Quinta, 28 de abril de 2016

Com que roupa (sustentável) eu vou?

Indústria da moda avança na adoção de práticas mais ecológicas, conquistando consumidores e ajudando a conter a exploração desenfreada de recursos vitais, como a água. Estilistas estrangeiros e brasileiros já abraçaram essa causa, em prol do bem-estar humano e planetário

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Melpomene

Imagem: Melpomene

“Sou contra a moda que não dure... Não consigo imaginar que se jogue uma roupa fora, só porque é primavera.” O ensinamento da icônica estilista francesa Coco Chanel (1883-1971) segue válido e atual, considerando que o desperdício e o consumo excessivo de diferentes produtos, inclusive de moda, devem ser evitados e estão cada vez mais fora de moda, literalmente.

O caminho já trilhado por diversas marcas e consumidores do universo fashion é o da reinvenção, buscando tanto novos padrões de produção e de consumo quanto de reciclagem e de reuso das peças. Só assim, será possível manter o bem-estar de toda a sociedade e demandar o mínimo de recursos naturais possível, tais como água, energia e solos, para manter a fabricação de novas roupas.

Nada mais justo e elegante, portanto. Em especial quando se lembra um alerta do Instituto Akatu, ONG brasileira dedicada à conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente: atualmente, a população mundial já consumiu e descartou 50% mais recursos naturais renováveis do que o planeta Terra é capaz de regenerar e absorver, inclusive a água.

Diante dessa realidade planetária, torna-se urgente e vital unir esforços para aliar à produção mais responsável e sustentável um novo jeito de comprar, reaproveitar e descartar as roupas, com cada cidadão refletindo sobre o real impacto de suas ações e estilo de vida, principalmente no que se refere à geração de lixo nas grandes cidades.

Segundo especialistas, para se tornar um consumidor de moda mais consciente não é preciso fazer nada mirabolante. Basta adotar atitudes simples, que podem ser aplicadas no dia a dia, fomentando assim uma mudança de comportamento coletiva, em sintonia com iniciativas ‘eco-fashion’ já consolidadas mundo afora (leia dicas a seguir).

Forma de expressão

Uma sugestão bacana é começar se perguntando qual o tipo de roupa é mais amigável ao meio ambiente. Um bom exemplo são aquelas confeccionadas em algodão orgânico e fibras naturais ou ainda feitas com tecidos produzidos a partir de materiais reciclados, tais como a malha de garrafas plásticas (PET).

Tudo com parcimônia e bom senso. Afinal, é sempre bom lembrar que as roupas são uma das formas de expressão mais autênticas do ser humano. Refletem muito de sua personalidade e, sendo assim, gostar de comprá-las e de usá-las é considerado pela maioria das pessoas um ato prazeroso – principalmente entre as mulheres.

Para se manter satisfeito com o seu guarda-roupa, sem transbordar gavetas ou “estourar” o cartão de crédito, é preciso fazer escolhas mais assertivas na hora da compra. E, na frente do espelho, no momento de se vestir e escolher calçados e acessórios, usar uma boa dose de criatividade, combinando peças e criando novos looks. Comprar roupas de segunda mão também é um hábito que vem ganhando força entre uma parcela crescente de brasileiros. Brechós e bazares têm o seu charme e podem render ótimos “garimpos”.

Estilista é destaque

No cenário global, a moda sustentável ganhou fôlego no século 21, deixando de ser uma simples tendência para tornar-se um comportamento real. Assim, ela atende nichos de mercado cada dia mais específicos, voltados para consumidores antenados e exigentes. Gente disposta a pagar um pouco mais por produtos diferenciados e, com isso, contribuir para reduzir a sua pegada ecológica no planeta.

Os apelos da moda “verde” também encontraram eco entre estilistas de renome. Uma das mais engajadas é a britânica Stella McCartney – filha do eterno beatle Paul. Suas coleções, sempre sofisticadas, mostram que é possível combinar numa mesma roupa ingredientes como elegância, responsabilidade social e ambiental. E, claro, lucro.

Arrojada, Stella – que também é vegetariana convicta – lançou coleções de luxo com peças confeccionadas sem o uso de couro ou peles de animais. Criou, ainda, uma linha exclusiva para a Adidas produzida com tecidos feitos de garrafas PET recicladas e algodão orgânico; e outra de lingeries totalmente confeccionadas com fibra natural. Como se não bastasse, todas as lojas e escritórios de sua grife no Reino Unido são alimentados por energia eólica, enquanto todas as embalagens/papel usados são certificados pelo FSC, selo verde mais reconhecido em todo o mundo.

No Brasil, vale citar o exemplo da Osklen, que usa algodão orgânico e fibras de bambu (matéria-prima renovável e de rápido crescimento) na confecção de suas roupas. O diretor de criação e estilo da Osklen, Oskar Metsavaht, também é fundador do Instituto-E.

Com sede no Rio, essa organização se dedica à promoção do desenvolvimento humano sustentável e tem, entre suas iniciativas, o projeto e-fabrics. Por meio dele e em parceria com empresas, instituições e centros de pesquisa, identifica matérias-primas sustentáveis que possam ser usadas pela indústria têxtil e pela cadeia produtiva da moda, estimulando, assim, a cultura do consumo consciente.


Fique por dentro

Algumas dicas para o momento da compra:

Procure a melhor combinação entre local da loja, o preço justo e veja se as roupas são de material orgânico ou reciclado. Na maioria das vezes não dá para encontrar peças que preencham todos esses quesitos. Assim, o importante é tentar encontrar o máximo deles em uma única peça.

Prefira o clássico do que a moda. Roupas básicas e estilosas podem ser combinadas de várias maneiras e até mesmo acompanhar as mais ousadas tendências. É difícil se arrepender de ter comprado uma camisa social. Mas não se pode dizer o mesmo sobre, por exemplo, calças coloridas ou com estampas muito marcantes.

Invista em roupas de qualidade. Elas podem ser mais caras em curto prazo, mas tendem a durar mais do que itens baratos e descartáveis.

 Para cada novo item que comprar, doe pelo menos um mais antigo. Além de ajudar alguém, você abrirá espaço em seu guarda-roupa, evitando acumular mais peças além das que você realmente usa e precisa.


Atitude é tudo!

Sete passos para conhecer seu guarda-roupa:

Imagem: Reprodução

1 – Abra seu guarda-roupa e analise tudo o que você tem.
 

2 - Separe: peças que estão apertadas ou grandes demais; aquelas para as quais você não aguenta mais olhar e as que nunca usou.

3 - Reflita: você realmente precisa delas?
 

4  – Se a resposta for não, convide seus amigos a fazerem o mesmo e, juntos, organizem um bazar ou brechó itinerante. O meio ambiente agradecerá!

5 - Se seus amigos não toparem o desafio, doe tudo. Muitas roupas e acessórios são jogados no lixo, de onde seguem para o aterro sanitário, onde são incinerados, prejudicando o meio ambiente e aumentando consideravelmente os custos de gestão dos resíduos sólidos.

6 - Não tem para quem doar suas peças? Opte pela customização (corte mangas e pernas de calças, troque botões, incremente as peças com rendas e fitas ou desfie as barras/bainhas).

7 - Não quer customizar? Ofereça as roupas e acessórios para brechós e bazares. O que não é útil para você pode ser de grande valia para outra pessoa.


Você sabia?

Que duas garrafas de dois litros de PET reciclado são suficientes para produzir uma camiseta, enquanto quatro delas dão para confeccionar uma calça? O PET reciclado pela indústria têxtil absorve 50% do total desse material produzido no Brasil.


Entenda melhor

A preocupação com a sustentabilidade não é uma questão somente do consumidor: estilistas, indústrias e o comércio têm investido tempo e recursos para discuti-la. O resultado disso é o aumento gradativo da variedade de produtos feitos de forma ecologicamente correta.

O parque têxtil brasileiro é o quinto maior do mundo. O país é, ainda, o segundo maior produtor de denim (jeans) e o terceiro de malhas. Autossuficiente na produção de algodão, o Brasil fabrica quase 10 bilhões de peças ao ano, sendo mais da metade delas de vestuário.

As fibras naturais, de origem vegetal ou animal, são matérias-primas renováveis. Sua principal característica é serem mais agradáveis ao toque, como a seda e o algodão, e absorverem melhor a umidade do corpo. Já o algodão orgânico é aquele cultivado sem o uso de agrotóxicos e pesticidas.

Desenvolvidos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Emprapa), os algodões coloridos – são mais de cinco tons, do verde-claro aos marrons claro, escuro e avermelhado – todos cultivados sem nenhum tipo de adubo ou inseticida sintético. Como já nasce colorida, a fibra dispensa o uso de produtos químicos para tingir o tecido e economiza até 83% de água no processo de acabamento da malha, em comparação com os tecidos artificialmente coloridos.

Algodão colorido  - Imagem: Edna Maria Cosme dos Santos/Embrapa

As fibras sintéticas são derivadas do petróleo e causam maior impacto à natureza para a sua produção. Os tecidos feitos com garrafas PET, por sua vez, estão presentes em vestuários, sacolas e roupas de cama. Eles evitam que as garrafas sejam indevidamente descartadas e poluam, sobretudo, os cursos d’água e o meio urbano.

A modelagem das roupas também contribui para a sustentabilidade. O processo se dá por meio do uso de softwares inovadores que calculam o melhor aproveitamento no corte de moldes e tecidos, evitando o desperdício desses materiais e reduzindo o impacto ecológico da captação de novas matérias-primas na natureza.

A produção de artigos de moda sustentáveis, com o uso de materiais recicláveis e/ou fibras naturais, incentivando a geração de trabalho e de renda entre comunidades carentes e cooperativas de profissionais, também é uma tendência em ascensão no Brasil.


Continue lendo:  

Três perguntas para Daise Menezes Guimarães, mestre em Sociologia e professora do curso de Design de Moda do Centro Universitário Estácio

 

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