e turistas.

Na época, a lama montante abaixo chegou a poucos metros do estabelecimento, deixando-os isolados por muito tempo, até a reconstrução do antigo acesso rodoviário. O depois, segundo Marcinho, compensou tudo: “Logo após o estrondo, eu e minha família fomos os primeiros a ver a tragédia de perto. Mas, hoje, eu também dou este testemunho. As coisas melhoraram. Eles plantaram tanta árvore aqui, mas tanta, que a mata hoje é mil vezes mais densa e tem mais bicho e passarinho que antigamente. Sem falar no volume d´água, que também aumentou. Até os moradores, professores e alunos das escolas de Macacos costumavam fazer excursões até aqui, subindo pelo próprio Córrego Taquaras. Hoje o tamanho do verde recuperado e emaranhado não permite isso mais. Virou uma coisa boa, muito melhor. Não dá nem pra perceber mais a quantidade de lama que ficou pregada no chão da nova e regenerada floresta. Tudo virou natureza”.

E quanto às margens e cursos d’agua à jusante e sem vegetação, ainda hoje visivelmente “pavimentados” pelos rejeitos do minério escorrido, após o encontro do Taquaras com o Córrego de Fechos? De quem é a responsabilidade?

Após o rompimento da barragem da Rio Verde, 43 hectares de Mata Atlântica e 12 quilômetros do Córrego Taquaras foram devastados pela lama em Macacos - Imagem: Gualter Naves

Na época, os ambientalistas de Macacos sugeriram à Mineração Rio Verde e à própria Vale, que arrendou a mina, e não o seu passivo ambiental, um recurso até doméstico para limpar ambos os córregos: a contratação de até 100 trabalhadores braçais para, aproveitando a força das águas, removerem os rejeitos no fundo d´água e irem depositando-os aos poucos, nas margens. Para depois serem recolhidos pelas empresas e doados à prefeitura para utilização em obras de pavimentação.

Nada disso, nem outra providência tecnológica, aconteceu. Procurado pela Ecológico, o ex-diretor e proprietário da Rio Verde, Pedro Lima, não quis conversar sobre o assunto. Dizendo-se traumatizado até hoje, ele apenas lembrou que acidentes como esse não são mais causados somente pelas pequenas e médias mineradoras. Mas, muito mais graves, pelas grandes também, “vide o exemplo, quem diria,  da Samarco em Mariana” – exemplificou.

O que fazer para evitar o rompimento de outras barragens de rejeitos em Minas e mundo afora? Foram essas suas únicas palavras finais: “Não existe outro caminho. Temos que evoluir em termos de engenharia, de prevenção, de tudo”. 

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