Terça, 26 de abril de 2016

Pelo fim da crueldade!

“No Brasil, até muito pouco tempo, os militantes pela proteção animal eram objeto de deboche. Mas hoje ganham cada vez mais espaço. Nas redes sociais, as denúncias pipocam e são condenadas por milhares de pessoas.”

Maria Dalce Ricas * redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Domínio Público

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Aprisionamento, venda de animais silvestres e maus-tratos inimagináveis, não somente no Brasil, são algumas das mais fortes expressões do antropocentrismo humano. Curiosamente, as mais fortes religiões têm preceitos sobre respeito aos animais, que parecem não tocar grande parte dos fiéis. Vários filósofos já abordaram o assunto.

Uma das abordagens mais conhecidas foi de René Descartes, no século XVII. Para ele, os animais não têm alma, logo não pensam e não sentem dor. A afirmativa hoje, além de execrada, é ingênua. Mas durante muito tempo serviu como justificativa para muita crueldade e indiferença ao sofrimento animal infligido pelos seres humanos. 

O famoso filósofo francês Voltaire (apelido de François Marie Arouet respondeu a Descartes: “Que ingenuidade, que pobreza de espírito dizer que os animais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam!”. O escritor escocês  John Oswald, que morreu em 1793, argumenta no livro “The Cry of Nature or an Appeal to Mercy and Justice on Behalf of the Persecuted Animals” que “se cada ser humano tivesse que testemunhar a morte do animal que ele come, a dieta vegetariana seria bem mais popular”. Afirmativa semelhante foi feita pelo beatle Paul McCartney: “Se matadouros tivessem paredes de vidro, ninguém comeria carne”.

Mais tarde, no século XVIII, o filósofo britânico Jeremy Bentham argumentou que a dor animal é tão real e moralmente relevante como a humana. E que “talvez chegue o dia em que os animais venham a adquirir os direitos dos quais jamais poderiam ter sido privados, a não ser pela mão da tirania”. Bentham afirma ainda que a capacidade de sofrer e não a capacidade de raciocínio deve ser “a medida para como nós tratamos outros seres”. Se a habilidade da razão fosse critério, muitos seres humanos, incluindo bebês e pessoas especiais, teriam também que serem tratados como coisas, escrevendo o famoso trecho: “A questão não é ‘eles pensam?’, ou ‘eles falam?’. A questão é: eles sofrem?”.

E a bimilenar cultura chinesa, que durante muito tempo foi endeusada, hoje é mundialmente e duramente criticada por matar milhares de gatos e cachorros para consumo. Inclusive roubados de seus donos. E também por contribuir para a extinção de uma das mais belas criações da natureza, que são os tigres, além de ursos, rinocerontes e outras espécies. A chamada “medicina tradicional” utiliza e vende a ideia de que seus órgãos curam diversas doenças.

A morte a pancada (para não estragar a pele) de milhares de filhotes de focas anualmente, de milhares de golfinhos na Dinamarca e Japão. As cruéis touradas na Espanha. O esfolamento de arminhos e raposas vivas para a produção de casacos de pele. A extração de penas de gansos vivos para fabricar travesseiros e edredons ou foie gras, torturando-os. A vivissecação (experimentos “científicos” em animais vivos)  e muitos outros “costumes culturais” ou “atividades econômicas” são cada vez mais rejeitados em todas as partes do mundo. Inclusive por grande parte da população dos países onde isso acontece.

No Brasil, até muito pouco tempo, os militantes pela proteção animal eram objeto de deboche. Mas hoje ganham cada vez mais espaço. Nas redes sociais, as denúncias pipocam e são condenadas por milhares de pessoas. Há alguns dias uma delas explodiu: em Oliveira (MG), um rapaz de 20 anos espancou e enforcou uma cadela. O crime foi filmado e repercutiu internacionalmente. Preso, ele declarou que fez isso porque ela estava no cio e não deixou ele a família dormir em paz.

O rapaz pode ser condenado, com base na Lei de Crimes Ambientais, a uma pena ridícula (até três meses de prisão), como aliás ela prevê para qualquer tipo de crime ambiental. Mas sua prisão e reconhecimento legal do crime é, sem dúvida, uma demonstração de como avançamos em nossa relação com os animais.

Recentemente recebemos no Projeto Asas (Área de Soltura de Animais Silvestres), que a Amda mantém em convênio com o Ibama e proprietários rurais, dois papagaios, levados por um casal que salvou suas vidas. A história de um deles mostra o caminho difícil que ainda temos nessa área: numa festa, eles ouviram barulhos em um quarto totalmente escuro da casa. Encontraram um dos papagaios preso numa minúscula gaiola, literalmente jogada entre diversas tralhas. O “dono” ainda tentou vendê-lo a eles.

Eles contaram que nos primeiros dias o papagaio não conseguia manter-se em pé, de tão fraco. E, durante mais de um mês, não saía de perto da comida e da água. Agora está bem, apesar de não conseguir voar.

Sou quase vegetariana (ainda como tilápia). Mas o objetivo deste artigo não é este. É contribuir para fortalecer a causa da proteção e respeito a animais silvestres e domésticos, homenageando aqueles que lutam por isso. E termino citando Mahatma Gandhi, que afirmou que a grandeza de um país e seu progresso podem ser medidos pela maneira como trata seus animais. Mas se pensarmos que nem conseguimos ainda acabar com os maus-tratos a crianças (filhotes humanos), imagine com os animais... 

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Comentários

Jaciara

Prezados (as), bom dia. Poxa, é uma linda ação. É triste ver um animal todo machucado com esse da foto e quantos por aí. É triste.


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