Quinta, 28 de abril de 2016

A última revolução

Nas lapas de Lagoa Santa, Peter Lund encontrou evidências incontestes de catástrofes sucessivas, como o dilúvio universal na Terra. E morreu falando do seu amor à ciência

Cástor Cartelle - redacao@revistaecologico.com.br



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Peter Lund: uma vida dedicada aos estudos da ciência - Imagem: Reprodução

Peter Lund: uma vida dedicada aos estudos da ciência - Imagem: Reprodução

H. Lund escreveu uma biografia do seu tio Peter Lund. Narra que ele, no caminho para chegar a uma gruta na qual iria realizar trabalho de pesquisa, ao escutar o barulho do chocalho de uma cascavel, conseguiu evitar o bote, mas foi picado por uma aranha. Sentiu uma terrível dor e, tremendo compulsivamente, perdeu a consciência por cinco horas. Em algumas grutas por ele exploradas, ainda hoje se percebem as marcas deixadas na rocha pelas talhadeiras e alavancas usadas no trabalho de escavação.

Ano após ano, a coleção incrementava-se com essas coletas sistemáticas. No período de chuvas, quando caminhos tornavam-se intransitáveis e muitas grutas eram inundadas, Lund dedicava-se à preparação e estudo do material coletado. Em 1839 adquirira uma casa ampla e simples de planta baixa, tendo habilitado no fundo do quintal um local de trabalho e estudo. Minucioso catálogo foi confeccionado por ele, no qual constam informações a respeito de cada peça, como o local de coleta, a identificação do espécime e a determinação da espécie à qual pertencia. De 1835 a 1845, enviou à Europa numerosos trabalhos científicos com suas descobertas, que foram publicados na Dinamarca e na França.

Tanto quanto as físicas, tampouco foram poucas as dificuldades intelectuais enfrentadas por Lund no seu trabalho, tais como literatura insuficiente, comunicação muito lenta com centros culturais, achados incompletos de espécies desconhecidas... Não sem razão, Lund foi modificando ao longo dos anos algumas de suas percepções iniciais. As últimas publicações encerram seus pontos de vista mais elaborados. Essas dificuldades foram um martírio para uma pessoa de formação intelectual muito acurada, que mal podia compartilhá-la na solidão de Lagoa Santa.

Doutor, dominava, além do dinamarquês e do português, o francês, inglês, alemão e italiano, assim como o latim e o grego, línguas que usou na correspondência que mantinha com grandes intelectuais da Europa. Excelente pianista, fundou uma banda de música que patrocinava, a Santa Cecília. Realizava também coleções de animais recentes (peles e esqueletos), tendo determinado várias espécies viventes até então desconhecidas.

Radical mudança

Nos fósseis que resgatou, Lund identificou espécies atuais e não poucas extintas. Várias dessas descobertas foram espetaculares, como será descrito adiante. Com o material coletado, identificou como espécies novas oito viventes e 22 extintas.

George Cuvier, certamente, teve um grande influxo sobre Lund, em relação à visão científico-filosófica da zoologia, levando-o a assumir uma radical mudança na sua vida e, em consequência, a penetrar no mundo diferente dos fósseis, abandonando as pesquisas de botânica.

Na Europa vivia-se o embate de uma nova biologia. Com seu sistema binomial de identificação de espécies, Linneo introduzira uma ordem aceita por todos. Era possível uma linguagem universal. Novos conhecimentos zoológicos provenientes da África e, especialmente, da América do Sul inundavam publicações e museus. Como explicar a enorme variedade de espécies que a cada coleta era ampliada?

O paradigma bíblico de um Deus fazedor de cada espécie não respondia os questionamentos que surgiam. Por outra parte, a filosofia aristotélica, para a qual cada espécie era fixa porque tinha determinada constituição invariável (a essência), parecia ultrapassada: grandes variações morfológicas eram constatadas em animais e plantas dos distantes e diversos continentes. Se Deus criara o homem tão igual, apenas com mínimas variações como constava na Bíblia, por que tantas diferenças no mundo animal? Ocorreram diversas criações?

Diferentes explicações e teorias foram surgindo. Lamarck explicou a variedade percebida entre espécies afins com a teoria do uso-desuso. Um órgão modificava-se ao ser exigido. Foi dessa maneira que a girafa teria alongado o pescoço, captando folhas em árvores cada vez mais altas, garantindo assim sua sobrevivência diante das secas que dizimavam a vegetação e os arbustos mais rasteiros. E a quem deles dependia.

Cuvier, opositor de Lamarck, tinha teoria diferente para explicar as variações observadas entre espécies afins extintas e as mais modernas: o catastrofismo. Catástrofes naturais eliminavam formas de vida, substituídas por novas espécies que Deus, sucessivamente, criava. Por tal razão, em camadas mais antigas encontravam-se fósseis diferentes dos encontrados nas mais modernas. Catástrofes destruíam a vida, que era recriada com novas formas. Lund, luterano convicto, aderiu à teoria de Cuvier tanto pela autoridade de que desfrutava o cientista francês quanto pela explicação que se ajustava à sua crença.

Nas cavernas que explorava no entorno de Lagoa Santa enxergava, nos primeiros anos de pesquisa, a confirmação da teoria catastrofista de Cuvier. O dilúvio universal fora a última revolução do globo. Deus, pouco antes, realizara a última criação: o homem e os animais que foram salvos na Arca de Noé. Os outros, os da anterior criação, já foram eliminados: a evidência estava nos esqueletos de animais extintos que apareciam nas grutas sob a camada ou crosta estalagmítica que Lund perfurava para resgatá-los.

Piedade de Deus

Nas lapas de Lagoa Santa, os sedimentos, estalactites e outros espeleotemas, como observara em Maquiné, eram evidências incontestes das catástrofes sucessivas. Da última, o dilúvio, estavam à mostra os sedimentos térreos introduzidos pelas enchentes. Já os fósseis de animais extintos eram mais antigos que os restos do homem e dos animais ainda sobreviventes, que foram criados por último. A piedade de Deus, premiando a fidelidade de Noé, não permitiu que desaparecessem na hecatombe diluviana todos os seres da última criação; o castigo só atingiu os homens que não foram fiéis e os animais que Noé não salvara introduzindo-os na sua arca. Lund denominava as espécies extintas como pertencentes ao “...mundo animal preexistente, à última revolução do globo”, isto é, existiram e desapareceram antes do dilúvio.

Das grutas, aos poucos, Lund trazia à luz numerosas espécies que desenhavam a realidade de um passado longínquo. Sucessivas pesquisas forneciam-lhe cada vez mais informações que municiavam sua mente privilegiada. Até que uma seca intensa permitiu que explorasse a Lagoa do Sumidouro, localizada no município de Pedro Leopoldo (MG).

A água da lagoa escoa por galeria que mergulha na base de um paredão calcário, o qual ultrapassa cinquenta metros de altura e que represa o lago. Lund trabalhou intensa e cuidadosamente. Os resultados obtidos foram extraordinários e provocaram um terremoto nas suas convicções. Na minuciosa narrativa do achado, descreveu as diversas camadas que retirara com todo cuidado. A sua descoberta era extremamente importante e precisava de elementos que lhe fornecessem toda certeza. Na mesma camada resgatou peças fósseis da fauna que ainda sobrevivia, da extinta e de humanos.

Lagoa do Sumidouro, em Pedro Leopoldo (MG): local onde Lund fez descobertas revolucionárias

Segundo o paradigma cuvieriano, a fauna extinta não poderia coexistir com a atual e o homem. Num dos seus primeiros escritos Lund escrevera em relação aos seus achados: “...os naturalistas que seguem a lei da invariabilidade das espécies... concluirão... ter-se dado destruição geral dos animais primitivos e verão na criação viva (isto é, nas espécies atuais) uma criação nova e absolutamente independente da extinta”. Fragmento de rocha do estrato onde Lund fez sua descoberta, ainda guardado no Museu de Zoologia de Copenhague e recuperado pelo arqueólogo Walter Neves há poucos anos, permitiu conhecer a idade dos fósseis.

Essa rocha, uma brecha, localizava-se sobre os sedimentos onde foram encontrados os restos humanos e dos animais extintos e preservou uma camada de calcita. Havia ainda mais: conchas de moluscos que viveram na Lagoa do Sumidouro e fragmentos de carvão. Esses três elementos permitiam datações independentes, que indicaram uma antiguidade para a camada de oito a mais de dez mil anos. Logo, o material subjacente era ainda mais antigo. Nesse tempo distante, animais extintos, atuais e o homem conviveram. Sua minuciosa escavação lhe dava essa certeza. Cuvier estava errado. A evidência desfaz teorias.

Rio das Velhas

Essa descoberta fez com que as convicções científicas de Lund fossem abaladas, o que contribuiu para o aumento da sua insegurança, causada pela marginalização e isolamento no planalto brasileiro, num tempo em que grandes mudanças científicas estavam ocorrendo na Europa. Em 1842 chegou a Lagoa Santa um jovem, Reinhardt (1816-1882), filho de um professor de Lund. Sob sua orientação realizou excepcional trabalho: o levantamento dos peixes da Bacia do Rio das Velhas. Esse material, que registra mais de cem espécies, ainda se preserva na Dinamarca. No futuro, quando o Rio das Velhas for recuperado do estado lastimoso em que se encontra hoje, devido à altíssima poluição, poderá ter restaurada sua primitiva condição e ser recolonizado com as espécies originais.

O cansaço de anos de trabalho sofrido, os achados que começavam a se repetir e que não traziam novidades, o fim do financiamento proveniente da Dinamarca, assim como a revolução constitucionalista, que transformara numerosas grutas das redondezas de Lagoa Santa em refúgio de perseguidos pelas tropas comandadas pelo Duque de Caxias, tornaram as pesquisas muito perigosas na área explorada por Lund. Além do que foi enunciado, ocorrera um sério percalço na vida financeira de Lund. Mesmo tendo financiado, até então, a maior parte de seu trabalho de pesquisa com recursos próprios, o prejuízo econômico teria servido para desestimular a continuidade do seu trabalho.

Em correspondências entre 1840 e 1846 Lund narrou um processo movido por ele contra o engenheiro húngaro Franz Morgenstern, que viveu em Minas Gerais entre 1839 e 1841. Lund decidiu investir numa lavra de ouro que seria iniciada em Sabará (MG), emprestando uma grande soma de dinheiro ao húngaro de quem se tornou, também, fiador. Falido o empreendimento, o sócio desapareceu. Lund, além de não conseguir recuperar o dinheiro investido, foi condenado, como avalista, a pagar as dívidas da empresa falida. As perdas de Lund atualizadas hoje seriam em volta de um milhão de reais. O processo de revisão não andava. Pensou, inclusive, em mudar de cidade e estabelecer-se em Sabará, para tentar acelerar o processo. Mas seu advogado abandonou o caso ao ser escolhido presidente da então Província de Minas Gerais.

Tudo isso fez com que Lund tomasse mais uma atitude radical. Em 1845, escreveu seu último trabalho científico e resolveu enviar para a Dinamarca a coleção que reunira, composta de espécimes atuais e fósseis. Cada peça foi preparada para a viagem com embrulhos cuidadosos condicionados em arcas. O material empregado na confecção dos pacotes, assim como algumas arcas, ainda estão conservados no Universitets Zoologische Museum de Copenhague.

A coleção foi remetida para o Rei Cristiano VIII, ao qual Lund escreveu em carta de 1845: “...esta coleção deve ser utilizada pela ciência, tão logo e de modo tão completo quanto possível em virtude do seu interesse e de seu valor científico”. As últimas arcas chegaram a Copenhague em 1849, quando Cristiano VIII já falecera. O país estava em guerra e avolumavam-se as dificuldades. A coleção permaneceu encaixotada por falta de espaço até que, devido à pressão feita por um sobrinho de Lund em campanha popular, foi, finalmente, colocada num local digno. Reinhard que, como antes indicamos, estivera em Lagoa Santa ainda como estudante, tornou-se o primeiro curador da coleção.

Um velho pequizeiro

Lund continuou vivendo em Lagoa Santa, dedicando-se ao “doce ócio do campo”, como escreveu à família, e a conviver com a população. Ao que parece, rapidamente recuperou-se do prejuízo econômico, proveniente do falido investimento na lavra de ouro. Anos antes, recebera respeitável herança. Acolheu diversas visitas que o procuravam, como os naturalistas suíços Claraz e Agassiz, o francês Liais, o paleontólogo alemão Burmeinster ou o fotógrafo Augusto Riedel, filho do botânico Louis Riedel, que anos passados viajara com Lund sertão afora.

Em 1862, faleceu seu secretário e amigo, Brandt, que se associara a Lund em 1835 em Curvelo. Além de ser responsável pelas escavações, ilustrara os trabalhos de Lund desde a primeira escavação em Maquiné e fez, num pequeno caderno, excelentes desenhos do quotidiano a bico de pena. Lund comprara um terreno onde pretendia ser enterrado.

Interior de uma gruta. Desenho de P.A. Brandt

À época, os cemitérios eram confessionais e protestantes não eram enterrados em cemitérios católicos, praticamente os únicos então existentes. Brandt foi o primeiro a ser sepultado onde mais tarde também o seria Lund. Uma cruz foi fincada no local, tendo na base gravada a data do falecimento do amigo. Hoje, ainda se preservam um velho pequizeiro que Lund plantara e a cruz, doada pela família Lund ao Museu de Ciências Naturais da PUC Minas.

Em 1863, um outro estudante dinamarquês foi recebido e orientado por Lund em Lagoa Santa, Eugene Warming, que lá permaneceu até 1866. Reuniu grande coleção de plantas do Cerrado, hoje depositadas no Jardim Botânico de Copenhague. O estudo das inter-relações dessa flora fez desse pesquisador o iniciador de uma nova ciência, a Ecologia Vegetal. Lund, mesmo afastado da pesquisa científica direta, na sombra foi corresponsável por esse fato, de grande relevância científica.

Devem-se a Warming numerosas fotografias que retrataram paisagens e moradores da cidade, assim como escritos com comentários a respeito de pessoas e do seu orientador. Passados trinta anos da chegada de Lund a freguesia crescera e, segundo Warming, já teria em volta de cinco mil moradores. Cita, por exemplo, o professor das primeiras letras, que também era encanador e relojoeiro. O relógio da igreja era acertado pelo dele. Outra figura importante era o sineiro, muito habilidoso, com repiques diferentes para mortes de “anjos” ou de adultos, casamentos, missas e extrema-unção a doentes.

Narrou, também, que Lund levava uma vida sistemática. Quando batia o sino da Ave-Maria na matriz, às seis da tarde, na casa era aceso o pavio da lâmpada de latão com óleo de mamona e servido chá feito com plantas do Cerrado. Em seguida, iniciava-se a leitura de revistas vindas da Dinamarca e do “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro, que Lund recebia duas vezes por semana. O jornal incluía correspondências de Paris, Londres, Gênova e Berlim, o que permitia conhecer os acontecimentos principais da Europa com pelo menos dois meses de atraso.

Amor, amor, amor

Peter Lund faleceu em 5 de maio de 1880 na mesma casa que comprara em 1839. Estava quase cego. Seu filho adotivo, Nereo Cecílio dos Santos, narrou em carta à família distante que, após dois meses de sofrida enfermidade, somente no fim começara a delirar, falando então do que mais amava: ciência e música. Segundo esse relato, suas últimas palavras foram: “...amor, amor, amor... e com isto morreu”. Falecia quem resgatara, da escuridão das cavernas para a luz, vidas passadas. Amor à ética, amor à ciência e à pátria adotiva na qual escolheu morrer. Ao longo dos anos não aceitou as propostas de retorno à Europa que repetidamente sua família lhe fazia.

Lagoa Santa: cruz de 1862 e pequizeiro plantado por P. W. Lund. Museu de História Natural da Dinamarca - Fotografia de Riise. 1922

Permaneceu sob a proteção da cruz, que fincara quando da morte de Brandt, e à sombra do pequizeiro que plantara, até 1936, quando a família decidiu repatriar seus restos. Recebeu, ainda em vida, como reconhecimento dos serviços prestados, uma das principais comendas da Dinamarca, a medalha “Ingenio et Arti”. Do tempo de Lund preservaram-se o cemitério e um instrumento da banda de música Santa Cecília, que ele fundara. Pouco depois da sua morte a casa foi transformada em venda e, posteriormente, em escola, como determinara em testamento. Na década de 1950, foi demolida para ser construído no local um grupo escolar. Mobília e biblioteca perderam-se, mas não a sua amorosa contribuição à ciência.


Confira na próxima edição:

"Uma picada de aranha e o embate de uma nova biologia na Europa".


Acompanhe a série completa sobre a história de Peter Lund:

A saga do desbravamento

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